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Liberdade, Liberdade, Abre as Asas Sobre Nós
Texto: Marcos Mazzaro
Dia desses estava muito triste. O tempo nublado, as chuvas intermináveis de janeiro, o trânsito dos carros, o afobamento das pessoas, as poças de água. Tudo me aborrecia. Parei em frente a uma banca de jornal e para piorar li as más notícias estampadas: crise política, violência, catástrofes em diversas partes do mundo. Esse sentimento intenso de incômodo crescia mais e mais até que de repente, olhei e vi a cena_ uma criança lourinha de desnutrida cutucava a mãe, bêbada, estirada no chão tal um saco de batatas. O menino parecia desesperado, na ânsia de acordar a mãe. De repente, um guarda municipal interviu e levantou a mulher, chamando sua atenção para a criança que estava ali ao lado. Neste momento meu olho deu um close. Percebi claramente o sorriso do menino mirrado quando viu sua mãe de pé.
Foram só alguns segundos que levei pra notar o que estava acontecendo. Foi rápido e eficaz pois o que me chamou a atenção não foi a cena triste anterior, o desespero do menino, a mulher jogada no chão, mas sim o sorriso lindo que percebi, o brilho nos olhos que senti do garoto, que me atingiu do outro lado da calçada. Não sei exatamente o que o guarda municipal pensava. Mas naquele caso ele agiu bem. Eu o vi conduzindo a mulher, ainda trôpega, até uma padaria. Curioso, não resisti e acompanhei mais a cena. Ele ofereceu um café da manhã para aquela pobre criatura e para o menino um copo de leite. Meu olho zoom continuou a funcionar. E mais uma vez pude notar a transformação no semblante não só do menino, mas também da pobre mulher, completamente desorientada, mas feliz por se sentir amparada, mesmo que por um desconhecido.
Num passe mágico, minha tristeza sumiu. E eu pude imaginar que anjos existem. Num instante precioso parecia que a chuva tinha cessado, que o sol se abrira, que os homens eram felizes, que toda aquela parafernália de sentimentos que me dominavam não passavam de pura ilusão. Neste raro momento eu senti que tinha o Paraíso dentro de mim, como também deveriam caber o Purgatório, o Inferno e toda a Divina Comédia de Dante.
A beleza existe até nos dias mais tenebrosos. O Amor é possível diante de todas as contradições humanas, apesar de por natureza sabermos amar temos dificuldade de Amar.
E talvez o bem maior, anterior a todas as sensações e sentimentos, seja a Liberdade. Poder se sentir pleno a ponto de caber tudo: tristeza, melancolia, desespero, ódio, raiva e também alegria, encantamento, tesão, esperança. Isto nos torna Livres!
Ironicamente, quando sentimos na carne e no espírito a dor, quando ruímos em todas as dimensões de nossos seres múltiplos fica ainda o Desejo.Esse Anjo Lascivo que nos abençoa todos os dias, nos seduz num abraço. E amparado pelo seu corpo e asas, alçamos os céus e os infernos e a Terra em toda sua desolação e beleza. Nesse instante, começamos a viver.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 21h28
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