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DIÁRIO DE UM ESCRITOR
 

 

Tudo que é sólido se desmancha no ar...

É de manhã. O dia está nascendo. O sol não brilha radiante. Há nuvens e ele parece se esconder da cidade. Côo um cafezinho. Me sento à mesa. A noite fora cheia de sonhos. Acordei com eles. A impressão que tenho é que durante a noite, dormindo, vivera outra Vida. Ficaram impressões e a luz solar batendo na minha cara parecia ferir com doçura meus olhos. De repente a frase com a qual fechei a última crônica me vem ao coração. Bate forte, intensa. E o café quentinho já está sendo degustado, quente, com adoçante.
Tudo que é sólido se desmancha do ar...Será que ele, Karl Marx, seu autor, falava só desses nossos tempos modernos_ ou pós modernos, depende de gosto pessoal_ Será que não tocava, com sua barba e sabedoria imensas na essência de toda a Existência? Esta frase incomoda: tem múltiplas e infinitas facetas. E vai senti-la como derrota quem está extremamente medroso de se desmanchar ou então de que algo se desmorone na sua frente. Cada um com seu estilo de vida vai ajusta-la para seu real e para suas mentirinhas pessoais e inconfessáveis.
Os acomodados de plantão, por exemplo. Sabe aquele indivíduo que passa anos a fio fazendo o mesmo movimento? E acha que é assim. Eles trabalham vinte, trinta, quarenta anos no mesmo lugar. Eles geralmente tem uma posição sexual fixa. De preferência por cima...Assim... se iludem que tem o controle sobre as situações. Eles vão dizer: não adianta mover um dedo mindinho pois nada vai mudar. E se esquecem de si mesmos... pois no fundo, o tempo os está transformando. Mas é difícil ver pois falta fé e sobra medo.
Tudo que é sólido se desmancha no ar também inflama os apocalípticos_ que fazem questão de tirar o seu plantão num dia de catástrofe. Nunca me esqueço do que ouvi no dia 11 de setembro de 2001. “Estão vendo? É o Fim dos Tempos!” Era um absurdo atrás do outro. Ironia: O mundo mudou. Mas talvez a lição deste dia nefasto_ e de outros semelhantes ataques terroristas , e de outras catástrofes_ seja que o acaso bate a nossa porta todos os dias. E que, digamos, citando um personagem já esquecido de um BBB, na Rede Globo: “Faz Parte!”. Pois é... até ele...no seu tempo de fama deve ter sentido na pele a transitoriedade de absolutamente tudo. Hoje, se lembram da frase... Mas quem era seu autor mesmo? Era do segundo ou do terceiro programa?
Mas não nos esqueçamos dos Integrados. A brincadeira aqui tem outro tom. Beira a futilidade. Inconscientes no desmonte deles e do mundo geralmente fingem que está tudo bem. Ao contrário dos pessimistas, para eles tudo tem uma solução. Mas geralmente é uma saída hipócrita. São bem intencionados e caridosos, não resta dúvida. Mas em algum lugar fazem questão de que o Outro se recorde, nos momentos críticos, de como são benevolentes e desapegados. Nessa tribo geralmente transitam as ditas pessoas “boas” que adoram contrapor sua generosidade à maldade humana.
Tudo que é Sólido se desmancha no Ar...é uma armadilha bacana, um enigma sutil demais. Só tem sentido se conseguirmos abrir o coração de verdade para absolutamente Tudo. Quando falo em abertura não me refiro á pieguice das emoções lacrimejantes, não to falando de casos de amor que se iniciam e terminam_ e que geralmente geram um dramalhão mexicano_ nem das insatisfações pessoais diárias, com família, trabalho, menos ainda do caos coletivo urbano, da violência, na qual estamos imersos. Digamos que é também isso...
Não estou julgando os pessimistas, os acomodados e os integrados. Eles “fazem parte” desta totalidade. Sinto que vai além...O que se dilui_ e pode causar dor_ talvez desperte-nos em algum lugar diferente de todos os que antes visitamos. Este novo espaço, descoberto, de repente, num momento de profunda tristeza, pode estar nublado, sufocante, sólido demais. E de repente ficar nele por alguns instantes é enriquecedor. Lentamente vamos sentir que também este momento vai se desmanchar...vai se transformar...Ao sábio Karl Marx tenho que acrescentar aqui Pema Chödrön, a monja budista americana que me inspira a ver de outra forma o caos que maravilha e que nos deixa perplexos.
Acabei de tomar o café da manhã...Meu vizinho acordou...abriu a janela, bocejou alto e deu uma gargalhada. Não sei porquê... mas neste minuto sinto que sua alegria é verdadeira.

