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Só por Hoje...Helena
(Parte I )
Texto Marcos Mazzaro
Foto: Tiago Bianchini
Ela nunca esquecerá aquele longo dia e também a noite misteriosa que o precedeu. Nem tampouco o pesadelo que a despertou aos prantos. Eram imagens confusas de homens em guerra, de corpos esquartejados, de gritos de dor de uma nitidez apavorante. Ela, no centro da batalha com as vestes rasgadas, suplicava perdão. Nem dava também pra ignorar a imagem do mar e o som estrondoso das ondas batendo na praia de Ipanema, num dia de ressaca invernal.Aquela paisagem, que sempre procurava como fuga nos dias ensolarados de verão, era sinistra.
Na sala, para onde Helena correra desesperada e num ato louco abrira a janela, estava o marido, estendido, nu, jogado como um objeto de mobília que não combinava com o todo da decoração. A cena mostrava a decadência de sua vida, de seu casamento, daquilo que um dia julgara ser felicidade. Angustiada se dirigiu para a cozinha, preparou o café da manhã e o esperou acordar. O jovem (e precoce) vice- presidente de uma das maiores empresas de navegação_ ele acabava de fazer 30 anos_ há muito não se deitava com a mulher. Chegava bêbado e drogado pelas madrugadas.
Quanto a isto ela nem se importava. Conhecia bem o ambiente que freqüentava. Tais atitudes eram quase sociais e de uma naturalidade espantosa. E se hoje se abstinha era muito por uma necessidade de equilíbrio, de paz, que vinha buscando havia alguns anos. Mas o marido não acompanhava tal transformação. Aos poucos só ficava a distância e a repugnância que não sabia a exata origem. Afinal ele ainda era o sonho de consumo de muitas adolescentes e socialites do Rio.
Ele se levantou calmamente. Beijou sua boca e foi se preparar para o trabalho. Em minutos estava vestido, barbeado, perfumado. Era admirável sua eficiência, mesmo após a noitada: um executivo atípico, pós moderno as avessas. Acordava cedo. Gostava de ter tudo sob controle pela manhã. Depois do meio dia ia pra academia, suava, e retornava à empresa. Saia de lá tarde da noite. E não eram raros os convites para festas regados à champanhe e outros aditivos.
Um outro beijo, agora mais longo, envolvente. Helena sentiu novamente a vertigem que amolecia seu corpo quando se conheceram há 10 anos. Quando Menelau saiu e bateu a porta aquela sensação antiga, quase ancestral, a conduziu pra janela da sala novamente. O mar estava ainda mais zangado. Ondas poderosas pareciam respingar no calçadão da Vieira Souto. E o Morro Dois Irmãos coberto de nuvens poderia bem ser o Olimpo pleno de tensões, desejos e jogos de poder.
De longe ela podia ver...Um grupo de surfistas em plena algazarra no quebra mar, apesar do perigo. Um em especial cavalgava as ondas e as desafiava. Era um embate sublime entre a Vida e a Morte. Uma cena tensa e ao mesmo tempo encantadora que, na sua singularidade, revelava a possibilidade de um mundo mais iluminado.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 11h23
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