Tributo ao Subsolo
Parte II
O Vazio do Pós Pois...

Desde a infância eu implicava com a palavra o prefixo Pós. Bueno...
Já era um cara por natureza ranzinza, mas se me insinuassem algo pós alguma coisa ficava bem amuado.
Pense bem. Não tem nada mais incômodo do que um pós-almoço.
Saciados queremos mais é dormir, descansar e que ninguém nos encha o saquinho.
Pós-brincadeira, então... Nossa!
Fica aquela vontade de repetir, de novamente derrubar o adversário no mato e sentir o poder exalando no suor escorrendo, fundindo,
dominando e dizendo... Você está morto, eu venci!

Logo após o jogo vem sempre o vazio. Derrotado ou vencedor, o jogador na roleta sente o chão se abrir quando vem o resultado final.
Só lhe resta jogar novamente, pra perder ou pra ganhar. Pois o que importa é o gozo do resultado.
E não aquela sensação mórbida que o invade após o giro da roda da sorte.

O Pós é uma merda mesmo. Mesmo que a foda tenha sido maravilhosa. O Pós sempre deixa um gosto de quero mais.
Na verdade quando algo é muito bom à gente quer repetir, né não? Até quando algo é muito ruim o pós consegue se superar.
Quer algo mais chato que uma pós cirurgia? A maldita recuperação leva tempo. O Pós não tem anestesia pra segurar a onda.
Então baby... Resta relaxar e gozar na dor. Dependendo da área operada vai provocar choros convulsivos durante alguns dias.
Mas nem sei porque digo tais idiotices. Ah Sim! Tava falando do homem pós pois.
Esse serzinho contemporâneo que se compraz de se enfiar na merda todos os dias. Pois pós eu afirmo.
Citando o genial David Lynch...
Este é um mundo estranho...That I Was Crying Over You....
Mergulho no universo da Cidade dos Sonhos e me preencho de melancolia quando lembro das duas atrizes
naquele teatro decadente e da música que não cessa mesmo quando a cantora cai e é carregada.
Aquele microfone solitário com o som tocando ao fundo é a perfeita imagem do que sentimos neste mundo absurdo bombardeado...Sempre.

Não dá pra deixar de pensar no velho Freud, um homem do subsolo sem dúvida.
Ele elaborou dentro da psicanálise uma espécie de comportamento pós. O homem secundário...
Aquele que tem uma estrutura psíquica que sente e reage sempre no momento pós.
Ele guarda para si o seu tesouro, a sua dor e suas alegrias mais marcantes.
Só consegue expressar as sensações tempos depois. O homem pós é um ruminante por natureza.
E por isto até seja um bicho mais interessante neste mundo imediato que nos oferece o gozo instantâneo e rápido.

Tenho sensações esquisitas todos os dias e de segundo em segundo mudo de humor. Observo tudo à distância.
E na hora de agir calculo cada passo dado. Geralmente me fodo. Ou fodo os outros. Vamos parar de moralismos?
Dois palavrões em uma frase não são dignos de um homem que tem o seu vocabulário!
Ouvi tal pérola dia desses quando aos berros mandei um gerente literalmente tomar no cu um cem número de vezes seguidas.
Acho que ele gostou da idéia porque depois se plantou na porta do meu prédio.
Mirava a janela, implorando para que eu cumprisse minhas palavras.
Como o pós é sempre medíocre permiti que ele sentisse meu corpo adentrar o seu vazio para mais uma vez humilhá-lo.
Mas me frustrei. Encontrei mais uma vez alguém que se compraz na própria derrota.
Esta talvez seja a maior dor de um homem lúcido. Ele prevê as reações alheias. Tudo vira um exercício de tédio.
E a gente descobre que até o triunfo deixa o Vazio.

Na verdade, o vácuo é a chave da questão. Ele provoca vertigens e no fundo, no fundo,
lá no fundo do subsolo, tenho que me segurar para não pular e mergulhar como criança deslumbrada.
Quando olho para o abismo sinto num mesmo instante vergonha e êxtase.
O X da questão é que todas as sensações humanas brotam juntas quando realmente...Vivemos.

Neste mundo pós alguma coisa não há tempo para decupar ou assimilar a imensidão delas.
Mesmo que fosse o melhor editor de imagens sempre teria a sensação de estar deixando algo fundamental de fora.
(Assim, um dia um colega descreveu seu trabalho criativo. Assim ouvi de diretores de teatro, de atores, de diretores de imagens em televisão.
Há sempre a insaciedade latente pronta pra me abocanhar no próximo passo, na encolha, no silêncio último que faço antes de dormir).
Talvez a Arte...Não esta que está nas prateleiras...Mas Aquela que reinando na transgressão produz estranhamento contínuo
E me renova no corpo e na língua.
Ela que me acorda todos os dias e me cutuca com um alfinete no peito e me joga contra a parede.E me instiga.
Só Ela poderá me Salvar.
Ela_ muitas_ desdobrada, paradoxal, de mil faces.
Ela: visual, escrita, trans muita coisa, pós algumas coisas, multimídia talvez, pobre, desdentada e também corrigida pelo Photoshop.
Elas geram neste mundo Pós pois um redemoinho saudável, vital, que me joga no Acaso.

Hoje visitei com crueldade a mim mesmo e todos os meus atos.
Hoje mergulhei em cada sensação pós e senti que me afogava por não ter ar.
Hoje vislumbrei por um segundo o rastro da eternidade.
Mas ele fugiu e tive que aceitar a monotonia dos tempos, dos tic tacs e dos alarmes que nunca vão parar de tocar.
Hoje visitei um dos níveis do meu subsolo e lá, em algum lugar,
tudo o que mais desejava era que alguém me provasse que todas as minhas teses
sobre o ser humano e sua pequenez estavam equivocadas.
Mas quanto mais eu conheço os Homens...Mais eu amo os Animais.

Ou o que ainda há de Animal... No Homem Pós...
Escrito por MARCOS MAZZARO às 09h50
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