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Helena (FINAL)
Parte 3
Texto Marcos Mazzaro

O corpo de Helena pesava como chumbo_ a cor do mar acinzentado_ enevoado de dúvidas. Sentimentos turbulentos surgiam sem que ela sequer pudesse perceber a origem. Era como um tremor brotando num lugar que ela até então desconhecia. Os soluços estancados há muito pareciam brotar sorrateiramente em cada poro, em cada célula, no vai e vem de sua respiração. O peito arfava, ansioso de ar e o que vinha era dor incontrolável. Sabia, porém, no íntimo, que tais emoções nem se justificavam a partir da cena que presenciara. Sabia _ ou pressentia?_ que os sentimentos não tinham origem determinada. Eram como o mar revolto que a hipnotizava e a deixava na praia imóvel, apesar da chuva e do vento cortantes.
A angústia que sentia já se anunciava antes, na noite, nos pesadelos, nas sensações que a invadiram naquela manhã misteriosa. Mas de repente, sem justificativa, tudo parecia se dissolver. Como os respingos da chuva e das ondas que chegavam até seu corpo trêmulo. E se tudo fosse sonho? E se aquela dor que sentia, tão quente e tão fria, tão escura e tão clara, tão dual, tão plena, fosse pura ilusão? Sim, pois na medida que a chuva se intensificava e que a confusão do afogamento dos surfistas se resolvia, na medida que a tarde caia, deixando-a sozinha, transformando-a em somente mais uma personagem...Ela sentiu uma estranha paz.
A noite começou a cair e ela subiu para seu apartamento. E deparou-se com mais uma surpresa. Um recado na secretária eletrônica do marido(?) avisando-a de uma viagem urgente para um lugar indeterminado. Mais uma resolução repentina da Vida tentava surpreende-la. Mas o mais estranho era que ela achava tudo natural. Estaria a beira da loucura? Talvez não. Olhando pela janela, naquela noite que se desmanchava no ar Helena teve a impressão de ver um anjo sobrevoando o Mar, próximo de seu edifício. Se ela delirava, não tinha certeza.
Tudo que era tão real de repente diluíra. E o mosaico parecia sempre se refazer, com novas combinações sempre inesperadas. Num gesto de abandono, consigo mesma e com o mundo, Helena se debruçou no parapeito de sua janela. Sentia a paisagem ainda enevoada pela chuva, ressaca e névoa invadir sua alma. Era o sonho que era real ou o real era o sonho? E o anjo_ Ìcaro_ passeava, a rodeava, parecia corteja-la. Gozava com os pingos de chuva que caiam sobre suas asas. Dava vôos rasantes no mar, como se desejasse se aproximar. Dela, Helena, que se sentia uma quimera.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 22h55
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