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Enfumaçado
Texto Marcos Mazzaro

Hoje acordei a saudade. Sentimento distante, longínquo. Ele me conduziu a espaços plenamente vazios. De repente o vento entrou pela janela. E era tudo por demais familiar, frio e ao mesmo tempo aconchegante. Num instante parecia estar noutro lugar. Próximo demais de mim mesmo. Minha mãe bateu a porta, sorriu e pediu permissão para entrar no meu quarto. Lá fora, uma chuva fininha começava a cair. Meu cachorro latia. Reclamava e pedia encarecidamente para que eu o desamarrasse. Os olhos dela me adentrando, me avisando, que meu animalzinho de estimação tava na chuva, agora me comovem.
Preparo o café. Estamos em novembro. O vento da primavera circunda meu cantinho em Botafogo. As janelas tremem. E balançam também outros tempos e espaços. Minha estante bagunçada no quarto de adolescente se parece muito com a que tenho hoje, tão caótica quanto a anterior. O cachorro parou de latir. Agradeceu com uma lambida e uma abanada de rabo a lembrança e carinho. Era de rua meu vira-lata querido. Mascarado de marrom e zangado. Parecia um fox terrier e adorava espantar os carteiros. De repente ele invadiu o quarto, pulou na cama provocando exclamações de espanto na minha mãe e irmãs. Meu pai? Esperávamos para o almoço.
Nas refeições de Novembro todos estão sentados à mesa. Os bichos em alvoroço. Sempre separava um naco de carne para Ele. Também instigava a irmã do meio. Chamava-a de Cuca. Ela quase tinha uma indigestão. Ou então para cutucar mais ainda arrotava ostensivamente, mesmo sem vontade. A Adolescência é este luar eterno, cheio de provocações. Meu corpo eriçado sentia o vento penetrar espaços vazios. E ficava de cuecas vendo televisão para o escândalo de alguns e deleite de outros. O corpo quase nu estendido no chão. E um desejo imenso de abraçar alguém ou algo. Ao longe podia ouvir Gal sussurrando o Folhetim de Chico ou Beth Carvalho lamentando que As Rosas Não Falam.
Entre um gole de café e outro, uma balinha tic-tac, ou qualquer outra ação compulsiva para preencher os entreatos da existência, a melancolia se instaura na pele. Percorre com um leve roçar de dedos cada buraco negro da existência. Lambe todos os corpos amantes tatuados nas memórias que ficaram na alma. Algo em mim, enfumaçado, gargalha para tudo o que se foi. Meu antigo James Dean, por exemplo, rebelde, abandonou a minha sala em Botafogo subitamente. Sequer deixou um maço de cigarros como lembrança de sua passagem por este planeta conturbado.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 10h56
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