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DIÁRIO DE UM ESCRITOR
 

As Redes de Hefaístos

Texto : Marcos Mazzaro

 

Protegido em seu esconderijo, uma caverna coberta por heras e trepadeiras, localizada no final de uma trilha, ele degustava sua vingança. Sentimentos intensos brotavam no corpo, na alma. Como o fogo subterrâneo que sempre usava para forjar suas armas. Tudo doía. No seu canto ele guardava segredos, como o material da teia fina que somente ele sabia tecer. Uma rede fina de aço, quase invisível e que prendia de modo cruel suas vítimas. Mas não podia deixar de se olhar. Um espelho mostrava o seu corpo disforme e também revelava que algo nele ultrapassava aquela condição inferior, que ele mesmo se atribuía nos momentos de angústia: traços extremamente masculinos, a boca carnuda, os olhos cor de mel, faiscantes. Havia um encanto escondido ali. Apesar de uma das pernas ser completamente deformada. Seu pai o jogara das alturas do morro quando ele, aos seis anos, sem querer contou pra sua mãe uma de suas aventuras amorosas. A outra perna, ironicamente era perfeita demais, musculosa e viril.

O espelho refletiu também naquele instante o ódio materno. Desde o incidente com o pai a mãe o desprezava. Resmungava pelos cantos da casa que tinha um filho inútil, um deficiente, e que ele deveria procurar uma pensão para se sustentar. Sua resposta para tanto repulsa foi sutil. Tornou-se o artesão e artista mais respeitado da comunidade. Era ele quem criava o desenho das armas, dos objetos de metal. Dominou com tal maestria a fusão do ferro e fogo com outros metais que ficou conhecido internacionalmente. Era um mestre do forjar, do tecer, do criar...

E naquele momento paradoxal no qual amor e ódio se fundiam sentia-se como se fosse forçado a se iluminar. Ele percebeu o quanto ainda era apaixonado por sua ex mulher, a mais bela das belas, a forma perfeita de mulher. O casamento fora uma imposição de seu pai. E a mais intensa das mulheres não se saciava com um homem só. Deitava e rolava nas suas barbas e ria de sua perna coxa. Enojado, ele preparou a primeira rede. Prendeu nela os amantes, exibindo-os pra toda a comunidade, nus, em pleno auge do gozo. Chamou os amigos e inimigos para rirem de sua vida corna. E sentia um mórbido prazer com a vergonha que ela sentia. Apesar de sua promiscuidade, apesar de ser a própria personificação do amor carnal, sua esposa sentia constrangimento.

Pude ver uma lágrima escorrer dos olhos dela quando todos tripudiavam dele, o corno feliz! Acaso aquela lágrima, seria um lamento? Acaso ela teria percebido o quanto ele apesar de todos os seus defeitos a amava? Seu parceiro sorria triunfante. Não via que sua partner chorava. Ela era só mais uma conquista! Que todos vissem como ele era macho e conseguia domina-la. Sim! Apesar de exposto o garanhão continuou a possuí-la num movimento frenético, como se sua virilidade, em si, fosse o mais importante. Ela nada mais desejava: forçada pelo amante, rendida, violentada não no corpo, mas em outro lugar que agora visitava.

Meditando em sua caverna ele continuava a sentir a vida o ultrapassar como as espadas que criava para os guerreiros. A vingança fria, degustada na sua ex mulher, e também em sua mãe, que à aquela hora ainda implorava para conseguir sair de uma cadeira finíssima que ele lhe mandara como um presente de grego. A velha estava atada a seu trono, imobilizada há anos e desde então ele fugira para seu esconderijo para saborear suas vitórias.

Para seu pai preparava um outro ardil! Havia chegado o momento de libertar sua ex-mulher e também sua mãe...Assim armava o cenário. Seu pai, um demagogo da Paz, sentiria a dor da Guerra. Este seria seu próximo passo! Forjava os elementos para uma grande destruição. Revelaria para o mundo o sofrimento através da peleja entre Gregos e Troianos. Um pomo de ouro para a mais bela das mulheres seria o ponto de partida! E sua mulher seria conhecida como a provocadora da maior desgraça do mundo conhecido! Do Amor e do Desejo...Haveria de surgir Desespero! Tão absorto neste pensamento estava Hefaístos, tão envolvido em sua própria teia, que não notara: um jovem deus, recém emancipado, Dionísio, descobrira finalmente seu esconderijo e se exibia sedutor. Trazia na mão uma taça de vinho e o convidava a esquecer.

 



Escrito por MARCOS MAZZARO às 09h48
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