 



Escrito por MARCOS MAZZARO às 12h42
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Netuno

Mais de meia noite. Uma névoa densa e fria começa a cobrir a cidade. A metereologia havia avisado a chegada de uma frente fria. Da janela, o Pão de Açúcar, a Torre do Rio Sul, os edifícios... tudo tem agora outras formas...tudo perde o contorno e concretude... O vazio das horas, que passam rapidamente, parece me corroer. Perecíveis... eis o que somos. Na tela da tv uma mulher faz um strip. É uma imagem vulgar associada a um house de baixíssima qualidade. Alguém não muito longe digita em um computador. E parece desesperado para se comunicar. Mas no fundo não diz nada.
No MSN mandamos mensagens, smiles, emotions, imagens e sonhos. São só simulacros netunianos (?) que escondem contatos verdadeiros. Ali, naquele espaço, as pessoas riem do nada e se confessam para estranhos.  Vez ou outra ouço uma gargalhada. Meu amigo, no andar de baixo parece realmente se divertir... como tantos...De vez em quando liga sua web cam e bate uma punheta. Posso ouvir o seu gozo no andar inferior. É oco. Não existe. São imagens fakes delirando, procurando o real. Na tv uma legenda “ o cachorro está chorando”me desvia por um instante da visão que tenho de minha janela...que sempre adorei. 
De repente, me toco que estou imerso também nas águas da ilusão, olhando a paisagem que poderia ser londrina, imerso nos meus sonhos ou quando a legenda  da televisão pulula na minha retina. E Eu (?) não sinto nada. Só o tédio ululante. Mas para fugir dele invento fatos, oscilo entre a paisagem na janela e a tv, forço meus sentidos... uso o controle remoto, mudo de canal. No entanto, a sensação de engano permanece. E fica  mais intensa quando ouço o urro do meu vizinho lá embaixo. Esvaziado, agora, provavelmente, em uma boneca de plástico.
Desligo a televisão. Tenho ânsia de gosto, textura e phisys. Então abro um vinho. Seco. Cabernet. Deixo o líquido deslizar garganta abaixo... permito que ele me revele, que me cubra com sua secura sedutora.  Só talvez nele exista o desejo de se largar. Para  poder preencher o que não há e que nunca será. Para poder quem sabe respirar...a neblina imensa que agora invade não só o apartamento mas também um outro lugar meu que desconhecia.
A casa está vazia. Botafogo parece um murmúrio, um lamento. Muito longe daqui, talvez outros sintam o mesmo. Em alguma outra dimensão alguém pode estar gozando com ocorpo, arrepiado, eriçado, sentindo o gosto e o cheiro pleno daquilo que vive. Sentindo o cheiro de terra molhada nele, amante. Quem dera em um país distante, inóspito,  na Sibéria (?) surja um verdadeiro amor: com salivas, cobertores, unindo quem deseja aquecer-se e se abandonar num outro, nu toque...Em outros espaços e dimensões alguns podem desejar se esborrachar. E provar do choque, senti-lo, deixando-se fragmentar.Talvez, em algum lugar do planeta, fora das redes e de tantas notícias alguém se sinta de verdade... Único.
Quase três da madrugada. O Rio de Janeiro não tem vocação noturna. É uma cidade do dia, das praias, do chopp, dos encontros superficiais, de sedução. E eu devo esperar o amanhecer ainda. A noite sorri. Meu vizinho já se enfiou na cama. Outros dormem o sono dos injustos. E eu...permaneço acompanhado de meu copo de vinho procurando o verdadeiro silêncio. Tomo mais um gole da bebida. Ela desce  mais suave que da primeira vez...
A névoa, ironica, se transformou numa chuva fininha. E ali, já mudada,  ela sabe que até o vinho, real, saboroso, que me restara... e que num momento qualquer sonhei dividir com um ser amado...Ela, invasiva de meus espaços multidimensionais, de meus corpos, intrusa até da taça rubra quase vazia...Ela  sabe...Tudo que é sólido se desmancha no ar...



