Querida K
Texto Marcos Mazzaro

São quase três horas da madrugada. O silêncio do apartamento só é quebrado pelo MSN que me chama de vez em quando. Sua carta veio junto de milhares de informações. Acho que vou precisar de duas crônicas, talvez três, talvez dez, pra dizer tudo o que sinto e o que flui neste mar de emoções e sangue que compõe o meu corpo dilacerado e ávido de renascimentos. Vê como você acabou me inspirando? Eu que estava fugindo de escrever...
Portanto K, .Essa carta crônica é pra você. Especial pra você!

Dias intensos estes. A brisa do mar chega até a janela. E minha gata parece que quer entrar no cio novamente. Ta muito dengosa e carente. Me incomoda. Vez ou outra eu a atiro pro chão, quando ela insiste em se aproximar do computador.
Meu humor não está dos melhores. Por outro lado, nunca estive tão bem.. Tão radicalmente bem! Experimentando...
Visitar Os Sertões do Zé Celso, em cinco etapas, se aventurar na proposta do teatro ritual, sentir o calor humano que brota no coletivo se integrando e se entregando pra mim é sempre emocionante. Sou talvez um dos poucos que ainda acredita na proposta de uma cena radical, sem limites, uma cena que subverte todas expectativas e que literalmente desnuda. E que educa o publico na medida que ele mesmo se habitua com o que os civilizados chamam de transgressão... Mas acho que vou aprofundar esta reflexão no segundo capítulo.
Antes prefiro tocar na raiz de suas ( nossas!) angústias. Devo confessar que fiquei lisonjeado com uma definição que você construiu sobre mim...Um louco consciente...Nem sei se há tanta clareza na trajetória da minha loucura...Mas hoje, nesta Primavera, quando Copacabana de manhã é puro nevoeiro vindo do mar, aprendi a dançar no calçadão e olhar o mundo como se acabasse de ter nascido. Hoje olhei pra Vida e senti muitos tremores misteriosos. E quando li seu e-mail então...como tudo é vigoroso e indomável!
Ah... K... Viver é assim mesmo...Impossível transitar pelas ruelas da vida sem se esbarrar nestes súbitos momentos de entrega. Impossível atravessar Os Sertões sem se desnudar e abolir limites. Impossível... porque desejamos o Super Homem_ com todos os trocadilhos e metáforas que ele nos instiga.
Mas na angústia da dúvida nós muitas vezes perecemos. Sim! A dúvida é a pior coisa que existe. È nela que nos fundamos e é nela que nos afogamos sempre. O problema é que além da dúvida inventamos sua versão cristã: a culpa!
Porque por um motivo civilizador ( cruzes!) fomos educados para termos certeza, para transitar em chão firme e confortável, fomos infelizmente condicionados para acreditar que o caminho mais interessante é aquele que nos garante algo. Mas à meia noite descobrimos que tudo cai.
Hoje descobri que a Vida desaba muito rapidamente. Três notícias súbitas ao mesmo tempo: a morte de um tio querido, a morte de Paulo Autran e o convite insistente de uma amiga pessoal que está muito doente querendo me ver. Tudo quase na mesma cena no dia 12 de outubro de procissões e Aparecida.
Em momentos como esse tenho vontade de me ajoelhar, tenho o desejo do transe pagão, de me refazer em alguma alteridade...neste momento sagrado sinto que estou pulsando em veias, vielas e caminhos. Nada sei.
(continua... amanhã...)
Escrito por MARCOS MAZZARO às 02h10
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