Tributo ao Subsolo
Parte I
Texto Marcos Mazzaro

Sou um homem comum. Sou um homem malvado. Sou desagradável. Acho que sofro de muitas doenças contemporâneas.
Sou um homem solitário e egoísta. Mas vejam bem meus amigos, hoje quando sentei em frente a esta tela de computador descobri.
Não... não é uma bomba... é só um traque, um estalinho! Descobri que nós todos estamos sofrendo deste mal pós alguma coisa.
Esse Pós Ser me inquieta e nos pulveriza. Descobri que apesar de toda minha soberba as vezes eu mais me pareço com um carneiro pronto para o sacrifício.
E não me importo. Que venha o que tiver que vir...Coisa estranha... Descubro agora num insight que sempre fui assim...
Que toda esta loucura só estava latejando, pronta pra explodir.

Devo dizer... acho que desde antes de meu nascimento eu fui do contra.
Já nasci fazendo estardalhaço, apressando os tempos e deixando os que estavam a minha volta bem agitados.
Uma criança de sete meses, com um quilo e quatrocentos gramas com pneumonia dupla e infecção na garganta jamais poderia sobreviver.
Mas eis que surpreendi a medicina. E estou aqui, com mais de quarenta e ainda pulsando. Em mim pululam estranhas sensações.

Hoje, caro leitor, acordei a flor da pele. E se tivesse uma bomba talvez eu mesma a vestisse, como esses homens que fazem bum!
E Bam! Bam! Plaft! Seriam subsolos escavados por milênios jogados por todos os lados, como um big bang. Mas devo dizer também.
Toda esta consciência da Vida, toda esta lucidez absurda que me ultrapassa me impede de consumar o ato.
Algo em mim, indecifrável, ainda grita por Vida...Como diria um amigo meu em uma carta há séculos atrás... a vitalidade de um gato!
Pois que seja! Então que tudo continue como está e vamos levando empurrando o destino com a pélvis.
*
Dias desses conversando com um amigo pela Internet percebi com uma clareza imensa que estamos nos tornando corpos virtuais.
Já não nos olhamos face to face. Já não nos cumprimentamos com vitalidade e prazer.
Já não nos sorrimos nem tampouco escancaramos o choro melodramático.
O corpo do outro é só uma imagem plasmada, cada vez mais definida em micro telas, pronta para correr o mundo e saciar quem estiver on-line.
Perdemos algo de palpável. E algo parece sinalizar que não tem volta.
Como seres virtuais nós nos alimentamos de imagens, de texturas fakes, de sorrisos enigmáticos, de outdoors, de estardalhaços e também de
crimes e crimes.
Nós contemporâneos temos tudo na mão, num passe de mágica podemos fazer surgir à lâmpada de Aladim e realizar todos os nossos desejos.
Mas ai que está a grande contradição.
Mesmo tendo toda esta parafernália na ponta de um mouse ou no fio magnético de um cartão de crédito nós consumistas de nós mesmos sentimos
a avidez e insatisfação borbulhar lá nos nossos cantos obscuros.
#
O Canto Obscuro é aquele buraco negro que nos fundou um dia. Imagine caro leitor que você impregnado de imagens, extremamente saciado, satisfeito da vida, arrotando salmão ou Velv Cliquot de repente olhasse pra fora de sua vitrine e visse uma criança chorando em um ônibus berrando que foi roubada.
Imagine que você saciado contemplasse separado por um vidro este menino de 8 anos aos berros, de chinelo de dedo e
quase desnudado e que percebesse nele todas as chagas impingidas pelos homens que como você o roubaram, o tripudiaram e o jogaram na sarjeta.

Haverá um momento que mesmo protegido por este vidro fume você poderá se perguntar a razão daquela pessoa, teoricamente tão humana quanto você, passar por todo aquele sofrimento. Isso assistimos todos os dias, seja protegidos pela nossa vitrine, seja por um noticiário em tela de plasma.
No entanto algo em nós por um instante se sensibiliza. Sim. Por algum motivo em um momento qualquer você sentirá piedade desta criatura.
Mas em seguida entra pelos seus olhos outra imagem contrastante. Pode ser até um anuncio do seu vinho favorito ou de sabão em pó ou de qualquer um desses produtos que supomos imprescindíveis. Pois bem. Em menos de um segundo aquele menino esquálido cheio de chagas irá sumir de sua vista.
E uma sensação boa o inundará. Pode ser que você tenha vontade de assaltar a geladeira e comer aquele bolo adocicado da Bauducco de Cenoura com Chocolate... Ou que você pense. Não! O que há? Não posso consertar o mundo.
E não estou também lhe recriminando meu caro leitor. Vamos combinar... Eu sou tão filho da puta quanto você que está lendo estas linhas.

Somos todos vampirinhos de alguma coisa até o dia em que tudo explodir e nada existir além desta existência medíocre a qual o HOMEM CONTEMPORÂNEO está condenado.
Mas então você dirá... Iradíssimo com as mãos nas cadeiras,...Já que estou jogando titica no ventilador... Aponte-me uma saída! Há! Há! Há! Eu vou lhe dizer...Talvez não haja por onde escapar. Porque estamos perto de 2012 e como disse um de meus amigos de outro mundo, a merda vai ficar mais rala ainda. Quer dizer! Se você está bem, vai ficar mal pelo que vai assistir e se você já está mal... Bueno... Que tal meditar?
#
Esta parabolazinha ridícula que acabei de explanar foi exatamente por não ter o que falar. Não me engano. Acho que estamos condenados a ultrapassar muito além das teses apocalípticas. Não acredito em nada disso que acabei de descrever. E sou contemporâneo por este motivo mesmo. Não quero respostas, não tenho respostas e acho que alguém dizer que as tem é motivo de suspeita. Portanto, se você conseguiu ler até agora todas estas baboseiras que escrevi é porque em algum lugar existe em você um pouco desta minha lucidez exacerbada que dói nas vísceras. Se você não conseguiu é porque o incomodei com minhas idiotices. Se você leu a sério o que eu escrevi deve estar com algum problema psíquico sério. (Pelo menos aqueles que a moderna trans psicanálise acha que consegue dar nome)
#
Mas continuemos...A tela fria do PC como disse é nosso ponto cego. Ela desvenda o mundo para nós. What a Wonderfull World !
Se algum idiota que leu este blog aqui achar que estou protestando contra a tecnologia... Tá enganado... eu só to tecendo alguns comentários caóticos venenosos e adocicados para desopilar o fígado. Só isso. Portanto... continuo em breve...
Aguardem... O Renascimento do Homem Pós Pois...
Escrito por MARCOS MAZZARO às 23h59
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]
|