| |
Os Amantes
Texto Marcos Mazzaro

Algo brotava sem saber as origens. Sentiam naquele instante o peso e a leveza do corpo. O Ar perfumado. Se tocavam os cabelos encaracolados e se embriagavam. Naquela sala, que poderia ser em qualquer lugar do mundo, espaço plausível até nos desertos, nas geleiras, nos fiordes da Normandia, em qualquer lugar. Enfim, por um instante, se poderia ser livre. Diante de um quase estranho, agora íntimo, a pele arrepiava. Cada poro, pêlo, pentelho, cada fio da raiz de seus cabelos, estavam plenamente conectados com os sentidos: a respiração ofegante, a tontura momentânea, o gosto de halls misturado ao vinho tinto cabernet.
Entregues a tais sensações os lábios úmidos gotejavam, saciedade e desespero eram bons amigos e trocavam confidências. Longe podiam ouvir o ronronar dos carros, as buzinas, um bebê chorando. E uma música de poucas notas se repetia. Os sentidos ampliados podiam perceber até o estalar dos dedos de um vizinho histérico. Mas mais ainda, com maior intensidade, as peles se teciam misturadas ao chão, ao pó, aos lençóis e às paredes.
Deviam ser três horas. Madrugada fria, quem sabe, não seria a primeira noite de um longo inverno? Gatos e gatas num telhado próximo disputavam seu quinhão de prazer. Cachorros excitados completavam o coro uivando na noite sem lua. Um guarda noturno passou apitando e alvoroçou ainda mais a bicharada. E de repente, o silêncio.
Toda esta alternância deixava-os ainda mais entorpecidos. Era como se um deus ancestral os invadisse, penetrando sorrateiro um lugar nunca antes visitado. O encontro dos corpos era puro acaso. Dançavam os amantes sem movimento combinado. Lutas, jogos e brinquedos aparecem de lugares inesperados, choram, para em seguida, gargalhar. No Universo, são raros os momentos de encontro. Neste milionésimo de segundo não havia medo, nem culpa, nenhum desses sentimentos serviria pra nada. Tudo só... Respirava!
Escrito por MARCOS MAZZARO às 06h41
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]
|