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DIÁRIO DE UM ESCRITOR
 

Tempo .... Tempo... Tempo...

Texto Marcos Mazzaro

Ao longe, meio acordado, meio dormindo posso ouvir o ritmo dos atabaques misturado ao som de Voyage, From East to West- Pont Zero. Entre uma batida e outra sinto a variação do ritmo. Ora lento, ora rápido, outras vezes aceleradíssimo, esses toques me deixam quase em transe. Um contato com o longínquo me arrepia os pêlos, como carícia de corpo gostoso. O navio na Baía de Guanabara avisa que está ali. Com um longo e grave sinal sonoro me desperta.

De repente o silêncio. Ainda consigo ouvir: Ciranda Cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar...O anel que tu me deste era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e AUMENTOU... Assim, compondo uma grande roda regressiva para a infância, público e atores se encontram na abertura do segundo espetáculo de Zé Celso_ O Homem I.

Ah o Tempo... E suas variações nos ritmos, nos modos de realizar-se no mundo. Mas este momento no qual escrevo e me permito mergulhar em outras dimensões é quase uma ofensa. Correr atrás das coisas e captura-las em pleno vôo, ainda frescas e cheirosas_ isso é in. Bauman em Vidas Desgraçadas assinala que o ritmo vertiginoso do que acontece não permite espera, nem demoras, nem adiamentos.  O imediato futuro está ali. E deve ser apreendido. E o seu desejo deve ser imediatamente saciado.

Neste mundo de instantâneos as encenações tendem também a diminuir seu tempo de duração. Para os moderninhos não há sentido em gastar mais do que uma ou duas horas para o teatro de evasão. Aliás, em qualquer atividade planejada dentro do cotidiano dos anos 00. Tudo necessita ser ágil, rápido, pois o tempo é um enfado e uma faina, uma afronta e um desafio aos direitos humanos. O tempo é um ladrão. A passagem do tempo deve ser registrada  na coluna do débito dos projetos da vida humana.

Mais uma vez Bauman sussurra nos meus ouvidos: O ritmo vertiginoso da mudança desvaloriza tudo que possa ser desejável e desejado hoje, assinalando-o desde o início como lixo de amanhã, enquanto o medo do próprio desgaste que emerge da experiência existencial do ritmo estonteante da mudança instiga os desejos a serem mais ávidos, e a mudança, mais rapidamente desejada.  O alerta do sociólogo polonês e a proposta de cinco espetáculos em série, de mais de cinco horas de duração cada, em Os Sertões, me jogaram em viagens muitas, em diversos Tempos e diferentes Dimensões.

O Homem que surge em Os Sertões, Super Homem(?) não tem essa relação imediata, consumista e consumidora  com o Tempo. Ele é enamorado do Tempo, anda de mãos dadas com Ele e aprende seus jogos. Se permite regredir em mil e tantos outros mundos. Ele não tem vergonha de ‘perder tempo’ e dar as mãos para simplesmente cirandar e brincar de Roda Viva.

Talvez neste grande círculo, de mãos dadas consigamos invadir e descobrir novos territórios do Ser. Talvez, quem sabe, um dia, possamos recuperar aquela  base primordial do pé no chão. E assim ultrapassaremos todo Luxo e Lixo que nos é empurrado goela abaixo para aplacar a avidez artificialmente  criada pelo mercado.  O Trans Homem no Teatro Ritual de Zé Celso encanta para se re-voltar. E o encantamento se dá no feitiço ancestral.  Na forma poética original, cantada, dançada, recitada aos deuses férteis originários de um Teatro que ressurge neste momento mágico e por que não? Trágico... Trágico...

( continua ... continua... continua...)

 

(Ruínas da Antiga Canudos)



Escrito por MARCOS MAZZARO às 09h20
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O Luxo e o Lixo na Terra em Transe das Bacantes

Texto : Marcos Mazzaro

Querida K:

Daqui a pouco vai amanhecer.  E o lixo e o luxo do dia vão se escoar ao longo das vinte quatro horas fugazes.  Bauman, na cabeceira da cama, me avisa com a página marcada que apesar do sol nascente e do brilho eterno da mente plena de lembranças... eu acabo de acordar em sonho. Mesmo vivendo em um país multicolorido, iluminado, tropical, e pleno de diversidades sinto que sobrevivo em um espaço saturado de refugos e redundância.

Os Sertões de Zé Celso ainda é impressão diluída presente. Parece que ouço ainda o clamor da Terra repetido na platéia, no congraçamento e nos manifestos que o encenador conduzia com maestria. O Espetáculo de Zé Celso, livremente inspirado na obra homônima de Euclides da Cunha, retoma esta nossa necessidade da integração humana em todos os níveis. Na verdade, o espetáculo não só nos convida a refletir sobre esta tão falada identidade nacional multifacetada. Ele desnuda esta identidade no que ela tem de frágil, deflora seus pontos frágeis.

Se por um lado hoje temos uma Terra que clama por transformações, por reajustes urgentes_  e o aquecimento global é só um sinal entre tantos_ tal mudança só pode ser encarada se olhamos com cuidado para dentro de nós mesmos, se ultrapassarmos o refugo e a redundância que Bauman enfoca em Vidas Desperdiçadas.  Nesse sentido o primeiro episódio da Quintologia de Os Sertões é o prelúdio de uma luta surda e emocionante, entorpecida sempre pelos agentes adversos, luta entre o luxo e o lixo.

