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A Ultima Noite
Texto Marcos Mazzaro

Nunca houve noite tão escura. Névoas recobriam ruas desertas. Nenhum carro, nenhuma alma. As luzes apagadas cochilavam esquecidas em seu corpo. Eu? Transitava pelas avenidas embriagado de sensações. Jamais um filho da madrugada abandona sua amante, sua cidade. Ele a ama com ternura louca, mais ainda na sua noite mais escura. Onde estavam aqueles tantos que desfilavam grifes ambulantes? Onde se escondem agora os camundongos que se multiplicavam com as luzes das vitrines? A cidade nua tem vergonha da antiga beleza. Mas não vejo razão.Mais linda ela é agora. Quando a percorro através de seu silêncio.
Jamais havia presenciado fato parecido na História. Já havia algum tempo que Ela vinha sendo abandonada.As pessoas saiam apressadas de seus cubículos, mansões, barracos, e sabiam que não voltariam. Naquele final de dia o Caos era total. Aglutinavam-se carros, ônibus, trens e os aeroportos já haviam despachado o último avião absolutamente lotado. A população tomava rumos diversos. De todos os cantos, de todos os bairros, de todas as favelas, de todos os morros, uma multidão debandava. Alguns nem se davam ao trabalho de levar os pertences. E eu vi_ juro!_ no rosto de muitos o intenso desejo de ficar, mas faltava-lhes coragem. Curiosamente uma forte solidariedade surgia entre toda população. Estranhos tornavam-se camaradas. Inimigos trocavam gentilezas, desesperados diante do inevitável.
No ultimo dia fui até a Linha Vermelha, principal foco de dispersão, acompanhar os acontecimentos. Era espantoso! Os caminhantes, formando um grupo de quilômetros de distância, se associavam, tentando se consolar diante do momento absurdo. Tudo era motivo de nostalgia! Até da violência bruta, dos arrastões, do tráfico, das balas perdidas, alguns sentiam saudades. Como esquecer aquele mar selvagem? E a alegria dos verões, os corpos dourados, os beijos roubados na areia? Caia a tarde quando resolvi voltar para o meu apartamento, em Botafogo. Todos iam. Eu resolvia ficar!
Da janela, no meu cantinho, agora só via o Pão de Açúcar. Os bondinhos não o cruzavam no seu vai e vem encantador. O Redentor havia sido retirado, preservado por uma empresa multinacional. Meditando sobre o que ocorreu nos últimos anos lembrei do primeiro boato. A tendência era zombar e rir. Multiplicavam nos jornais charges, quadrinhos, piadas sobre o assunto. Na praia, no chopinho, no futebol, dava o que falar. Até a Escola de Samba, Campeã no ultimo Carnaval, anunciou que aquele seria o samba enredo. Mas eu notava em toda aquela exaltação uma pontinha de preocupação. E a questão ficou séria quando uma reportagem no Show da Vida abordou a enorme possibilidade. Vou avisa-los, porém, que não me enquadrava no caso dos céticos, e muito menos dos desesperados. Para mim, tudo era indiferente (e fascinante) ao mesmo tempo.
Não sentia medo. Estranha paz e felicidade me transbordavam. Desci para a rua em direção à Praia de Copacabana. Tudo escuro. Tudo deserto. Nenhuma criatura. Só a noite, sem lua. E o silêncio das ondas do mar. Quantas vezes, nos reveillons, multidões cruzaram aquele túnel? Agora, era tudo absoluto Vazio. Embriagado, claro que reservei as melhores garrafas de vinho para tal momento único, me estendi na areia. Nu, senti o mar batendo forte e a névoa avolumando-se parecia vir ao meu encontro. Mas um horizonte me sorria. Uma linha tênue dividia meus pensamentos.A respeito da profecia: quantas dúvidas, quantas certezas, quanto nada! E o que restaria seria só o estar ali, presente, embriagado, apaixonado por sensações, sentimentos, emoções...turbilhões sempre por vir.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 10h10
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