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Espelho de muitos reflexos
Por Marcos Mazzaro
Considerada uma telenovela de pouco sucesso, Espelho Mágico, de Lauro César Muniz, deixou na memória dos meus treze anos boas recordações. A novela foi ao ar no final de 1977, após o sucesso de Duas Vidas, de Janete Clair. Na história, dividida em duas fases, artistas se preparam para montar uma novela ( Coquetel de Amor) na televisão. Desse modo, Lauro César Muniz, mostra o cotidiano de pessoas ligadas diretamente ao meio da tevê o que naquela época era uma novidade e tanto.
Num estilo que bem poderia estar citando o filme "Fame", de Alan Parker, também exibido na época, Espelho Mágico fala da vida do artista: do casal famoso de tevê, Diogo Maia e Leila Lombardi (Tarcísio Meira e Glória Menezes) ; da relação do autor Jordão Amaral ( Juca de Oliveira) com os atores e seu poder para escalar um elenco ao lado do diretor João Gabriel ( Daniel Filho).
Parecia que a gente estava vendo a vida real refletida no espelho mágico da televisão. Foi a primeira vez na tevê brasileira que se falou dos seus bastidores. Incluindo os que estão, por princípio, por fora da lógica da audiência e de seus ajustes. Yoná Magalhães, por exemplo, é Nora Pelegrine, uma atriz que já não consegue bons papéis devido a sua idade; Sonia Braga, Cynthia Levi, capaz de até forçar um caso com Diogo Maia e abalar as relações entre ele e sua companheira Leila Lombardi. Lenita (Djenane Machado) sonha ser Helena Esper e luta por um espaço no meio, apesar das dificuldades. Lima Duarte foi o inesquecível Carijó, pai de Lenita, um artista de circo, um palhaço, que tenta se ajustar ao ritmo da televisão mas não consegue. Uma das cenas mais marcantes é justamente aquela em que ele é humilhado no estúdio pelo diretor João Gabriel, depois de cometer inúmeras gafes.
Espelho Mágico tinha sutileza. A novela que se subdividia em outra, aquela que vai ao ar, Coquetel de Amor, inspirada no romântico e cômico Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, também parcialmente encenada. Através dessa segunda novela, os atores de carne e osso de Espelho Mágico mostram suas atuações, reclamam de suas poucas falas, comentam o texto do autor, reclamam, como por exemplo Nora Pelegrini (Yoná Magalhães) , fazendo a empregada Assunta, pouco atuante na trama de Coquetel de Amor. O autor, Jordão Amaral (Juca de Oliveira) manipula situações e confessa em determinado ponto seu rancor a Diogo Maia casado com a mulher que ele realmente ama, Leila Lombardi. "Eu matei você duas vezes", dirá para Diogo com prazer na finalização de Coquetel de Amor.
A trama de Coquetel de Amor tinha também um toque de O Semi-Deus mas não era um plágio como se comentou. Na verdade, Ciro ( Tarcísio Meira), forja sua morte e se utiliza de Cristiano para conquistar Rosana. A semelhança é maior com a obra de Edmond Rostand que também é muito citada na novela.
Refletindo sobre as semelhanças e diferenças entre o Real e o Imaginário, entre a fantasia que tanto almejamos e a dura realidade Espelho Mágico/ Coquetel de Amor acerta na trilha sonora. Tigresa, com Gal Costa, define o perfil de Chyntia Levy, interpretada por Sonia Braga. Maninha, embala as dificuldades de Beatriz, a filha de atores famosos, interpretada por Lídia Brondi, Sonhos de um Palhaço, com Antônio Marcos, dá o tom do drama de Carijó, C'est La Vie, com Emerson Lake & Palmer, dá o tom do drama do casal de artistas famosos, Diogo e Leila, na sua crise conjugal e a abertura com o tema Vai Levando diz muito. Afinal, "mesmo com toda fama, com toda grana, com toda lama", o espelho mágico da tevê desnudado avisa: o show não pode parar!
Escrito por MARCOS MAZZARO às 11h10
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