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A Ultima Noite
Texto Marcos Mazzaro

Nunca houve noite tão escura. Névoas recobriam ruas desertas. Nenhum carro, nenhuma alma. As luzes apagadas cochilavam esquecidas em seu corpo. Eu? Transitava pelas avenidas embriagado de sensações. Jamais um filho da madrugada abandona sua amante, sua cidade. Ele a ama com ternura louca, mais ainda na sua noite mais escura. Onde estavam aqueles tantos que desfilavam grifes ambulantes? Onde se escondem agora os camundongos que se multiplicavam com as luzes das vitrines? A cidade nua tem vergonha da antiga beleza. Mas não vejo razão.Mais linda ela é agora. Quando a percorro através de seu silêncio.
Jamais havia presenciado fato parecido na História. Já havia algum tempo que Ela vinha sendo abandonada.As pessoas saiam apressadas de seus cubículos, mansões, barracos, e sabiam que não voltariam. Naquele final de dia o Caos era total. Aglutinavam-se carros, ônibus, trens e os aeroportos já haviam despachado o último avião absolutamente lotado. A população tomava rumos diversos. De todos os cantos, de todos os bairros, de todas as favelas, de todos os morros, uma multidão debandava. Alguns nem se davam ao trabalho de levar os pertences. E eu vi_ juro!_ no rosto de muitos o intenso desejo de ficar, mas faltava-lhes coragem. Curiosamente uma forte solidariedade surgia entre toda população. Estranhos tornavam-se camaradas. Inimigos trocavam gentilezas, desesperados diante do inevitável.
No ultimo dia fui até a Linha Vermelha, principal foco de dispersão, acompanhar os acontecimentos. Era espantoso! Os caminhantes, formando um grupo de quilômetros de distância, se associavam, tentando se consolar diante do momento absurdo. Tudo era motivo de nostalgia! Até da violência bruta, dos arrastões, do tráfico, das balas perdidas, alguns sentiam saudades. Como esquecer aquele mar selvagem? E a alegria dos verões, os corpos dourados, os beijos roubados na areia? Caia a tarde quando resolvi voltar para o meu apartamento, em Botafogo. Todos iam. Eu resolvia ficar!
Da janela, no meu cantinho, agora só via o Pão de Açúcar. Os bondinhos não o cruzavam no seu vai e vem encantador. O Redentor havia sido retirado, preservado por uma empresa multinacional. Meditando sobre o que ocorreu nos últimos anos lembrei do primeiro boato. A tendência era zombar e rir. Multiplicavam nos jornais charges, quadrinhos, piadas sobre o assunto. Na praia, no chopinho, no futebol, dava o que falar. Até a Escola de Samba, Campeã no ultimo Carnaval, anunciou que aquele seria o samba enredo. Mas eu notava em toda aquela exaltação uma pontinha de preocupação. E a questão ficou séria quando uma reportagem no Show da Vida abordou a enorme possibilidade. Vou avisa-los, porém, que não me enquadrava no caso dos céticos, e muito menos dos desesperados. Para mim, tudo era indiferente (e fascinante) ao mesmo tempo.
Não sentia medo. Estranha paz e felicidade me transbordavam. Desci para a rua em direção à Praia de Copacabana. Tudo escuro. Tudo deserto. Nenhuma criatura. Só a noite, sem lua. E o silêncio das ondas do mar. Quantas vezes, nos reveillons, multidões cruzaram aquele túnel? Agora, era tudo absoluto Vazio. Embriagado, claro que reservei as melhores garrafas de vinho para tal momento único, me estendi na areia. Nu, senti o mar batendo forte e a névoa avolumando-se parecia vir ao meu encontro. Mas um horizonte me sorria. Uma linha tênue dividia meus pensamentos.A respeito da profecia: quantas dúvidas, quantas certezas, quanto nada! E o que restaria seria só o estar ali, presente, embriagado, apaixonado por sensações, sentimentos, emoções...turbilhões sempre por vir.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 10h10
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Origens

Texto Marcos Mazzaro
Acendo a luz. Minha sala cheira incenso Sinto-me feliz por chegar no meu cantinho, em Botafogo, após um dia exaustivo. O dia fora tenso. O melhor é relaxar. Tirar a roupa. Tomar banho. Deixar a água cair. Tento esquecer o trabalho, as obrigações cotidianas. Um café. De repente, um bom DVD. Uma música? Mas acabo me conectando á Internet e recebo um e-mail de um primo. Arquivo Anexo. Imagem. Quando a vejo o inesperado penetra o espaço, o tempo, o corpo e a alma.
Era só um menino de pouco mais de quatro anos de idade. E brincava em uma ilha no meio do Rio Paraná, entre o estado de São Paulo e Matogrosso do Sul, perto de uma cidadezinha chamada Presidente Epitácio. Naquele dia quente, especialmente, ele percebia a textura da terra, o mato baixo e a parecia reconhecer cada cômodo da casa dos aldeões, de sapé, que seus pais visitaram. Sentia tudo intensamente: o cheiro do feijão no fogo e o início da manhã prometendo muitas aventuras, quando a canoa, num solavanco, avisava os corpos da chegada. Os primos também estavam excitadíssimos. Ansiavam desbravar a ilha que ele conhecia muito bem. O maior divertimento do moleque era empunhar uma vara de bambu e sair em disparada pelo matagal. E bem sei de um dia em que ele se acidentou. Quase furou a bexiga!
Outro divertimento: olhar fundo nos olhos dos calangos, alguns verdes, outros, já maduros; imaginar o que aqueles bichos estariam sentindo. E sua Ema de estimação o que pensava, quando engolia seus carrinhos? Seus pais, Dorcas e Roberto, o percebem de longe_ estão à vontade com Dona Du e Seu Joca. Conversam sobre o tempo, a pescaria, os peixes, a última enchente que tudo arrasou. A mãe de vez em quando dá uma espiada. Mas agora ele parecia se divertir à mesa, entretido com a comida bem temperada. Coisa rara: pensou Janilda, a babá. O menino é ruim de boca. José Roberto era um homem feliz. A mecânica na beira da estrada já rendia um dinheirinho. E ele também se distraia com a pescaria. Dorcas muitas vezes o acompanhava. Mas nem sempre. A menina, Amélia, ainda criança de colo, dispensava cuidados.
Depois do almoço o garoto foi para a beira do rio. Ficava ao lado do pai, perguntando todos os porquês. Não vá entrar na água, menino! Acabou de comer... Faz mal! Mas ele não estava nem aí. Acabou arriscando um mergulho rápido. Só pra sentir a água fresca tomar conta de seu corpo. De vez em quando seu pai fisgava um lambari. Mas a melhor sensação, para o moleque, era simplesmente estar ali e sentir a brisa tocar seu rosto de leve, como uma carícia.
