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Narciso
Texto: Marcos Mazzaro

Não eram nem seis da manhã. O sol ainda preguiçoso. E Narciso estendido na areia da praia dormia com o mar de Ipanema. O corpo do belo de vinte e poucos anos, fundido à areia parecia comungar todo o nascimento do dia. Tinha sido uma noite misteriosa. A lua cheia debruçada sobre o mar, nasceu perto do Morro Dois Irmãos, iluminando até a favela, ali, logo na frente, cintilante de luzes. E ele perambulou pelo calçadão da Vieira Souto pensativo por toda a madrugada, meditando e sentindo tudo demais.
“Olhe menos pra você, agora! Mesmo que te contradiga todos os seus desejos. Observe o mundo. Neste instante sublime será o mais feliz dos homens!” Esta frase dita por um vendedor de cachorro quentes, este dito, alucinado na madrugada, não saia de sua mente. Mais ainda. A expressão simplória do homem contrastando com um toque de sabedoria o tornou mais inquieto ainda. Narciso não resistiu. E descobriu como é maravilhosa a visão da alteridade.
A lua nascia. Prateava o mar. As ondas iam e vinham num ritmo calmo. Casais de namorados passavam juntinhos. Um em especial lhe chamou a atenção. Eram dois velhinhos que juntos caminhavam também pela areia. A senhora idosa usava um chapéu florido. Dava-lhe um ar ingênuo, quase infantil. O senhor, nos seus quase noventa tinha a cabeça toda branca. Fizeram um banco de areia e sentaram-se de frente para o mar. Pareciam comemorar algo. De repente, num momento inesperado, Narciso viu. Faziam juras de amor e trocavam alianças.
Quando Narciso olhou para o lado viu também uma mulher. Linda, apesar de vestir farrapos. Grávida já de outro bebê. Os olhos das estrelas cintilavam pra ela, plena de esperanças. Ela sentou-se ao seu lado e resolveu contar sua vida: tinha sido abandonada pelo marido e agora vagava pelas ruas. Mendigava e se prostituía de vez em quando para os gringos. Caminhando pelo calçadão ou em direção à areia Narciso parecia sonhar. Uma névoa densa, chegava do mar. E o ar da maresia preenchia sua alma. Necessitava daquela umidade salgada. Era ela quem lhe acalmava e o relaxava diante do caos que as vezes presenciava. Não foram raros os momentos naquela noite no qual via policiais rondando a área, gente chegando de diversos cantos embriagados.
Narciso inquietou-se. De repente uma brisa forte atingiu seu corpo com gosto de maresia. Uma leve onda o convidava a sentir mais, fundir-se com a natureza que gritava naquele espaço urbano. Sem roupa ele mergulhou no mar. E sentiu todas as ondas abraçarem seu corpo. Narciso era, naquele instante, a Lua reinando na noite, o casal de velhinhos enamorados, o céu da cidade, de poucas estrelas, a mulher vagando pela noite, com uma criança e já grávida de um desconhecido. E alguém muito longe cantando uma música de Cazuza: Eu Preciso Dizer que Te Amo. Ele sabia que era tudo isso e mais ainda porque comungava com todos sentimentos e sensações ao redor e quem sabe além_ onde nem sua imaginação poderia alcançar.
Narciso não soube me dizer quanto tempo ficou saboreando as águas do mar e todas suas visões e sensações intensas. Adormeceu na areia, quase nu. E as seis da matina, quando o sol feriu seus olhos, acordou com a surpresa de um beijo. Na sua frente um homem, quase espelho, sorriue lhe disse: “Bom dia!”.
A cidade acordava. Alguns andavam apressados, outros nem tanto. O jornaleiro abriu sua banca. Os botecos das ruas transversais fumegavam o cheiro do pão com manteiga e café. A Lua já se despedira dos homens. O sol se intensificava no vigor do Verão. E eu vi esses homens parecidíssimos unidos, de mãos dadas, pela areia, alheios a todo movimento urbano. Caminhavam com a intimidade daqueles que se conhecem há milênios...
Escrito por MARCOS MAZZARO às 13h34
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