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Helena
Parte 2
Texto: Marcos Mazzaro

Naquele instante Helena resolveu que não iria trabalhar. Da janela, no Arpoador, de onde poderia ver de perto o mar de Ipanema, o Morro Dois Irmãos e a Vieira Souto quase tomada pelas águas que invadiam a calçada, ela presenciava toda a movimentação daqueles jovens intrépidos que cavalgavam um mar selvagem. E aquele rapaz que vira neste movimento, aquele jovem que com ousadia driblava a ferocidade daquele instante, parecia se exibir num balé que beirava o sonho. Brumas sutis de vez em quando o envolviam.
Absorvida pela cena, Ela não poderia medir sua duração. Só sabia sentir: o mar, o vento, as névoas, o cheiro intenso da maresia que chegava até sua janela, o corpo dele, daquele menino homem encantador, beirando as fronteiras da Vida com sua impetuosidade. O grupo desaparecia. Só o desbravador das ondas se destacava e impregnava a pele e a fazia plena num lugar até então absolutamente desconhecido. O mar batia revolto e parecia arrastar tudo para outra dimensão. Até aqueles jovens, até Ele...De vez em quando sumia para ressurgir novamente cavalgando as ondas de mais de 3 metros.
Nunca uma ressaca no Rio de Janeiro fora tão violenta. Jamais também as forças naturais se mostraram tão prenhas de vida e morte. Num segundo, num repente, toda aquela cena se transformava. Os jovens surfistas haviam simplesmente desaparecido. Inclusive Ele, que tocara o corpo e a alma de Helena em um lugar distante. Helena desesperou-se. Uma mistura de torpor e despertar se fundiam. Eram as suas águas espumando emoções contraditórias. Rapidamente se vestiu e desceu para o calçadão.
O Caos já se instalara. O calçadão e a praia estavam tomados por curiosos que assistiam a tentativa de resgate. Alguns salva-vidas mergulhavam arriscando-se: tentavam retirar do mar alguns os rapazes que se debatiam contra a força do mar. Outros indignados resmungavam o absurdo: como não impediram aqueles tresloucados naquele dia tão perigoso? Helena não conseguia se conter. Ia cortando a multidão que se aglomerava na praia. Tinha ânsia de localiza-lo, de saber que Ele estava vivo.
Tal era o seu desespero_ agora chorava convulsiva_ que muitos poderiam imaginar que fosse um parente, uma namorada, alguém muito próximo aos rapazes envolvidos na tragédia. Ela percorreu a areia úmida e lotada, olhando um por um dos surfistas desnudados, recebendo os primeiros socorros. Ao todo eram oito os garotos afoitos que adentraram o mar naquela manhã misteriosa. Sete tinham sido resgatados e um deles, justamente o líder, estava desaparecido.
Já era mais de duas da tarde quando a praia novamente se esvaziava e Helena lá permaneceu. Pôde ver os familiares chegarem e levarem os garotos. Conseguia ouvir os comentários, as justificativas esfarrapadas dos rapazes para seus atos temerários. Ouviu também o lamento de um deles, provavelmente o melhor amigo de Alex, sim era esse o nome daquele que visitou o corpo de Helena à distância! Alguns helicópteros de salvamento rodeavam os arredores, tentando localiza-lo. Mas o mar irônico era só vazio e Mistério.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 12h12
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