Nada o deixava mais feliz do que sentir todos os gostos que a Vida lhe oferecia. Nada o exaltava mais_ os sentidos_ que o intenso contato com o verde, a terra, o cajá retirado do pé, ou estender-se debaixo da figueira, que ficava nos fundos da ilha. A árvore misteriosa, na sua imaginação, abrigava seres de outro mundo. Observava o pai e a mãe_ apaixonados. Sentia no ar o desejo deles. E eles, sábios, o ensinavam que Amar a Terra e tudo que nela existe pode ser absolutamente libertador.
Ele, o menino da água, era eu. E talvez ainda seja. O que guardo dele é mistério e encantamento. Em algum momento naquela tarde, o pai registrou a cena, na foto que acabei de receber do meu primo. Estou agachado ao lado de Dona Du. Os olhos atentos, vivos, querem brincar mais. Mas a tarde vai cair. E daqui a pouco tudo só será silêncio. No Rio de Janeiro, em algum lugar do presente, um odor familiar de terra molhada, de água doce, parece chegar misturado à xícara de café.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 21h38
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Helena (FINAL)
Parte 3
Texto Marcos Mazzaro

O corpo de Helena pesava como chumbo_ a cor do mar acinzentado_ enevoado de dúvidas. Sentimentos turbulentos surgiam sem que ela sequer pudesse perceber a origem. Era como um tremor brotando num lugar que ela até então desconhecia. Os soluços estancados há muito pareciam brotar sorrateiramente em cada poro, em cada célula, no vai e vem de sua respiração. O peito arfava, ansioso de ar e o que vinha era dor incontrolável. Sabia, porém, no íntimo, que tais emoções nem se justificavam a partir da cena que presenciara. Sabia _ ou pressentia?_ que os sentimentos não tinham origem determinada. Eram como o mar revolto que a hipnotizava e a deixava na praia imóvel, apesar da chuva e do vento cortantes.
A angústia que sentia já se anunciava antes, na noite, nos pesadelos, nas sensações que a invadiram naquela manhã misteriosa. Mas de repente, sem justificativa, tudo parecia se dissolver. Como os respingos da chuva e das ondas que chegavam até seu corpo trêmulo. E se tudo fosse sonho? E se aquela dor que sentia, tão quente e tão fria, tão escura e tão clara, tão dual, tão plena, fosse pura ilusão? Sim, pois na medida que a chuva se intensificava e que a confusão do afogamento dos surfistas se resolvia, na medida que a tarde caia, deixando-a sozinha, transformando-a em somente mais uma personagem...Ela sentiu uma estranha paz.
A noite começou a cair e ela subiu para seu apartamento. E deparou-se com mais uma surpresa. Um recado na secretária eletrônica do marido(?) avisando-a de uma viagem urgente para um lugar indeterminado. Mais uma resolução repentina da Vida tentava surpreende-la. Mas o mais estranho era que ela achava tudo natural. Estaria a beira da loucura? Talvez não. Olhando pela janela, naquela noite que se desmanchava no ar Helena teve a impressão de ver um anjo sobrevoando o Mar, próximo de seu edifício. Se ela delirava, não tinha certeza.
Tudo que era tão real de repente diluíra. E o mosaico parecia sempre se refazer, com novas combinações sempre inesperadas. Num gesto de abandono, consigo mesma e com o mundo, Helena se debruçou no parapeito de sua janela. Sentia a paisagem ainda enevoada pela chuva, ressaca e névoa invadir sua alma. Era o sonho que era real ou o real era o sonho? E o anjo_ Ìcaro_ passeava, a rodeava, parecia corteja-la. Gozava com os pingos de chuva que caiam sobre suas asas. Dava vôos rasantes no mar, como se desejasse se aproximar. Dela, Helena, que se sentia uma quimera.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 22h55
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Helena
Parte 2
Texto: Marcos Mazzaro

Naquele instante Helena resolveu que não iria trabalhar. Da janela, no Arpoador, de onde poderia ver de perto o mar de Ipanema, o Morro Dois Irmãos e a Vieira Souto quase tomada pelas águas que invadiam a calçada, ela presenciava toda a movimentação daqueles jovens intrépidos que cavalgavam um mar selvagem. E aquele rapaz que vira neste movimento, aquele jovem que com ousadia driblava a ferocidade daquele instante, parecia se exibir num balé que beirava o sonho. Brumas sutis de vez em quando o envolviam.
Absorvida pela cena, Ela não poderia medir sua duração. Só sabia sentir: o mar, o vento, as névoas, o cheiro intenso da maresia que chegava até sua janela, o corpo dele, daquele menino homem encantador, beirando as fronteiras da Vida com sua impetuosidade. O grupo desaparecia. Só o desbravador das ondas se destacava e impregnava a pele e a fazia plena num lugar até então absolutamente desconhecido. O mar batia revolto e parecia arrastar tudo para outra dimensão. Até aqueles jovens, até Ele...De vez em quando sumia para ressurgir novamente cavalgando as ondas de mais de 3 metros.
Nunca uma ressaca no Rio de Janeiro fora tão violenta. Jamais também as forças naturais se mostraram tão prenhas de vida e morte. Num segundo, num repente, toda aquela cena se transformava. Os jovens surfistas haviam simplesmente desaparecido. Inclusive Ele, que tocara o corpo e a alma de Helena em um lugar distante. Helena desesperou-se. Uma mistura de torpor e despertar se fundiam. Eram as suas águas espumando emoções contraditórias. Rapidamente se vestiu e desceu para o calçadão.
O Caos já se instalara. O calçadão e a praia estavam tomados por curiosos que assistiam a tentativa de resgate. Alguns salva-vidas mergulhavam arriscando-se: tentavam retirar do mar alguns os rapazes que se debatiam contra a força do mar. Outros indignados resmungavam o absurdo: como não impediram aqueles tresloucados naquele dia tão perigoso? Helena não conseguia se conter. Ia cortando a multidão que se aglomerava na praia. Tinha ânsia de localiza-lo, de saber que Ele estava vivo.
Tal era o seu desespero_ agora chorava convulsiva_ que muitos poderiam imaginar que fosse um parente, uma namorada, alguém muito próximo aos rapazes envolvidos na tragédia. Ela percorreu a areia úmida e lotada, olhando um por um dos surfistas desnudados, recebendo os primeiros socorros. Ao todo eram oito os garotos afoitos que adentraram o mar naquela manhã misteriosa. Sete tinham sido resgatados e um deles, justamente o líder, estava desaparecido.