Escrito por MARCOS MAZZARO às 02h28
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ETERNOS RETORNOS

 

 

Destino. Um assunto complexo, ambíguo, misterioso mesmo. Pois no fundo não sabemos a resposta .O budismo fala de Karma e Darma. Facetas da mesma moeda que nos impelem a um desenvolvimento que no fundo é objetivo de todos os seres viventes. Não só o homem. Mas todos os reinos interligados. Ninguém escapa a trama entrelaçada e permeável deles. O primeiro, consequência de sansara, de tudo o que deliciosamente e dolorosamente repetimos.  O segundo, o darma: aquilo que é, que deve ser e sempre será. O melhor de nós expresso num diamante bruto de luz pura.
Na verdade, é  como tudo estivesse na medida certa para que o “objetivo” final fosse alcançado.  E quando atravessamos a margem descobrimos que nunca houve o rio. Sequer a margem...Tecidos no Destino (?)  somos Filhos da Ilusão. E assim vivemos, amamos, trabalhamos e passamos pelo curso da Vida... em Encontros e Eternos Retornos.
Assim é também com o Amor. Num dia, num ano, aparentemente qualquer, sem importância, encontramos alguém. E misteriosamente algo nos une, de modo aparentemente inexplicável. E começa ai a jornada. Trajetória oscilante e trêmula pelas descobertas, pela própria revelação do Amor_ aos poucos desvelado. Sim... porque Eros se revela para eles (e elas)  em toda sua força e luz, com todos os outros sentimentos brotando. Somos humanos e nos  esquecemos... Cada centelha divina roubada tem um preço. E assim os futuros, presentes e eternos amantes,  oscilam, esperneiam, resistem. Karma e Dharma lutando...sua luta natural...e Tudo só para que aprendamos a Ser.
Assim, em algum lugar do passado presente futuro, M encontrou A, R encontrou Y;  C encontrou M ; P encontrou A. Do outro lado do mundo... talvez...um judeu se apaixone por um palestino e não encontre razão para seus sentimentos.  Assim, desejando tecer um novo real,  inimigos se reconciliam, amores se confirmam, sentimentos brotam.  
Sempre lembro de uma conversa com um astrônomo que me dizia que ao olhamos para o Céu, vemos o passado... Um passado de bilhões de anos, pois, o brilho das estrelas e planetas nos chegam com anos de atraso. Nada mais fascinante e encantador do que sentir...Na "teia" do (?) Destino não há  tempo e espaço. Mas fazer o que...temos que lidar, quando materializados neste planetinha que é um grão de areia no Universo incomensuráve, com finitudes e limites.
No Rio de Janeiro conheci um homem mal humorado. Ele bebia cerveja e realmente estava zangado com a vida. Também pudera... desiludido com as mazelas do cotidiano ele dizia que nunca iria amar novamente...E tinha talvez suas razões...Afinal... quem nunca teve um mau dia? Ele nem olhou para um rapaz que lhe entregou de presente um isqueiro.  Sim pois uma das zangas deste ermitão era nunca ter um i para acender seus cigarros. Era uma noite clara e fria de inverno.  E o rapaz que oferecera o presente era um garoto careca, com cara de doido, mas um sorriso lindo! Esse meu amigo mau humorado nem imaginava o que aconteceria algumas horas depois...Mas no fundo, quem é realmente capaz de dizer o que está por vir no momento seguinte?


 

 



Escrito por MARCOS MAZZARO às 19h56
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