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DIÁRIO DE UM ESCRITOR
 

EXISTIR... A QUE SERÁ QUE SE DESTINA?

Texto : Marcos Mazzaro

 

Domingão pós Cosme e Damião. Acho que dá para refletir sobre tudo o que aconteceu nos últimos seis meses. Pacotão.  

Bem mais interessante que aquele que os americanos estão tentando implementar para que o Titanic não afunde. Como no filme...

Nós já sabemos que o navio se chocou contra o iceberg. Agora é esperar e aceitar. Pois é...Talvez isto se aplique a diversas áreas da Vida.

O que fazer quando o navio se choca contra o gelo e de repente a gente sabe que inevitavelmente vamos ter que provar das águas congeladas e tentar sobreviver? E mais ainda, que só vão sobrar aqueles que realmente estiverem aptos a uma renovação.

Tenho presenciado este fato na vida pessoal de muitas pessoas queridas e também na minha.

A sensação que a dor humana é inevitável, mas que o modo que a atravessamos é que vai determinar o produto final de nossas realizações. Na verdade, o que menos se espera é que diante de nossa potência e prepotência um acidente provoque tais mudanças. A humanidade vive como se fosse eterna. A gente sabe que ela vai passar como um gigante congelado...Mas insistimos em tentar tapar o sol com a peneira. Vivemos como se tivéssemos construído nosso Titanic e que ele fosse a prova de qualquer tempestade. Recordo-me da frase dos construtores do mega navio. “Nem Deus há de afundar este Navio”.

Se Deus existe deve ter dado uma grande gargalhada quando ouviu esta afirmação. Se ele existe e é sacana resolveu mostrar todo o seu poder. Se ele existe e é generoso mostrou em um simples gesto o quanto temos a aprender sobre a fragilidade das existências. Se ele não existe vamos combinar...Mais uma vez o homem demasiado homem provou sua incompetência diante de si mesmo e do mundo. Enfim. São só provocações caro leitor...

* 

 

Minha homenagem à querida gata Lua... Um animal forte, temperamental, quase selvagem.

Exemplo de amor incondicional se tornou uma verdadeira Heroína. Não sobreviveu ao Titanic.

Mas tenho certeza que se existir um além para animais...(Sabe-se lá?) deu um salto quântico de fazer inveja a muito New Age por ai.

Deixou na minha vida Madonna, Prince, Tigrinho e Yoda, alegria de meus dias e que já estão desmamados se preparando para seus novos donos.

Madonna já foi. Nesta semana irá Tigrinho e depois Yoda. Vou ficar com o Prince, que faz companhia ao pai, Yago, outra lição de amor imensurável diária...

*

Fé. Eu tenho Fé? Dia 21 de setembro em pleno início de Primavera aconteceu a passeata em Copacabana.

Momento importante de afirmação contra a discriminação religiosa e também de desejo de toda uma coletividade em um mundo melhor e mais pacífico. Eu não fui! A Vida às Vezes Dói Demais. E fiquei laborando minha Fé noutro lugar.

Lá no íntimo, no ponto onde a alma se desconecta do corpo, naquele ponto fraco onde tudo é mais intenso e verdadeiro.

Se descobri minha fé? Sei lá...

Cada vez mais acredito em algo que sempre dizia intuitivamente para os amigos mais chegados.

Fé se labora a ferro e fogo.

No fundo é uma arma poderosa construída por nós mesmos.

E somos nós que decidimos o material que usaremos para empunhar esta espada, para que ela seja forte e nos conduza a algum lugar.

Conduzir a algum lugar_ se existir um lugar pra chegar_ é pra lá de suficiente.

Mas é necessário temperá-la na medida certa de nossas forças. Infelizmente muitos forjam sua espada com papel machê.

Outros a temperam com prepotência e vaidade atuando com perversão e destruindo tudo ao redor.

Conheço poucos que a construíram com paciência, amor e dedicação a um ideal.

Para eles, alguns já se foram... Outros estão ai, (ainda bem né?) o meu profundo respeito e admiração.

Hoje, pós Cosme e Damião eu ainda me pergunto...

Eu tenho Fé? Prefiro não me responder. Mas agora pelo menos não está doendo.

Quem sabe a arma que vai me ajudar na realização de meus ideais ainda esteja sendo construída?

A única certeza que tenho é que a forjo com o que há de melhor em mim. O melhor de mim...

Um dia me falaram que é o meu Orixá...Francamente...Não tenho certeza de Nada. Só sei que dou têmpera à espada.

E que tento desenha-la e construíla com o justo amor,  equilíbrio e a crença da Arte como uma das formas de construir um mundo melhor.

Eu acredito na entrega sincera para a Vida... de Tudo! Onde Doer e Onde Alegrar...Deixo me Ir...

Me conduzo sabendo da dor e delícia inerente ao existir.

Acho que já é um começo...

*

No pacotão também está a estréia de “O Retorno de Makunaima” que provavelmente mudará de título.

Sobre este trabalho tenho muito que questionar também.

A impressão que dá é de em parte ainda não ter forjado a justa medida entre o que desejo realmente dizer e a reação e compreensão das pessoas.

A dor de Elisa.

A inconsciência dela diante de sua dor. Esta é a questão. Este é o Iceberg. É inevitável que Remediados se congele.

Em tempos de exceção, diz o Mito que os deuses atuam na Terra com mais força ainda.

Mas estamos tão cegos que não conseguimos vê-los e compreender o que eles querem nos transmitir.

Às vezes penso que não estou capturando  a mensagem dos deuses. Sinto-me uma toupeira diante do óbvio. Ser e Ser... Eis a Questão!

*

Voltando ao Titanic... Se recordam que quando o navio bate no iceberg é exatamente o momento no qual o casal romântico finalmente faz amor? Pois é...

“Algo novo no ar agora respira. Talvez seja sua presença.

Mas é também a sua falta e a virtualidade misteriosas que nos uniu antes de qualquer encontro.

E este ar leve agora, esfumaçado num início de primavera. Este ar, respiro nas paredes de meu apartamento. Olho em volta.

Um silêncio entre tempos. Mas em algum espaço de meu corpo e também num lugar indeterminado que o ocupa plenamente pulsa radiante.

Brilha escondido. Como  fagulha de um deus. Sou eu me acordando. De mim mesmo e para um Outro...

Que em noites de mistério já me visitava...

Onde andava e que caminhos perambulava... Onde se escondia que eu não via? Aliás... Onde nos escondíamos antes do inicio dos tempos?

Mistério neste momento parece palavra tola. Esvaziada de sentido... Porque no auge da dor ele já estava. Talvez já me pressentisse.

Talvez nos pressentíssemos... Talvez nos presenteássemos... Antes muito antes do Big Bang. Hoje ao acordar, rodeado de melancolia e alegria, tudo junto, pleno de dor, mar e sol... Vi seu rosto brilhar... E seus olhos negros e oblíquos pareciam cantar uma melodia antiga...

Não. Não era sonho. Mas também era e sempre será...Alguém me velava quietinho, respeitando meu silêncio.”



Escrito por MARCOS MAZZARO às 13h31
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