Cosme e Damião
Texto: Marcos Mazzaro

Nonada. Neste mundo estranho sem deuses me lembro de repente de Grande Serão Veredas, by Guimarães Rosa. A angústia de viver é persistente. E prossegue indiferente a nossas vontades. E por mais que o caminho pareça estranho, misterioso, percebo o quanto surpresas do dia a dia acabam me compondo no mosaico de mundos.
De repente me vejo multidimensional. Quando acordo de manhã um sonho colorido ainda permanece. A mente registra as cores, quimeras noturnas. Sapinhos mijando para trás...E algo parecido com um dragão australiano passa pela minha sala, dá uma gargalhada e se retira de cena como um clown. Ainda deliro quando me olho no espelho e me dou bom dia!
E assim vou prosseguindo, escovando os dentes, deixando a ducha quente aquecer meu corpo sensível pelos primeiros raios de sol da manhã. São seis horas ainda e tenho vontade de voltar pra cama. Mas qual o que! Há muito por fazer! E o sonho da noite de repente desapareceu.
Imagens outras me penetram quando lavo a louça e tiro o leite da geladeira para preparar o café da manhã. Um sorriso lindo. Um corpo me leva suavemente a um reino encantado, além dos limites do real. Descubro estalactites gotejantes. Lá nas origens do mundo, uma água translúcida. Impossível não lembrar agora de Caetano Veloso e a música. Não me amarra dinheiro não, Mas formosura... E a Beleza. trai, atrai. Em algum lugar ficará registrado pra sempre a pele, com gosto de canela. Talvez por toda a minha vida tenha que continuar compactuando com ela. Assim, arrepiado, sinto que estou vivo.
Mas já são oito e meia da manhã. Na primavera, neste horário, o sol já vai alto, zombeteiro. E tudo que resta é me preparar pra sair. Nem havia notado o calendário. Nem sabia que era 27 de setembro. Na rua, em plena algazarra um bando de crianças e adolescentes atravessavam a passagem que ia dar no Rio Sul. Eles eram alegria bruta manifestada. Um deles, particularmente, carregava outro nas costas e gritava Queremos doces! Doces de Cosme e Damião! De repente, um grupo surgiu distribuindo as guloseimas. As pessoas apressadas nem notaram. Por que será que a maioria de nós se esquece que lá atrás, na criança que escondemos, está a realização dos desejos mais simples e essencias? Alguém subitamente me deu um saquinho cheio de surpresas. Num instante, no meio daquela algazarra, era eu também moleque saboreando o gosto de pipoca doce, antigo, distante. Delicioso!
Escrito por MARCOS MAZZARO às 19h38
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Transcendência
Texto: Marcos Mazzaro
Eu vou me fundir sendo,
me fundar morrendo.
E numa orgia mística consumir...
(Alimento tudo que arde.)
Estou além da banalidade cotidiana.
Ultrapasso sinais vermelhos e amarelos.
Me deixo ser...
Quase adivinho.
Escrevo epitáfios para recém nascidos.
E se eu fosse mar, pedras, fragmentos, e no momento seguinte tudo gozasse comigo?
Sou histórias de incertezas: conto de fada.
Estou ardendo em rochas e fazendo canções para o Acaso.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 07h18
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