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No dia em que eu fui embora...
Texto: Marcos Mazzaro
A porta do ônibus se abriu. Meu pai, mãe e irmãos me davam adeus de longe, na rodoviária. Meu coração pulava de alegria. Ao mesmo tempo, a dor fininha das partidas pipocava mesclada ao entusiasmo da vida nova que buscava. Ouvi ainda a voz do pai dizendo: “Não vá resolver ficar no Rio de Janeiro!” Eu tinha apenas 16 anos e, naquela época, o mundo ainda não tinha se mostrado totalmente para mim. Mas talvez eu já o pressentisse.
No caminho, de mais de quatorze horas, a farra foi intensa. Éramos tão jovens, intrépidos e ingênuos. Ainda não sabia quem eu era mas tinha a vaga noção do que poderia me tornar. Fiquei abraçado a um amigo que estava sentado ao meu lado. Olhava a paisagem passar, as árvores, o verde, a estrada e na noite somente as estrelas cintilavam. E o vento batendo na minha cara...Eu já era livre. Mas não sabia que poderia ser mais ainda.
No caminho, pensei nas namoradas que deixava, nos amigos que ficavam para trás, nas festas que promovia, no garage, onde tocava as últimas do Studio 54: Donna Summer, Fleetwood Mac, Grace Jones e tantos outros sucessos da Disco Music. Há três anos atrás eu me acabava nas discotecas, burlando seguranças, usando carteirinha falsa de identidade para entrar nas boates e nos cinemas para maiores de 18 anos.
Quando se está em trânsito a vida da gente vem como um filme. O cinema proibido que eu tanto assistia, Amor Bandido, de Bruno Barreto, ou o cinema de Walter Hugo Khouri, considerados pornográficos pelos puritanos. Ah... e as horas de tevê em excesso? . Quantas noites eu ficava pela madrugada assistindo Sessão Coruja, me deliciando com os clássicos do cinema americano ou com as novelas das 22 horas. Minha mãe ralhava comigo quando assistia Saramandaia ou O Pulo do Gato, histórias picantes, mas se olharmos com atenção bem construídas e também puras tentativas de retratar o Brasil.
Devagar ia amanhecendo. E eu via os primeiros sinais na estrada da vida pulsando. E as recordações das outras viagens vinham em profusão. Podia ouvir Il Etait une fois...La Revolution que meu pai fazia questão de tocar quando íamos para o Guarujá, na casa de um tio muito querido. A melodia suave me emocionou. Combinava com aquele nascer do sol na estrada nua. Corri pra cabine do motorista. Queria desfrutar cada segundo daquele amanhecer.
Chegamos ao Rio de Janeiro por volta das 14 horas. Era uma tarde ensolarada. O ônibus entrou pela orla, pois iríamos para o Hotel Nacional, em São Conrado. Meus amigos, enlouquecidos e bêbados na sua maioria, dormiam. O Rio de Janeiro se apresentava com sua luz, beleza e corpos dourados. Era puro delírio ver meninos e meninas lindas, desejo bruto, desfilando pelas praias. Copacabana, Ipanema, Leblon, O Chapéu dos Pescadores, (que eu já conhecia de um filme!) era tudo real!
De repente chegamos ao destino. As portas automáticas do Hotel se abriram_ o mesmo hotel onde filmaram a novela Feijão Maravilha, de Bráulio Pedroso. Nos acomodamos em turmas de dois. Estava cansado. Tirei a roupa e fiquei de bermuda. Meu amigo fotografou este instante.Relaxei na cama confortável, contemplando a paisagem e num gesto automático, como quem chega ao seu próprio quarto, liguei o rádio e tocou Imagine, de John Lennon. Era 8 de dezembro de 1980. O Ex- Beatle, um pacifista, havia sido assassinado por um fã louco. Senti por um momento um misto de revolta, espanto e tristeza. O sonho para muitos havia acabado. Mas o meu... estava apenas começando...

Escrito por MARCOS MAZZARO às 01h10
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Sede e Fome... de Real
Por Marcos Mazzaro
Confesso que hoje, segunda feira, acordei mal humorado. Primeiro dia de labuta, um fim de semana com muitas informações pra processar, a vida na sua intensidade me penetrando. Mas de repente olhei na janela do meu quarto, de onde vejo o Cristo Redentor e estava um dia azulzinho, com uma mancha branca riscada de nuvens. Um quadro belo. E que me enterneceu mandando a minha zanga para um outro lugar. De repente, senti que estava fazendo exatamente o que propus na crônica anterior, respirando a Vida em toda sua plenitude. Inesperadamente_ poderá parecer piegas mas é verdade_ um bando de pardais que fizeram ninho perto de minha casa começaram a piar...dava pra notar que eram filhotes com sede e fome de real. Agora neste instante eu os ouço, pois piam. Mas já estão alimentados. O tom deles é diferente, quando simplesmente saciados eles celebram a existência.
E assim me ocorre que o real em toda sua plenitude me invade gostosamente, com suavidade. Assim, inspiro as ruas e seu movimento frenético, a pressa das pessoas pegando ônibus, os rostos apressados, angustiados e sorridentes. Cada um com sua história de vida e sua beleza. O ar me invade os pulmões. Assim como o céu, o mar, os bondinhos do pão de açúcar na janela de minha sala. Lindos fragmentos de corpos: ombros, pernas, peitos, bocas, bundas que no verão se desnudam em movimento e fragmentados. A Vida gargalha e se retesa eriçada das partes. Tenta em vão capturar o Todo desejando... Assim, no limite, salivamos, ávidos de tudo que é belo.
Tudo bem. É segunda feira! Mas vi bocas celebrarem seus encontros num terno beijo, vi uma senhora em Copacabana observar o mar. Me lembrou uma pessoa muito querida. Parecia um quadro de Monet. Notei também um homem recolhendo papéis e latinhas num saco. Mas por algum motivo ele estava tranqüilo e catava o lixo com uma suavidade que nenhuma palavra vai descrever.
Parece que neste mundo maluco que vivemos_ extremamente Real e palpável_ tudo depende do foco. E do fogo que nos alimenta. Existirão aqueles que preferirão olhar só para as guerras, os atentados, o terrorismo, a fome, e as mazelas que nos invadem tanto quanto a beleza que valorizei há pouco. É uma escolha. Também não acho que fechar os olhos para as dificuldades ajude em alguma coisa.
O ideal talvez seja encontrar o meio termo disso tudo, atuar de alguma maneira pra tornar o mundo melhor. Os ingleses, que já puniram no século XIX o homoerotismo com prisão_ o caso mais famoso foi do escritor Oscar Wilde_ mostraram que o mundo pode ser melhor. Aceitaram e reconheceram os direitos civis dos homossexuais. A partir de 19 de dezembro gays e lésbicas poderão se unir sem impedimentos...
Daqui a pouco a noite cai e os pardais não vão piar. A noite trará para eles o silêncio. Uma brisa leve invadirá o meu quarto pela janela. Eu observarei o sol se por atrás do Redentor. Quase delirando poderei ouvi-lo dizer: “Seja livre e feliz de verdade e de preferência, esteja bem acompanhado!” Bom... Mas isto é papo para a próxima semana!
Escrito por MARCOS MAZZARO às 13h26
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