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Aspirações
Texto Marcos Mazzaro

Que todos os seres encontrem a Felicidade e as causas da Felicidade. Que todos os seres se libertem do Sofrimento e das causas do Sofrimento. Que todos os seres nunca sejam privados da Alegria, suprema Felicidade, que é Livre do Sofrimento. Que todos os seres repousem na Equanimidade, liberados de Paixões e Aversões. Estas nobres aspirações, difíceis de serem compreendidas, complexas ao serem vivenciadas, me transpassam, humano demasiadamente humano.

Queria ser Corpo, leve e sagaz. Mas bilhões de anos me acometem. E me viciam em perambular. Nunca paro de buscar. Gosto de Renascer. De Andar feito moleque sou viciado. Mas hoje acordei desacordado de mim mesmo. E não sabia onde me achar. Me busquei nas gavetas, nas arcas, nos cantos empoeirados. Mas nada. Entorpecido, cansado, quase sem forças, levantei a pedra tumular de mais de cinco mil anos. E um terremoto súbito me jogou no fundo da imensa Cratera.
Hoje Ontem Amanhã Hoje Ontem Amanhã e Depois sem Tempo... visitei espaços ancestrais. Fui a Jerusalém, conheci Shangri-lá, me tornei íntimo de Athenas, percorri Roma. Senti o peso e o clamor dos Césares. E o corpo que levita, pra deixar a alma brincar de existir. Vi Dioniso cacheado entrar e invadir os espaços ocos das Existências. As parreiras de Uvas adormecidas no Mediterrâneo, prontas para oferecer o suco aos afortunados. Felizes daqueles que me provaram e beberam da boa Saudade. E que mesmo dela acometidos nunca foram privados da Alegria.
De repente, sou um observador atento na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, a Gothan City sem Batman e Robin. No táxi, a caminho de casa, pingos de chuva grossa, névoa espessa. E chove. E chove. Nas ruas alagadas transeuntes e carros se xingam na Lapa Selvagem. Mas se paqueram também. Homens e mulheres furiosos e lambuzados da lama da chuva. Crianças chorando impacientes, famintas. A lady de chapéu preto parecia viúva _ Ou era a Mulher Gato?
Os tempos nunca vão parar de se mesclar. Em algum momento, o travesti provoca o motorista. Um funk ritmado estoura lá fora. Meninos e meninas cheios de anéis, correntes, bonés para trás e óculos escuros são pura orgia. Corpos suados se esfregam. Sôfregos. A língua úmida dele, invadindo a boca, me arrepia os poros. E a pintura se completa, comovente, com um outro, bonitão, sentado na escada de um casarão chorando feito criança abandonada.
Por um momento eu poderia confundir suas lágrimas com a chuva e o seu soluço chegou no meu peito ávido de amparo. De repente, o desejo de possuir se confunde com o coração aberto, de compaixão. Mas respiro fundo, peço para o motorista acelerar um pouco mais, para que possa continuar a viajar, a ver a paisagem. Ás vezes necessitamos de outro Enquadramento, de Outra Velocidade. Ao Largo Ainda Arde a Barca da Fantasia. E o meu Sonho Acaba Tarde. Acordar é o que eu Não Queria. A melodia de Pastor, de MadreDeus, invade o ambiente do automóvel e se dissolve no instante precioso que se esvai.

Algo lá no fundo é gargalhada desnuda e... Vive!
Escrito por MARCOS MAZZARO às 14h17
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