Já era mais de duas da tarde quando a praia novamente se esvaziava e Helena lá permaneceu. Pôde ver os familiares chegarem e levarem os garotos. Conseguia ouvir os comentários, as justificativas esfarrapadas dos rapazes para seus atos temerários. Ouviu também o lamento de um deles, provavelmente o melhor amigo de Alex, sim era esse o nome daquele que visitou o corpo de Helena à distância! Alguns helicópteros de salvamento rodeavam os arredores, tentando localiza-lo. Mas o mar irônico era só vazio e Mistério.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 12h12
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Só por Hoje...Helena
(Parte I )
Texto Marcos Mazzaro
Foto: Tiago Bianchini
Ela nunca esquecerá aquele longo dia e também a noite misteriosa que o precedeu. Nem tampouco o pesadelo que a despertou aos prantos. Eram imagens confusas de homens em guerra, de corpos esquartejados, de gritos de dor de uma nitidez apavorante. Ela, no centro da batalha com as vestes rasgadas, suplicava perdão. Nem dava também pra ignorar a imagem do mar e o som estrondoso das ondas batendo na praia de Ipanema, num dia de ressaca invernal.Aquela paisagem, que sempre procurava como fuga nos dias ensolarados de verão, era sinistra.
Na sala, para onde Helena correra desesperada e num ato louco abrira a janela, estava o marido, estendido, nu, jogado como um objeto de mobília que não combinava com o todo da decoração. A cena mostrava a decadência de sua vida, de seu casamento, daquilo que um dia julgara ser felicidade. Angustiada se dirigiu para a cozinha, preparou o café da manhã e o esperou acordar. O jovem (e precoce) vice- presidente de uma das maiores empresas de navegação_ ele acabava de fazer 30 anos_ há muito não se deitava com a mulher. Chegava bêbado e drogado pelas madrugadas.
Quanto a isto ela nem se importava. Conhecia bem o ambiente que freqüentava. Tais atitudes eram quase sociais e de uma naturalidade espantosa. E se hoje se abstinha era muito por uma necessidade de equilíbrio, de paz, que vinha buscando havia alguns anos. Mas o marido não acompanhava tal transformação. Aos poucos só ficava a distância e a repugnância que não sabia a exata origem. Afinal ele ainda era o sonho de consumo de muitas adolescentes e socialites do Rio.
Ele se levantou calmamente. Beijou sua boca e foi se preparar para o trabalho. Em minutos estava vestido, barbeado, perfumado. Era admirável sua eficiência, mesmo após a noitada: um executivo atípico, pós moderno as avessas. Acordava cedo. Gostava de ter tudo sob controle pela manhã. Depois do meio dia ia pra academia, suava, e retornava à empresa. Saia de lá tarde da noite. E não eram raros os convites para festas regados à champanhe e outros aditivos.
Um outro beijo, agora mais longo, envolvente. Helena sentiu novamente a vertigem que amolecia seu corpo quando se conheceram há 10 anos. Quando Menelau saiu e bateu a porta aquela sensação antiga, quase ancestral, a conduziu pra janela da sala novamente. O mar estava ainda mais zangado. Ondas poderosas pareciam respingar no calçadão da Vieira Souto. E o Morro Dois Irmãos coberto de nuvens poderia bem ser o Olimpo pleno de tensões, desejos e jogos de poder.
De longe ela podia ver...Um grupo de surfistas em plena algazarra no quebra mar, apesar do perigo. Um em especial cavalgava as ondas e as desafiava. Era um embate sublime entre a Vida e a Morte. Uma cena tensa e ao mesmo tempo encantadora que, na sua singularidade, revelava a possibilidade de um mundo mais iluminado.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 11h23
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As Redes de Hefaístos
Texto : Marcos Mazzaro

Protegido em seu esconderijo, uma caverna coberta por heras e trepadeiras, localizada no final de uma trilha, ele degustava sua vingança. Sentimentos intensos brotavam no corpo, na alma. Como o fogo subterrâneo que sempre usava para forjar suas armas. Tudo doía. No seu canto ele guardava segredos, como o material da teia fina que somente ele sabia tecer. Uma rede fina de aço, quase invisível e que prendia de modo cruel suas vítimas. Mas não podia deixar de se olhar. Um espelho mostrava o seu corpo disforme e também revelava que algo nele ultrapassava aquela condição inferior, que ele mesmo se atribuía nos momentos de angústia: traços extremamente masculinos, a boca carnuda, os olhos cor de mel, faiscantes. Havia um encanto escondido ali. Apesar de uma das pernas ser completamente deformada. Seu pai o jogara das alturas do morro quando ele, aos seis anos, sem querer contou pra sua mãe uma de suas aventuras amorosas. A outra perna, ironicamente era perfeita demais, musculosa e viril.
O espelho refletiu também naquele instante o ódio materno. Desde o incidente com o pai a mãe o desprezava. Resmungava pelos cantos da casa que tinha um filho inútil, um deficiente, e que ele deveria procurar uma pensão para se sustentar. Sua resposta para tanto repulsa foi sutil. Tornou-se o artesão e artista mais respeitado da comunidade. Era ele quem criava o desenho das armas, dos objetos de metal. Dominou com tal maestria a fusão do ferro e fogo com outros metais que ficou conhecido internacionalmente. Era um mestre do forjar, do tecer, do criar...
E naquele momento paradoxal no qual amor e ódio se fundiam sentia-se como se fosse forçado a se iluminar. Ele percebeu o quanto ainda era apaixonado por sua ex mulher, a mais bela das belas, a forma perfeita de mulher. O casamento fora uma imposição de seu pai. E a mais intensa das mulheres não se saciava com um homem só. Deitava e rolava nas suas barbas e ria de sua perna coxa. Enojado, ele preparou a primeira rede. Prendeu nela os amantes, exibindo-os pra toda a comunidade, nus, em pleno auge do gozo. Chamou os amigos e inimigos para rirem de sua vida corna. E sentia um mórbido prazer com a vergonha que ela sentia. Apesar de sua promiscuidade, apesar de ser a própria personificação do amor carnal, sua esposa sentia constrangimento.
Pude ver uma lágrima escorrer dos olhos dela quando todos tripudiavam dele, o corno feliz! Acaso aquela lágrima, seria um lamento? Acaso ela teria percebido o quanto ele apesar de todos os seus defeitos a amava? Seu parceiro sorria triunfante. Não via que sua partner chorava. Ela era só mais uma conquista! Que todos vissem como ele era macho e conseguia domina-la. Sim! Apesar de exposto o garanhão continuou a possuí-la num movimento frenético, como se sua virilidade, em si, fosse o mais importante. Ela nada mais desejava: forçada pelo amante, rendida, violentada não no corpo, mas em outro lugar que agora visitava.
