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DIÁRIO DE UM ESCRITOR
 

A Ausência de Ulisses

Por Marcos Mazzaro

 

Névoas vez em quando cobriam a lua crescente. Ela só iluminava parte do mar. E aquele homem, já há dias e noites jogado ao sabor das marés, agarrado numa tábua já podre, mas que até então o salvava, quase perdia a consciência. Corpo e pensamento e sensações eram um bloco só, compacto e brutalizado. E se nesta noite nebulosa eu não conseguisse mais retornar? Tudo em mim oscila, como as ondas do mar. Galopam cavalos selvagens juntos ao meu corpo inerte.

Desnudado por mim mesmo, último sobrevivente de uma linhagem de guerreiros e marujos, nada me resta senão esperar que o tempo se cumpra. O fio da esperança me escapa.  As forças estão indo. Sinto que resta pouco pra que a alma deseje se libertar deste corpo exaurido...Serei por acaso lembrança um dia trazida pelo vaivém das águas? Não sei.

Como é difícil esquecer o que se deixou para trás! Em algum lugar, quem sabe, meu filho empina pipa ou joga botão. Não muito longe meu amante tece sua rede ou me espera em vão para mais uma noite. Ou quem sabe cansado de tanta ausência entregue seu corpo jovem e fresco a muitos outros, desiludido pelo amor...

Em um ponto qualquer, no tempo e espaço, todos que conheci, até aqueles que encarei de passagem, vão se recordar de mim, ou de minha voz, ou do meu jeito cheio de malícia. Talvez um escritor abusado resolva narrar minhas desventuras. Em uma era não muito distante, porém, serei absoluto esquecimento.

O dia começava a nascer. O sol brotando no mar, apontando ainda num céu alaranjado e rosa...Era inevitável pensar naqueles que jamais iria rever. A saudade brota sorrateira e as horas passam rápido numa seqüência de dias.  A saudade é uma dor fininha descortinada pela errância...Ela me invade o corpo através do sol causticante, da água salgada, dos abutres em vôo rasante prontos para o golpe final. Balançando ao sabor das correntes marítimas lembrei de meu cachorro, que num dia de tempestade, anos atrás, fez questão de me acordar para que eu trancasse a porta e evitasse um assalto. Ele com certeza seria o primeiro a me reconhecer. Talvez neste exato momento pressentisse minha morte.

Boiava. Mas ainda via os olhos embriagados do Cíclope adormecido e as belas formas de Circe. Impossível não lembrar a comicidade da cena: meus marujos fuçando o chão como porcos. E ela rindo, quase pomba-gira. Cada onda batendo, ora açoite, ora conforto para o corpo era, também, pensamento indo e vindo. A certeza da incerteza da trajetória e também do retorno. Ao longe podia ouvir o canto das sereias Ai que ninguém volta ao que já deixou. Ninguém larga a grande roda...Ninguém sabe onde é que andou... Esta melodia misteriosa que enfrentei me acorrentando ao mastro do navio. Esta vontade insana de retornar sempre e mergulhar nas águas da Vida e sorver todos os prazeres do mundo. E viver tudo, absolutamente tudo, novamente, sem arrependimentos! Tal desejo me enlouquecia. Pressentia que mesmo retornando, mesmo vencendo este último desafio, nada seria como antes.

Não existia mais tempo nem espaço, nem dia, nem noite, nem lua, nem sol. Já havia perdido há muito o fio do real. Esta linha que talvez alguém tecesse para no dia seguinte desmanchar. Todas imagens se misturavam. Amigos feridos de morte, no calcanhar de suas fraquezas. O desespero de outro que, não desejando se render aos inimigos resolveu, ele mesmo, enfiar sua espada no peito, num gesto mortal. Tudo agora era ou parecia um sonho. Até a onda quente que me lançou numa praia. Jogado na areia, delirava. Ouvia vozes distantes. Entre elas um riso familiar e um cachorro que latia pleno de felicidade.



Escrito por MARCOS MAZZARO às 12h09
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