Lixo e Luxo são produções de nosso mundo pós alguma coisa. E o que mais impressiona não é o volume, a quantidade, os montes de sucata, restos, que vamos amontoando,  mas sim a capacidade que a sociedade tem não só de descartar mas de também absorver. Luxo e Lixo neste mecanismo se revelam face da mesma moeda neste mundo pós moderno.

O primeiro episódio de Os Sertões é um convite a revisão. O Teatro Vivo nos convoca ao contato com as raízes, com a ancestralidade bacante, pulsante em todo e qualquer ser social vivo: Raízes... Unem-se, intimamente abraçadas, transmudando-se em plantas sociais. Não podendo revidar isoladas, disciplinam-se, congregam-se, arregimentam-se. São assim Canudos...Não só lá... No Afeganistão, nas Arábias, na África, mas em todos os pontos do planeta em pé de guerra pela Vida.

Talvez seja impossível fugir da realidade fria e melancólica que nos torna quase autômatos do Global, do Insípido, da imagem maquiada e desencarnada, de ser redundante ou refugo, turista ou vagabundo, de ser só lixo ou luxo... de sair deste fluxo que nos torna inconscientes da  possibilidade da real  plenitude e êxtase. O êxtase que reverbera no corpo físico e nos transforma...

Quem sabe...

A Cena Ritual de Zé Celso acendeu em muitos o clamor imperceptível de uma insurreição contra toda esta estrutura virtual que nos divide entre consumidos e consumidores. Na Terra em Transe das Bacantes, na Terra da Ginga, Brasileira, respingam-se os sinais de Antônio Conselheiro, da diferença nua,  crua, antropofágica, canibal,que em algum ponto nos reabilita. A obra do encenador toca o homem brasileiro (e universal ) com o coração. O humano em êxtase vai despertar num Rito Ancestral. Aguardemos. Já ouço os atabaques...

(continua... continua... continua...)



Escrito por MARCOS MAZZARO às 22h17
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Sobre a Interação Ritual – A TERRA

Texto Marcos Mazzaro

Querida K:

Ajoelhado permaneço por algum tempo. Nem sei dizer o quanto escoou de mim enquanto quase em Transe o mundo girava na velocidade da Terra.

Enquanto a platéia se aquecia para entrar no clima eu _ ao mesmo tempo que fazia os exercícios(?) _ pensava, racionalizava toda a parafernália que me cercava e me ronda até agora, aqui, neste instante quando escrevo. 

A cena de José Celso Martinez Correa provoca essa sensação imediata em alguns. Não em todos. Tem que estar predisposto a olhar o mundo invertido. Pode ser divertido por alguns instantes plantar bananeira. Mas por um rápido instante a posição incomoda e temos vontade de retornar ao racional determinado e classificável.

“ Meu cavalo ta pesado, meu cavalo quer voar, atuar, atuar para poder voar”.

O côro  instiga-nos a simplesmente sentir, mas um aviso aos navegantes sensação sem atuação é vazio oco, puro nihilismo.No meu vazio há de caber tudo. Da dor mais funda, ao êxtase, sem esquecer o dia, a noite e o banal que cotidianamente sacralizo.

Talvez seja desse Vazio que Zé Celso trate no seu Teatro Ritual.  A busca de um Teatro Vivo, como diria Peter Brook, parece sempre ser uma de suas questões.

Mais do que a Cena Viva, talvez K, busquemos um lugar verdadeiro, que nos traduza e nos expresse.Muitos vão acusar o encenador de se repetir ou de lançar mão de recursos parecidos para instigar a platéia. Mas qual o problema? O pulo do gato ( ah minha gatinha, continua insistindo em digitar comigo o texto!)  para o encenador é que ele tem que ser verdadeiro consigo mesmo, com aquele lugar que grita em suas entranhas. Instigar a platéia talvez seja sempre necessário. A civilização desalmada...sabe bem o que quero dizer com isso... Literalmente nós perdemos a alma, quando matamos os deuses. Alguns (tudo bem!) tinham mais é que padecer. Mas a civilização imagética radicalizou esse pensamento Platônico e Aristotélico.

E Hoje todos estamos condenados quase a vagar como autômatos. Para alguns só resta navegar no mundo da imagem. Mas para a maioria só é possível travar um contato rápido. Sem sequer ter o gosto da assimilação da Beleza que É. Gosto da idéia de vagar, de se deslocar sem objetivos criando o desenho da trajetória. Esse é um movimento extremamente rico.  Mas me assusta entrar na rede dos autômatos...vazios de consciência. Talvez por este motivo esteja cada vez mais instigado a investigar o Teatro Ritual e o que ele pode nos trazer, nos ensinar enquanto humanos no caminho de volta para suas origens.

Nestes dias K, observei a platéia. E me assustei. Ser radicalmente lançado na Arena das Sensações assusta alguns e causa estranhamento em outros. Parece que o humano demasiado humano ficou humano pouco humano justamente porque perdeu o contato fundamental com seu começo primitivo. Por outro lado, muitos recuperavam ali sua infância perdida (?) se entregando nem que fosse por um momento ou tomando contato com aquelas imagens cruas que o encenador sabe criar.

Desacostumamos de cheiros, paladares, toques e arrepios. O projeto civilizador diferenciou radicalmente o animal do humano e tornou nossas vidas desperdiçadas na medida em que nos tornamos lixo reciclável de nós mesmos. Mas o link entre Baumann e Zé Celso fica para daqui a pouco.

( continua... continua... continua...)



Escrito por MARCOS MAZZARO às 13h20
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