Meditando em sua caverna ele continuava a sentir a vida o ultrapassar como as espadas que criava para os guerreiros. A vingança fria, degustada na sua ex mulher, e também em sua mãe, que à aquela hora ainda implorava para conseguir sair de uma cadeira finíssima que ele lhe mandara como um presente de grego. A velha estava atada a seu trono, imobilizada há anos e desde então ele fugira para seu esconderijo para saborear suas vitórias.
Para seu pai preparava um outro ardil! Havia chegado o momento de libertar sua ex-mulher e também sua mãe...Assim armava o cenário. Seu pai, um demagogo da Paz, sentiria a dor da Guerra. Este seria seu próximo passo! Forjava os elementos para uma grande destruição. Revelaria para o mundo o sofrimento através da peleja entre Gregos e Troianos. Um pomo de ouro para a mais bela das mulheres seria o ponto de partida! E sua mulher seria conhecida como a provocadora da maior desgraça do mundo conhecido! Do Amor e do Desejo...Haveria de surgir Desespero! Tão absorto neste pensamento estava Hefaístos, tão envolvido em sua própria teia, que não notara: um jovem deus, recém emancipado, Dionísio, descobrira finalmente seu esconderijo e se exibia sedutor. Trazia na mão uma taça de vinho e o convidava a esquecer.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 09h48
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A Ausência de Ulisses
Por Marcos Mazzaro

Névoas vez em quando cobriam a lua crescente. Ela só iluminava parte do mar. E aquele homem, já há dias e noites jogado ao sabor das marés, agarrado numa tábua já podre, mas que até então o salvava, quase perdia a consciência. Corpo e pensamento e sensações eram um bloco só, compacto e brutalizado. E se nesta noite nebulosa eu não conseguisse mais retornar? Tudo em mim oscila, como as ondas do mar. Galopam cavalos selvagens juntos ao meu corpo inerte.
Desnudado por mim mesmo, último sobrevivente de uma linhagem de guerreiros e marujos, nada me resta senão esperar que o tempo se cumpra. O fio da esperança me escapa. As forças estão indo. Sinto que resta pouco pra que a alma deseje se libertar deste corpo exaurido...Serei por acaso lembrança um dia trazida pelo vaivém das águas? Não sei.
Como é difícil esquecer o que se deixou para trás! Em algum lugar, quem sabe, meu filho empina pipa ou joga botão. Não muito longe meu amante tece sua rede ou me espera em vão para mais uma noite. Ou quem sabe cansado de tanta ausência entregue seu corpo jovem e fresco a muitos outros, desiludido pelo amor...
Em um ponto qualquer, no tempo e espaço, todos que conheci, até aqueles que encarei de passagem, vão se recordar de mim, ou de minha voz, ou do meu jeito cheio de malícia. Talvez um escritor abusado resolva narrar minhas desventuras. Em uma era não muito distante, porém, serei absoluto esquecimento.
O dia começava a nascer. O sol brotando no mar, apontando ainda num céu alaranjado e rosa...Era inevitável pensar naqueles que jamais iria rever. A saudade brota sorrateira e as horas passam rápido numa seqüência de dias. A saudade é uma dor fininha descortinada pela errância...Ela me invade o corpo através do sol causticante, da água salgada, dos abutres em vôo rasante prontos para o golpe final. Balançando ao sabor das correntes marítimas lembrei de meu cachorro, que num dia de tempestade, anos atrás, fez questão de me acordar para que eu trancasse a porta e evitasse um assalto. Ele com certeza seria o primeiro a me reconhecer. Talvez neste exato momento pressentisse minha morte.
Boiava. Mas ainda via os olhos embriagados do Cíclope adormecido e as belas formas de Circe. Impossível não lembrar a comicidade da cena: meus marujos fuçando o chão como porcos. E ela rindo, quase pomba-gira. Cada onda batendo, ora açoite, ora conforto para o corpo era, também, pensamento indo e vindo. A certeza da incerteza da trajetória e também do retorno. Ao longe podia ouvir o canto das sereias Ai que ninguém volta ao que já deixou. Ninguém larga a grande roda...Ninguém sabe onde é que andou... Esta melodia misteriosa que enfrentei me acorrentando ao mastro do navio. Esta vontade insana de retornar sempre e mergulhar nas águas da Vida e sorver todos os prazeres do mundo. E viver tudo, absolutamente tudo, novamente, sem arrependimentos! Tal desejo me enlouquecia. Pressentia que mesmo retornando, mesmo vencendo este último desafio, nada seria como antes.
Não existia mais tempo nem espaço, nem dia, nem noite, nem lua, nem sol. Já havia perdido há muito o fio do real. Esta linha que talvez alguém tecesse para no dia seguinte desmanchar. Todas imagens se misturavam. Amigos feridos de morte, no calcanhar de suas fraquezas. O desespero de outro que, não desejando se render aos inimigos resolveu, ele mesmo, enfiar sua espada no peito, num gesto mortal. Tudo agora era ou parecia um sonho. Até a onda quente que me lançou numa praia. Jogado na areia, delirava. Ouvia vozes distantes. Entre elas um riso familiar e um cachorro que latia pleno de felicidade.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 12h09
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Ícaro
Por Marcos Mazzaro

Meteoros solitários cruzavam o espaço sideral. Num ponto luminoso do Universo, luzes, miríades de estrelas nascendo e em explosão fechavam ciclos. Olhando em volta, podia-se ver o Caos e a Ordem em harmonia, e os cometas engolidos por buracos negros de solidão. Num canto deste mundo imensurável, dois anjos, enamorados, comiam uma torta de chocolate e se deliciavam. Tinham o riso e a paixão expressa nos corpos unidos lambuzados pela guloseima, nas bocas se tocando levemente, no ensaio do desejo que só eles conhecem. Não, caro leitor, não imagine neste ato lascívia, luxúria, gula ou algo por demais humano. Era tudo um quadro de inocência difícil de descrever.
Por um instante, eles olharam ao redor e além daquela perfeição só esboçada pra nós, humanos, nos raros momentos de êxtase. E viram dor e sofrimento espalhados por todos os mundos. Eles, anjos da Vida e do Amor, largados num ponto da Via Láctea, sentiram a aflição dos partos e das mortes, dos enlaces e rompimentos, da fome e da abundância. E quanto mais unidos por aquele sentimento transcendente mais percebiam a angústia de todos que viviam.
