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Ícaro
Por Marcos Mazzaro

Meteoros solitários cruzavam o espaço sideral. Num ponto luminoso do Universo, luzes, miríades de estrelas nascendo e em explosão fechavam ciclos. Olhando em volta, podia-se ver o Caos e a Ordem em harmonia, e os cometas engolidos por buracos negros de solidão. Num canto deste mundo imensurável, dois anjos, enamorados, comiam uma torta de chocolate e se deliciavam. Tinham o riso e a paixão expressa nos corpos unidos lambuzados pela guloseima, nas bocas se tocando levemente, no ensaio do desejo que só eles conhecem. Não, caro leitor, não imagine neste ato lascívia, luxúria, gula ou algo por demais humano. Era tudo um quadro de inocência difícil de descrever.
Por um instante, eles olharam ao redor e além daquela perfeição só esboçada pra nós, humanos, nos raros momentos de êxtase. E viram dor e sofrimento espalhados por todos os mundos. Eles, anjos da Vida e do Amor, largados num ponto da Via Láctea, sentiram a aflição dos partos e das mortes, dos enlaces e rompimentos, da fome e da abundância. E quanto mais unidos por aquele sentimento transcendente mais percebiam a angústia de todos que viviam.
Sentiram na alma os animais mais minúsculos se agonizando, a cadeia que lança o caçador em direção a caça_ um guepardo faminto, pronto para um bote, de olho num bando de gazelas_ e num mesmo momento, mix de sensações, um homem devorava outro num quarto sujo e com cheiro de porra. Era um caleidoscópio assustador: sangue e guerra nos desertos, florestas e cidades, a história humana e suas lendas. Átila incendiava aldeias, Romanos se saciavam com os subjugados. Religiões de diversas origens reivindicavam no chicote e tortura a supremacia de seus deuses. Cogumelos atômicos explodiam em diversos planetas, transformando em fumaça um instante de ternura. Apocalipses encerravam e fundavam novos ciclos em Terras desconhecidas.
Ainda assim, desolados pela dor a sua volta, eles continuaram emanando Amor. E observaram um homem, debruçado à beira da janela de um apartamento, em uma metrópole. Ícaro admirava o céu límpido de uma noite de verão. Ouvia Everbody Gotta Learn Sometimes... “Now I need your love...like the sunshine”. E chorava. Mas suas lágrimas não o impediam de ver os carros e motoristas impacientes, a massa infeliz de pessoas voltando de um dia de trabalho. Seu choro iluminava a Torre imponente de um shopping que gargalhava indiferente às mazelas dos que o ocupavam nos dias de labuta.
Da janela, Ícaro via o brilho das estrelas cintilando, ferindo seus olhos úmidos. Por um instante ele teve a esperança no colo. E imaginou-se com asas, pronto pra desbravar o mundo num vôo infinito sem ponto de chegada. Naquele exato momento os anjos amantes, lambuzados de torta de chocolate, olharam pra ele. E realizaram seu Desejo.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 19h52
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