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Origens

Texto Marcos Mazzaro
Acendo a luz. Minha sala cheira incenso Sinto-me feliz por chegar no meu cantinho, em Botafogo, após um dia exaustivo. O dia fora tenso. O melhor é relaxar. Tirar a roupa. Tomar banho. Deixar a água cair. Tento esquecer o trabalho, as obrigações cotidianas. Um café. De repente, um bom DVD. Uma música? Mas acabo me conectando á Internet e recebo um e-mail de um primo. Arquivo Anexo. Imagem. Quando a vejo o inesperado penetra o espaço, o tempo, o corpo e a alma.
Era só um menino de pouco mais de quatro anos de idade. E brincava em uma ilha no meio do Rio Paraná, entre o estado de São Paulo e Matogrosso do Sul, perto de uma cidadezinha chamada Presidente Epitácio. Naquele dia quente, especialmente, ele percebia a textura da terra, o mato baixo e a parecia reconhecer cada cômodo da casa dos aldeões, de sapé, que seus pais visitaram. Sentia tudo intensamente: o cheiro do feijão no fogo e o início da manhã prometendo muitas aventuras, quando a canoa, num solavanco, avisava os corpos da chegada. Os primos também estavam excitadíssimos. Ansiavam desbravar a ilha que ele conhecia muito bem. O maior divertimento do moleque era empunhar uma vara de bambu e sair em disparada pelo matagal. E bem sei de um dia em que ele se acidentou. Quase furou a bexiga!
Outro divertimento: olhar fundo nos olhos dos calangos, alguns verdes, outros, já maduros; imaginar o que aqueles bichos estariam sentindo. E sua Ema de estimação o que pensava, quando engolia seus carrinhos? Seus pais, Dorcas e Roberto, o percebem de longe_ estão à vontade com Dona Du e Seu Joca. Conversam sobre o tempo, a pescaria, os peixes, a última enchente que tudo arrasou. A mãe de vez em quando dá uma espiada. Mas agora ele parecia se divertir à mesa, entretido com a comida bem temperada. Coisa rara: pensou Janilda, a babá. O menino é ruim de boca. José Roberto era um homem feliz. A mecânica na beira da estrada já rendia um dinheirinho. E ele também se distraia com a pescaria. Dorcas muitas vezes o acompanhava. Mas nem sempre. A menina, Amélia, ainda criança de colo, dispensava cuidados.
Depois do almoço o garoto foi para a beira do rio. Ficava ao lado do pai, perguntando todos os porquês. Não vá entrar na água, menino! Acabou de comer... Faz mal! Mas ele não estava nem aí. Acabou arriscando um mergulho rápido. Só pra sentir a água fresca tomar conta de seu corpo. De vez em quando seu pai fisgava um lambari. Mas a melhor sensação, para o moleque, era simplesmente estar ali e sentir a brisa tocar seu rosto de leve, como uma carícia.
Nada o deixava mais feliz do que sentir todos os gostos que a Vida lhe oferecia. Nada o exaltava mais_ os sentidos_ que o intenso contato com o verde, a terra, o cajá retirado do pé, ou estender-se debaixo da figueira, que ficava nos fundos da ilha. A árvore misteriosa, na sua imaginação, abrigava seres de outro mundo. Observava o pai e a mãe_ apaixonados. Sentia no ar o desejo deles. E eles, sábios, o ensinavam que Amar a Terra e tudo que nela existe pode ser absolutamente libertador.
Ele, o menino da água, era eu. E talvez ainda seja. O que guardo dele é mistério e encantamento. Em algum momento naquela tarde, o pai registrou a cena, na foto que acabei de receber do meu primo. Estou agachado ao lado de Dona Du. Os olhos atentos, vivos, querem brincar mais. Mas a tarde vai cair. E daqui a pouco tudo só será silêncio. No Rio de Janeiro, em algum lugar do presente, um odor familiar de terra molhada, de água doce, parece chegar misturado à xícara de café.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 21h38
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