Sentiram na alma os animais mais minúsculos se agonizando, a cadeia que lança o caçador em direção a caça_ um guepardo faminto, pronto para um bote, de olho num bando de gazelas_ e num mesmo momento, mix de sensações, um homem devorava outro num quarto sujo e com cheiro de porra. Era um caleidoscópio assustador: sangue e guerra nos desertos, florestas e cidades, a história humana e suas lendas. Átila incendiava aldeias, Romanos se saciavam com os subjugados. Religiões de diversas origens reivindicavam no chicote e tortura a supremacia de seus deuses. Cogumelos atômicos explodiam em diversos planetas, transformando em fumaça um instante de ternura. Apocalipses encerravam e fundavam novos ciclos em Terras desconhecidas.
Ainda assim, desolados pela dor a sua volta, eles continuaram emanando Amor. E observaram um homem, debruçado à beira da janela de um apartamento, em uma metrópole. Ícaro admirava o céu límpido de uma noite de verão. Ouvia Everbody Gotta Learn Sometimes... “Now I need your love...like the sunshine”. E chorava. Mas suas lágrimas não o impediam de ver os carros e motoristas impacientes, a massa infeliz de pessoas voltando de um dia de trabalho. Seu choro iluminava a Torre imponente de um shopping que gargalhava indiferente às mazelas dos que o ocupavam nos dias de labuta.
Da janela, Ícaro via o brilho das estrelas cintilando, ferindo seus olhos úmidos. Por um instante ele teve a esperança no colo. E imaginou-se com asas, pronto pra desbravar o mundo num vôo infinito sem ponto de chegada. Naquele exato momento os anjos amantes, lambuzados de torta de chocolate, olharam pra ele. E realizaram seu Desejo.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 19h52
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Narciso
Texto: Marcos Mazzaro

Não eram nem seis da manhã. O sol ainda preguiçoso. E Narciso estendido na areia da praia dormia com o mar de Ipanema. O corpo do belo de vinte e poucos anos, fundido à areia parecia comungar todo o nascimento do dia. Tinha sido uma noite misteriosa. A lua cheia debruçada sobre o mar, nasceu perto do Morro Dois Irmãos, iluminando até a favela, ali, logo na frente, cintilante de luzes. E ele perambulou pelo calçadão da Vieira Souto pensativo por toda a madrugada, meditando e sentindo tudo demais.
“Olhe menos pra você, agora! Mesmo que te contradiga todos os seus desejos. Observe o mundo. Neste instante sublime será o mais feliz dos homens!” Esta frase dita por um vendedor de cachorro quentes, este dito, alucinado na madrugada, não saia de sua mente. Mais ainda. A expressão simplória do homem contrastando com um toque de sabedoria o tornou mais inquieto ainda. Narciso não resistiu. E descobriu como é maravilhosa a visão da alteridade.
A lua nascia. Prateava o mar. As ondas iam e vinham num ritmo calmo. Casais de namorados passavam juntinhos. Um em especial lhe chamou a atenção. Eram dois velhinhos que juntos caminhavam também pela areia. A senhora idosa usava um chapéu florido. Dava-lhe um ar ingênuo, quase infantil. O senhor, nos seus quase noventa tinha a cabeça toda branca. Fizeram um banco de areia e sentaram-se de frente para o mar. Pareciam comemorar algo. De repente, num momento inesperado, Narciso viu. Faziam juras de amor e trocavam alianças.
Quando Narciso olhou para o lado viu também uma mulher. Linda, apesar de vestir farrapos. Grávida já de outro bebê. Os olhos das estrelas cintilavam pra ela, plena de esperanças. Ela sentou-se ao seu lado e resolveu contar sua vida: tinha sido abandonada pelo marido e agora vagava pelas ruas. Mendigava e se prostituía de vez em quando para os gringos. Caminhando pelo calçadão ou em direção à areia Narciso parecia sonhar. Uma névoa densa, chegava do mar. E o ar da maresia preenchia sua alma. Necessitava daquela umidade salgada. Era ela quem lhe acalmava e o relaxava diante do caos que as vezes presenciava. Não foram raros os momentos naquela noite no qual via policiais rondando a área, gente chegando de diversos cantos embriagados.
Narciso inquietou-se. De repente uma brisa forte atingiu seu corpo com gosto de maresia. Uma leve onda o convidava a sentir mais, fundir-se com a natureza que gritava naquele espaço urbano. Sem roupa ele mergulhou no mar. E sentiu todas as ondas abraçarem seu corpo. Narciso era, naquele instante, a Lua reinando na noite, o casal de velhinhos enamorados, o céu da cidade, de poucas estrelas, a mulher vagando pela noite, com uma criança e já grávida de um desconhecido. E alguém muito longe cantando uma música de Cazuza: Eu Preciso Dizer que Te Amo. Ele sabia que era tudo isso e mais ainda porque comungava com todos sentimentos e sensações ao redor e quem sabe além_ onde nem sua imaginação poderia alcançar.
Narciso não soube me dizer quanto tempo ficou saboreando as águas do mar e todas suas visões e sensações intensas. Adormeceu na areia, quase nu. E as seis da matina, quando o sol feriu seus olhos, acordou com a surpresa de um beijo. Na sua frente um homem, quase espelho, sorriue lhe disse: “Bom dia!”.
A cidade acordava. Alguns andavam apressados, outros nem tanto. O jornaleiro abriu sua banca. Os botecos das ruas transversais fumegavam o cheiro do pão com manteiga e café. A Lua já se despedira dos homens. O sol se intensificava no vigor do Verão. E eu vi esses homens parecidíssimos unidos, de mãos dadas, pela areia, alheios a todo movimento urbano. Caminhavam com a intimidade daqueles que se conhecem há milênios...
Escrito por MARCOS MAZZARO às 13h34
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Liberdade, Liberdade, Abre as Asas Sobre Nós
Texto: Marcos Mazzaro
Dia desses estava muito triste. O tempo nublado, as chuvas intermináveis de janeiro, o trânsito dos carros, o afobamento das pessoas, as poças de água. Tudo me aborrecia. Parei em frente a uma banca de jornal e para piorar li as más notícias estampadas: crise política, violência, catástrofes em diversas partes do mundo. Esse sentimento intenso de incômodo crescia mais e mais até que de repente, olhei e vi a cena_ uma criança lourinha de desnutrida cutucava a mãe, bêbada, estirada no chão tal um saco de batatas. O menino parecia desesperado, na ânsia de acordar a mãe. De repente, um guarda municipal interviu e levantou a mulher, chamando sua atenção para a criança que estava ali ao lado. Neste momento meu olho deu um close. Percebi claramente o sorriso do menino mirrado quando viu sua mãe de pé.
