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O Jardim do Desejo Escondido
Texto: Marcos Mazzaro
Há muito tempo brotou no mundo do sonho um jovem príncipe desencantado. Esse menino, quase adulto, só sabia se lamentar apesar de possuir tudo o que outros garotos de sua idade poderiam desejar: era belo, de olhos puros, e tinha uma família que o amava. Mais ainda: tinha próximo de si um amigo que o acompanhava em todas as suas aventuras. Curiosamente nosso personagem preferia os meninos. E experimentara seu primeiro beijo com um garoto que como ele preferia amar iguais. Mas Nicolau_ assim o chamaremos_ estava sempre cabisbaixo. Nada o animava: nem os jogos, nem as brincadeiras, nem o desejo que brotava em uma época em que os hormônios estão a três mil por hora. E tudo isto tinha um motivo: seu amado, aquele menino que o beijara subitamente em uma melancólica noite de inverno, desaparecera, desterrado como Romeu.
Para fugir de sua dor o jovem teen inconformado se escondia no jardim do seu palácio. Sim, além de tudo, o jovem Nicolau era um príncipe! E seu cantinho era o lugar da Beleza. Lá só permitia entrar o seu melhor amigo e eventualmente os pais. Neste jardim brotavam fontes de água pura e nela poderia se admirar peixes coloridos. Dela pendia uma cachoeira, límpida, borbulhante. E muitas flores nele surgiam: orquídeas principalmente. Caprichosas e temperamentais elas floresciam independentemente da estação do ano. No canto, uma quase praia, se podia sentir com a pele a areia branca e fina. Lá, Nicolau se deitava nu e tocava a terra, reclamando para o sol e para a lua, nos dias e noites de verão, outono, inverno e primavera. Ali também guardava seus brinquedos: um peão, muitas bolinhas de gude, carrinhos, bolas de futebol e alguns bambolês.
Quando se sentia desolado brincava mais ainda. Era um modo de fugir da dor incômoda, sorrateira, que o pressionava. Ele não jogava por jogar. Fazia tudo para esquecer. Mas sentia também algo inominável quando percebia que todos os seus movimentos provocavam outros. E mais ainda: que em determinado ponto já não brincava para esquecer. Estava ali, totalmente entregue no seu brinquedo. Um prazer especial nascia ao notar que seus movimentos provocavam outros e faziam girar o arco, leve, avermelhado. Esse era o seu maior divertimento: junto de seu amigo rebolar com o bambolê, disparar as bolinhas de gude em direção ao infinito, colocar o peão para rodar e imaginar que ele nunca pararia de girar!
As vezes ao observar as transformações de tudo o que existe ele ainda se entristecia. Pressentia que a Vida seria sempre movimento e mudança. Estava tão distraído na sua reflexão que não percebeu que o corpo de seu amigo estava próximo, colado ao seu, e que seus braços o enlaçavam num terno abraço.E algo chegava de leve, manso, esquentando e arrepiando a pele.
Era o desejo escondido, acordando subitamente em pleno meio dia. Num instante ele e o amigo de aventuras, que até então nunca desejara, estavam enlaçados num longo e febril beijo. Seu Amigo era o jardim escondido do desejo florescendo nele, transformando aquela melancolia do que já fora, de um primeiro beijo, marcante, com certeza, em um segundo movimento, agora mais próximo, terreno, real, forte, intenso e verdadeiro. No Jardim Escondido do Desejo Eles se amaram e descobriram juntos que tudo, absolutamente tudo, é possível!
Escrito por MARCOS MAZZARO às 15h22
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