Os Filhos da Madrugada
Por Marcos Mazzaro
1
Os filhos da madrugada lembram pedra bruta ainda a ser lapidada. Ventos rebeldes sabem que vivemos em diversas dimensões ao mesmo tempo. Seres noturnos conhecem o ponto onde os sonhos e devaneios são ativados. Hoje quero lhes apresentar um personagem assim. Estranho. Enigmático. Capaz de ficar em posição de lótus meditando, observando a Torre do Rio Sul se levantar. De repente um deus sacana lança um raio. E a imponente construção desmorona em segundos.
Não os imaginem neste mundo. Eles já pertencem à outro. Solitários vagueiam pela cidade mas também são capazes de ficar na janela pensativos, gozando com o mundo, mutante... mutante. Eis porque descambei para esta narrativa. De repente, descobri... sou um filho da madrugada e Ele também!
2
Quem visse aquele vulto estranho, noite adentro, em Botafogo, não deixaria de sentir certo receio. Era uma destas noites frias, tão raras em nossa cidade tropical. E o jovem de aparência nada comum vestia um casaco de couro negro. Ficava esguio com as botas e a combinação do jeans. A barba por fazer lhe dava um ar largado, abandonado há muito tempo.
Aliás, Botafogo já é um bairro sombrio na madrugada. As casas antigas, os sobrados, a pouca iluminação das ruelas, o trânsito quase inexistente, exaltam sensações. A luz bate o reflete o asfalto úmido, o silêncio é culminante. E eu poderia ouvir os passos dele, sentir seus olhos fundos de buscas vagando de um lado para o outro, impaciente, incomodado por algo que eu desconhecia.
Já olhava para este homem há muito. O inverno incomodava. Chovia muito. E quanto mais chovia mais eu me enfurnava no meu canto. E com mais freqüência o via da janela. Um dia, voltando do trabalho, nos esbarramos na rua. Olhou-me de soslaio e me cumprimentou. Eu automático respondi. Sem mais nem aquela ele me solta uma frase sem sentido que me intrigou: "Que teu céu seja luminoso, que seja claro e sereno teu gentil sorriso, e abençoado seja você pelo minuto de felicidade que me dá todos os dias. Um minuto de felicidade... não é o bastante para a vida de um homem?"
3
Era uma daquelas noites em que um ser da madrugada se envolve profundamente com seus demônios e alucinações. Mais uma daquelas em que o sono foge por completo. Da janela eu enumerava cada volta dele pela rua, observava nos detalhes: quando se detinha e olhava o céu enevoado, quando acelerava o passo, como se fugindo de algo. Nossos apartamentos, o meu e o dele, ficam um de frente para o outro. No mesmo andar e a pouca distância. De modo que podia ver quando chegava, quando saia. Mais do que isso. Tinha em conta todos os seus hábitos. Sabia quando fazia o seu desjejum, quando assistia tevê, quando sentava-se na cama, se despia, mostrando um corpo branco, leve, delicado, quase feminino. A outra janela, que dá para a rua é aquela em que o vejo transitar de lá para cá, dando voltas no quarteirão. Me dirigi para esta. Queria me certificar de sua subida. Não desejava perder um minuto de sua vida! Me deliciaria com todos seus movimentos. Como acenderia a luz. Tiraria então aquele casaco de couro negro...Mas nada! Ele não aparecia.
Fiquei inquieto como um gato louco. Subi pelas paredes. Andava pelo curto corredor do meu apartamento. Voltei novamente para a janela em frente ao seu apartamento e as luzes continuavam apagadas. Neste repente ouço minha campainha. Meu coração dispara, para! Ah... surpresa esperada...Ali estava ele, diante de meus olhos...Dois filhos da madrugada que se encontram no meio da cidade maldita...Não é um fato memorável?
4
Nos olhamos atônitos, durante uma eternidade. Não debochem... mas não pensei duas vezes em convida-lo a entrar. Afinal_ hão de concordar comigo_ já nos conhecíamos. Depois ele sentou-se no sofá. Eu fiquei em uma poltrona ao lado. Ele girava a cabeça e filmava a sala . Cada móvel lhe parecia familiar. Eram desnecessárias eventuais formalidades. Sabíamos os nomes um do outro, conhecíamos os nossos gostos mutuamente. Ao mesmo tempo...ficamos em um falso joguete... onde um fingia surpreender o outro com declarações impróprias, excêntricas e ao mesmo tempo vulgares.
E a cada palavra dita, em que o inesperado se desfazia maldosamente...a cada gesto, em que nos perdíamos por um tempo que escoava pela madrugada interminável a impaciência nos assolava. A ansiedade. O desejo.
5
Ele disfarçava. Parecia invernar. Os olhos as vezes faiscavam neve. E o vento zunia longe...E esperava. Mas pelo que? Nossas atitudes já pareciam demarcadas por um deus brincalhão. Desde o momento em que nos víamos em nossos mundinhos. Me aproximei. Aquele casaco de couro negro me incomodava. E algo além de mim me conduzia naquele instante. Num gesto rápido tirei aquela vestimenta que o escondia totalmente.
Eis que conseguia! Sem ele, aquele rapaz parecia se desvencilhar de todos os seus medos, de todos os seus fantasmas, de toda sua retidão babaca, de sua frialdade invernal. De repente, vi que sorria. Um sorriso de outono. Já não era inverno para ele e isto me acalmava. Já não me ardia tanto. Meu sol se escondia sob os morros deixando um aroma leve de brisa do mar. A brisa que adentrava pela janela era o nosso hálito se encontrando...Bocas unidas num caloroso beijo.
6
Já não havia o que temer. A rio invernal cedeu ao calor de nossos corpos e nos acariciava. Nós. Emborcados um no outro, unidos pela saliva, pelas entranhas. Ele pouco falava. Mas tudo dizia com seus olhos negros faiscantes. De repente me cochichou no ouvido a frase da rua: "Que teu céu seja luminoso, que seja claro e sereno teu gentil sorriso, e abençoado seja você pelo minuto de felicidade que me dá todos os dias. Um minuto de felicidade... não é o bastante para a vida de um homem?"
E me beijou. Um beijo longo...quase eterno...De repente estávamos novamente nus, entrelaçados. Mas eu não queria entender o recado...
7
Foi o primeiro, único e último encontro. Ele saiu pela manhã... no meio de meus sonhos. Me recordo seu vulto diáfano e misterioso. E ainda sinto seu cheiro, o suor, o corpo, o toque de suas mãos. No dia seguinte, ninguém mais morava naquele apartamento com o qual me familiarizei tão rapidamente. Mas seu casaco de couro negro permanecia sobre o meu sofá, intocado.
Teria sido um sonho? Talvez. Procurei, pesquisei. Descobri. A frase de Noites Brancas, de Dostoyevsky... A frase adaptada! Não quero e não vou concordar com ela...Quero mais do que um minuto... muito mais! E talvez por isto estou aprendendo a continuar... continuar...buscando.