Foram só alguns segundos que levei pra notar o que estava acontecendo. Foi rápido e eficaz pois o que me chamou a atenção não foi a cena triste anterior, o desespero do menino, a mulher jogada no chão, mas sim o sorriso lindo que percebi, o brilho nos olhos que senti do garoto, que me atingiu do outro lado da calçada. Não sei exatamente o que o guarda municipal pensava. Mas naquele caso ele agiu bem. Eu o vi conduzindo a mulher, ainda trôpega, até uma padaria. Curioso, não resisti e acompanhei mais a cena. Ele ofereceu um café da manhã para aquela pobre criatura e para o menino um copo de leite. Meu olho zoom continuou a funcionar. E mais uma vez pude notar a transformação no semblante não só do menino, mas também da pobre mulher, completamente desorientada, mas feliz por se sentir amparada, mesmo que por um desconhecido.
Num passe mágico, minha tristeza sumiu. E eu pude imaginar que anjos existem. Num instante precioso parecia que a chuva tinha cessado, que o sol se abrira, que os homens eram felizes, que toda aquela parafernália de sentimentos que me dominavam não passavam de pura ilusão. Neste raro momento eu senti que tinha o Paraíso dentro de mim, como também deveriam caber o Purgatório, o Inferno e toda a Divina Comédia de Dante.
A beleza existe até nos dias mais tenebrosos. O Amor é possível diante de todas as contradições humanas, apesar de por natureza sabermos amar temos dificuldade de Amar.
E talvez o bem maior, anterior a todas as sensações e sentimentos, seja a Liberdade. Poder se sentir pleno a ponto de caber tudo: tristeza, melancolia, desespero, ódio, raiva e também alegria, encantamento, tesão, esperança. Isto nos torna Livres!
Ironicamente, quando sentimos na carne e no espírito a dor, quando ruímos em todas as dimensões de nossos seres múltiplos fica ainda o Desejo.Esse Anjo Lascivo que nos abençoa todos os dias, nos seduz num abraço. E amparado pelo seu corpo e asas, alçamos os céus e os infernos e a Terra em toda sua desolação e beleza. Nesse instante, começamos a viver.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 21h28
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O que não me mata me fortalece

Texto: Marcos Mazzaro
Tudo mudou. Ou foi a vida que transformada começou a mostrar sua nova face pra mim? Neste tempo, quando revi meus familiares e encontrei todo o carinho e amor do mundo vi o quanto eles são fundamentais para que eu exista.O ano de 2005 foi difícil. Muita intensidade e também decepções desastrosas. O que eu mais acreditava_ por simples ilusão_ desmoronou. Caíram as máscaras da Vida. Foi o ano dos contrários. Aquilo que parecia não Era. Igual a carta Lua no tarô. Quando ela surge pode ter certeza (?) que há ilusões, falcatruas, mentiras...mas também imaginação e sonho. Quando a Lua aparece nos conduz a um lugar borbulhante, escondido, que nos dá acesso ao que realmente somos e ao que podemos nos tornar. Há um preço em acessa-la. Doem as surpresas que ela nos prega com suas inúmeras faces... Resta-nos optar...olha-la e atravessar sua noite escura ou ainda se enganar com os desejos ocultos e a ilusão do mundo.
Deste contato intenso um novo corpo ta surgindo. Fiz duas tatuagens novas. Imprimindo na pele, através da dor, novos sentimentos e modos de ver a Vida. Procurei um nutricionista pra me alimentar melhor e poder fazer muito esporte. Decidi me amar mais. E o meu lema pra 2006 é o que coloquei no orkut através da parábola do Escorpião. A história é simples e a ouvi pela primeira vez no filme Traídos pelo Desejo, de Neil Jordan. Apesar de ajudado por um monge na difícil tarefa de atravessar um rio turbulento o Escorpião o pica. E diante do espanto do homem piedoso ele diz: É da minha natureza!
Sim! O que não nos mata, nos fortalece...Isso se você tiver a capacidade de seguir a sua essência. E veja bem. Não falo de algo estanque. Não me esqueço também o quanto a dita alma humana é circunstancial. Pode mudar num piscar de olhos pois nasce num lugar indeterminado, que mal acessamos...e pode_ se formos fortes para isto_ morrer e renascer transformada todos os dias. O monge por ajudar, _ e vejam bem, foi uma escolha daquele momento de sua essência_ corre o risco de morrer envenenado. E o Escorpião, apesar de grato, pode destruir quem o auxiliou num momento de dificuldade. Assim é. E cada um seguiu sua verdade. Alados pela nossa natureza podemos ir longe. E surpreender até quem nos traiu. Mais ainda: com a convicção absoluta que eles, os escorpiões, também podem renascer noutro dia sem vontade de inocular o seu veneno. Simplesmente, porque descobriram que não eram mais Escorpiões...e sim gazelas saltitantes!
Só há duas possibilidades para a mudança real(?): investigarmos –nos mais a ponto de descobrir outra essência dentro daquela anterior e simplesmente mudarmos tudo, a misteriosa Mutação. Ou quando olhados de modo diferente, nos tornamos outra coisa. Se alguém acreditar que o Escorpião é uma gazela... Em algum lugar ele já é outro ser! Um Feliz 2006 pra todos! E que o veneno inoculado pela Vida_ e que faz parte dela também! _ nos ajude a nos descobrirmos mais fortes naquilo que somos sem saber: divinos e apaixonados...bestiais e angelicais...encantadores e encantados diante de um gesto de carinho, ( como na foto escolhida) enfim, plenos, apesar de duais... simplesmente humanos, além do Bem e do Mal.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 07h52
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No dia em que eu fui embora...
Texto: Marcos Mazzaro
A porta do ônibus se abriu. Meu pai, mãe e irmãos me davam adeus de longe, na rodoviária. Meu coração pulava de alegria. Ao mesmo tempo, a dor fininha das partidas pipocava mesclada ao entusiasmo da vida nova que buscava. Ouvi ainda a voz do pai dizendo: “Não vá resolver ficar no Rio de Janeiro!” Eu tinha apenas 16 anos e, naquela época, o mundo ainda não tinha se mostrado totalmente para mim. Mas talvez eu já o pressentisse.
No caminho, de mais de quatorze horas, a farra foi intensa. Éramos tão jovens, intrépidos e ingênuos. Ainda não sabia quem eu era mas tinha a vaga noção do que poderia me tornar. Fiquei abraçado a um amigo que estava sentado ao meu lado. Olhava a paisagem passar, as árvores, o verde, a estrada e na noite somente as estrelas cintilavam. E o vento batendo na minha cara...Eu já era livre. Mas não sabia que poderia ser mais ainda.
No caminho, pensei nas namoradas que deixava, nos amigos que ficavam para trás, nas festas que promovia, no garage, onde tocava as últimas do Studio 54: Donna Summer, Fleetwood Mac, Grace Jones e tantos outros sucessos da Disco Music. Há três anos atrás eu me acabava nas discotecas, burlando seguranças, usando carteirinha falsa de identidade para entrar nas boates e nos cinemas para maiores de 18 anos.
Quando se está em trânsito a vida da gente vem como um filme. O cinema proibido que eu tanto assistia, Amor Bandido, de Bruno Barreto, ou o cinema de Walter Hugo Khouri, considerados pornográficos pelos puritanos. Ah... e as horas de tevê em excesso? . Quantas noites eu ficava pela madrugada assistindo Sessão Coruja, me deliciando com os clássicos do cinema americano ou com as novelas das 22 horas. Minha mãe ralhava comigo quando assistia Saramandaia ou O Pulo do Gato, histórias picantes, mas se olharmos com atenção bem construídas e também puras tentativas de retratar o Brasil.
Devagar ia amanhecendo. E eu via os primeiros sinais na estrada da vida pulsando. E as recordações das outras viagens vinham em profusão. Podia ouvir Il Etait une fois...La Revolution que meu pai fazia questão de tocar quando íamos para o Guarujá, na casa de um tio muito querido. A melodia suave me emocionou. Combinava com aquele nascer do sol na estrada nua. Corri pra cabine do motorista. Queria desfrutar cada segundo daquele amanhecer.
Chegamos ao Rio de Janeiro por volta das 14 horas. Era uma tarde ensolarada. O ônibus entrou pela orla, pois iríamos para o Hotel Nacional, em São Conrado. Meus amigos, enlouquecidos e bêbados na sua maioria, dormiam. O Rio de Janeiro se apresentava com sua luz, beleza e corpos dourados. Era puro delírio ver meninos e meninas lindas, desejo bruto, desfilando pelas praias. Copacabana, Ipanema, Leblon, O Chapéu dos Pescadores, (que eu já conhecia de um filme!) era tudo real!
De repente chegamos ao destino. As portas automáticas do Hotel se abriram_ o mesmo hotel onde filmaram a novela Feijão Maravilha, de Bráulio Pedroso. Nos acomodamos em turmas de dois. Estava cansado. Tirei a roupa e fiquei de bermuda. Meu amigo fotografou este instante.Relaxei na cama confortável, contemplando a paisagem e num gesto automático, como quem chega ao seu próprio quarto, liguei o rádio e tocou Imagine, de John Lennon. Era 8 de dezembro de 1980. O Ex- Beatle, um pacifista, havia sido assassinado por um fã louco. Senti por um momento um misto de revolta, espanto e tristeza. O sonho para muitos havia acabado. Mas o meu... estava apenas começando...

Escrito por MARCOS MAZZARO às 01h10
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Sede e Fome... de Real
Por Marcos Mazzaro
Confesso que hoje, segunda feira, acordei mal humorado. Primeiro dia de labuta, um fim de semana com muitas informações pra processar, a vida na sua intensidade me penetrando. Mas de repente olhei na janela do meu quarto, de onde vejo o Cristo Redentor e estava um dia azulzinho, com uma mancha branca riscada de nuvens. Um quadro belo. E que me enterneceu mandando a minha zanga para um outro lugar. De repente, senti que estava fazendo exatamente o que propus na crônica anterior, respirando a Vida em toda sua plenitude. Inesperadamente_ poderá parecer piegas mas é verdade_ um bando de pardais que fizeram ninho perto de minha casa começaram a piar...dava pra notar que eram filhotes com sede e fome de real. Agora neste instante eu os ouço, pois piam. Mas já estão alimentados. O tom deles é diferente, quando simplesmente saciados eles celebram a existência.
E assim me ocorre que o real em toda sua plenitude me invade gostosamente, com suavidade. Assim, inspiro as ruas e seu movimento frenético, a pressa das pessoas pegando ônibus, os rostos apressados, angustiados e sorridentes. Cada um com sua história de vida e sua beleza. O ar me invade os pulmões. Assim como o céu, o mar, os bondinhos do pão de açúcar na janela de minha sala. Lindos fragmentos de corpos: ombros, pernas, peitos, bocas, bundas que no verão se desnudam em movimento e fragmentados. A Vida gargalha e se retesa eriçada das partes. Tenta em vão capturar o Todo desejando... Assim, no limite, salivamos, ávidos de tudo que é belo.
Tudo bem. É segunda feira! Mas vi bocas celebrarem seus encontros num terno beijo, vi uma senhora em Copacabana observar o mar. Me lembrou uma pessoa muito querida. Parecia um quadro de Monet. Notei também um homem recolhendo papéis e latinhas num saco. Mas por algum motivo ele estava tranqüilo e catava o lixo com uma suavidade que nenhuma palavra vai descrever.
Parece que neste mundo maluco que vivemos_ extremamente Real e palpável_ tudo depende do foco. E do fogo que nos alimenta. Existirão aqueles que preferirão olhar só para as guerras, os atentados, o terrorismo, a fome, e as mazelas que nos invadem tanto quanto a beleza que valorizei há pouco. É uma escolha. Também não acho que fechar os olhos para as dificuldades ajude em alguma coisa.
O ideal talvez seja encontrar o meio termo disso tudo, atuar de alguma maneira pra tornar o mundo melhor. Os ingleses, que já puniram no século XIX o homoerotismo com prisão_ o caso mais famoso foi do escritor Oscar Wilde_ mostraram que o mundo pode ser melhor. Aceitaram e reconheceram os direitos civis dos homossexuais. A partir de 19 de dezembro gays e lésbicas poderão se unir sem impedimentos...
Daqui a pouco a noite cai e os pardais não vão piar. A noite trará para eles o silêncio. Uma brisa leve invadirá o meu quarto pela janela. Eu observarei o sol se por atrás do Redentor. Quase delirando poderei ouvi-lo dizer: “Seja livre e feliz de verdade e de preferência, esteja bem acompanhado!” Bom... Mas isto é papo para a próxima semana!
Escrito por MARCOS MAZZARO às 13h26
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Em busca do Tempo...Perdido?
Texto: Marcos Mazzaro
Não sei porque hoje acordei com uma música do Renato Russo buzinando meu ouvido. Esse “temos todo o tempo do mundo” ficou repetindo, o conhecido refrão de “Tempo Perdido”, que eu ouvia nos anos 80. Naquele período, quando cursava a ECO e estava dando os primeiros passos pra me tornar o que sou hoje. Naquele tempo a gente saia pra gritar por “Diretas Já”! Ou então absolutamente alucinados invadíamos o diretório acadêmico pra exigir também participação na Universidade.
Foi uma época de grandes paixões. Também pudera! A maioria das descobertas eu faria no ano seguinte, no Rock`in Rio. Naquele janeiro fervilhante, quando pela primeira vez encarei que o desejo tem tantas facetas quanto os diamantes brutos. Mas sem saudosismos. Era tudo também muito confuso. Mas olhando para trás vejo um Caos produtivo. Eu respirava Nietszche! E todos diziam que eu iria enlouquecer. Ah...quem dera estivesse enlouquecido antes...
Eu prometi e to cumprindo...Naquelas tardes quentes dos anos 80, exatamente nos anos de 84 e 85 observava uma garota que andava com um grupo de meninas, aparentemente bem caretinhas. Ela usava óculos. O que dava aquele ar de inteligência e intelectualidade. Mas eu só a observava de longe. Subitamente, ouço Hebert Vianna cantando a melodia do hit “Óculos”: Por que você não olha pra mim?...Me diz o que eu tenho de mal...Por trás desta lente tem um cara legal...” Puxa... eu também usava óculos! E não ousava me aproximar dela. Assistíamos os trabalhos um do outro. Era um grupo loucamente bom aquele da ECO. Mas com as esquisitices de quem tinha acabado de sair da adolescência.
Chegamos a fundar um grupo de teatro e dar os primeiros passos num texto que nunca esqueci: “Longa Jornada Noite Adentro” de Eugene O `Neill. Naquele tempo, perdido nem um pouco, pois o sinto agora, visceralmente, eu amava Edmund, o personagem que experimentara a liberdade num convés de um navio. Ele... sabia olhar para o Mar. Depois eu provei o amor em outras faces e fases, o amor da “Lira dos Vinte Anos”. O beijo revolucionário que acordou um mundo que ainda dormia. Um beijo terno entre dois homens.
Mas nós, eu e esta moça, não estávamos dormindo. Éramos, digamos, latentes. Esperando vinte anos para nos encontrarmos em uma amizade sincera e gratificante. Que cada vez se solidifica mais quando sentamos para colocar as novidades em dia, apesar de nossas vidas atribuladas.Tempos atrás falamos de amores distantes e eu, que acabo de fazer um vestibular, que acabo de me sentir imerso naquele tempo, por algum mecanismo inexplicável sinto a energia do Amor no ar. E quem sabe não será por alguém de longe e que esteja prestes a chegar. Alguém da terra de Renato Russo, de uma Legião Urbana que nunca vai calar... Sentimentos desabrocham na gente como uma rosa. Sutilmente. E exalam um doce perfume até mesmo nos dias nublados...Somos traçados por eles. De repente se manifestam quando menos esperamos. Tentamos nomeá-los em vão. Por que simplesmente eles são. Daí que músicas, imagens, ventam na gente...ampliam nosso espaço, nos tornam maiores e mais livres. Nos tornam conscientes do que somos. Sem tentar dar nomes_ o melhor é sentir (e respirar) o aroma da Vida.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 23h35
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Comece Onde Você Está
Por Marcos Mazzaro
Há muito não sento pra escrever uma crônica. Nos últimos meses meu mundo parece que acelerou. E quando se vive, geralmente não se escreve. Na verdade tudo surgiu numa conversa no Chaika, em Ipanema, com uma amiga que conseguiu ser antiga, recente e íntima num mesmo instante. Calma, caro leitor, explicar esta afirmação já seria outra crônica que prometo pra breve. Mas a conversa, puro tesouro, começou antes...Quando antes de ontem em um bar gay, eu, solteiro no Rio de Janeiro, conheci alguém aparentemente especial.
Mas pra começar, onde estou como diz o título hoje, vou logo esclarecendo que sou aquele tipo de pessoa que acredita que todos os encontros são especiais. Até os que não tomamos consciência...Por quantos não somos olhados sem saber e em quantos mergulhamos na alma só por um instante e não nos damos conta? E em outros nos iludimos e de repente percebemos que estamos em território desconhecido?
Mas vamos a conversa. A noite partilhada com Ele_ um estranho que também de repente ficou íntimo!_ me fez perguntar muito sobre mim mesmo. Nesta noite no bar estava absolutamente em paz. Encontrei um conhecido e conversávamos bastante. De repente o meu olhar com esse homem cheio de estilo e beleza se fixou. Tentei não dar importância. Caminhava em direção ao banheiro e o bar cheio fazia com que as pessoas se acotovelassem. No entanto, no retorno para o meu lugar fui surpreendido por uma pegada súbita e um beijo que estatelou os expectadores. Um beijo súbito, gostoso, bem dado. Refeito da surpresa e encantado por aquele belo maluco conversamos. E descobrimos muitas afinidades. Trabalhos na mesma área, gostos parecidos. Enfim tudo que sinalizaria o início_ quem sabe_ de uma bela história de Amor. Mas a madrugada foi me desvendando seus véus e o que vi foi um homem com muito sofrimento e com uma história de vida muito semelhante a um ex –amor, terminado recentemente, há menos de três meses.
De repente, perguntei pra minha amiga: Por que será que atraio pessoas tão loucas e com este padrão? Comecei citando meu ex e fui listando este traço em todas as relações que me marcaram: drogas, sexo e afins. E a minha amiga me devolveu a pergunta. com uma quase tautologia: “porque você se atrai por pessoas assim”. Em algum lugar a loucura e desregramento me encantam. Daí para partirmos as questões dela foi um pulo. Minha amiga prefere (?) amar à distância...Ele_ seu amor atual_ atualmente está em outro estado brasileiro mas bem poderia morar em Nova York. E assim... (rimos muito disso tudo) “estou condenada a ir aos lugares sozinha. “Puxa Marcos, meu cineminha com fulano vai custar mais de 600 reais”, me dizia estupefata com a constatação de sua sina.
Nós e nossa ânsia_ gostosa!_ de dividir tudo com um ser amado...Nós tão longe, tão perto de nossos amados nos a-traímos _ existimos por e para eles. Quem sabe para achar a entrega ao Outro precisemos mesmo nos esquecer um pouco de nossos desejos e em algum lugar trair nosso ego, dando abertura para o novo?
Mas pra isso há que começar de algum lugar: Glória Perez, você perdeu uma grande oportunidade, em América, censurando o beijo entre o Júnior e Zeca! Francamente... Me senti como os expectadores do "Cinema Paradiso", no filme homonimo de Giuseppe Tornatore, castrado por uma mentalidade tacanha, quase medieval. Tudo bem: algumas histórias de amor se resolvem em um dia, outras em alguns anos e outras necessitam de muitas vidas. Mas condenados à repetição_ se for o caso_ não vamos perder a preciosidade do instante. Comece onde você está (?): basta quem sabe só um beijo na boca!
Escrito por MARCOS MAZZARO às 10h47
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