PECADOS CAPITAISCrônica para um Dia de Fúria
Texto: Marcos MazzaroHá dias que já se anunciam assim: absolutamente furiosos e vorazes. E fica difícil explicar para uma irmã de caridade, ou para qualquer figura boazinha o significado e a intensidade de momentos como esse. Parece que o mundo tá cutucando você com varinha curta. Como no filme do mesmo nome no qual as situações do cotidiano vão intensificando a raiva do protagonista a um ponto tal que ele perde completamente a razão. Na verdade, é algo que ultrapassa a vontade. Tem gente que vai explicar este surto explosivo através das efemérides astrológicas. Um eclipse ou uma conjunção entre os planetas Marte e Plutão fazem muitos estragos. 
A Fúria ou Raiva ou Ira totalmente enquadrada e catalogada como um dos sete pecados capitais nasce no âmago de todos. Ela é base de muitas emoções intensas. Por trás dela se escondem o medo, a tristeza e até mesmo o Amor. Uma vez ouvi de uma amiga budista que quanto mais raiva, mais potencialmente estamos capacitados para Amar. Tem sua lógica. O que não quer dizer que dar vazão às Fúrias, aquelas deusas punitivas bebedoras de sangue do Panteon grego, seja uma boa solução. A Raiva pode produzir transformações. Mas você necessita dialogar com ela. Amansar o Tiranossauro Rex para que ele não engula você. Quem já observou um gato furioso sabe do que estou falando. No auge da ira ele é capaz de voar no seu pescocinho e beber seu sangue. Mas dê para ele uma tigela de leite. Vá com calma. Você terá o mais manso e fiel dos animais. Conheço amigos furiosos que quebram objetos quando estão atacados, outros que partem pra briga, outros que vão para academia de musculação e malham até desmaiar, outros que comem até a exaustão, outros ainda que só descontam a fúria potencial à noite em ataques de bruxismo. 

Não! Não Tô defendendo, nem condenando a dita cuja. Ela é! Pode ser que num momento desses acabemos provocando mais desastres do que imaginaríamos... Ou através dela abrimos as portas do Paraíso. Quem nunca engrenou uma trepada memorável após uma discussão com o namorado atire a primeira pedra. 
Nosso vulcãozinho é um vil cãozinho que tem sede de ser acariciado. Mas pra isso é preciso deixar as sensações intensas fluírem. Não adianta reprimir o Dragão. Quando assim agimos, através da culpa, principalmente, adoecemos. Porque é neste caudal de emoções que nos fundamos e nos tornamos capazes de dialogar com a Vida. Uma idéia boa é homenagear a Raiva com arte. Como dizia o velho Goethe: quando escrevemos uma poesia sobre a paixão que nos move ela já se suaviza, encontra o seu lugar no mundo, no nosso mundo. 
Somos um poço de contradições maravilhosas! Que o diga Madonna e seu menino Jesus. Conheço muitos que cortaram os pulsos, que tiveram ataques de fúria inconformados com a súbita ascensão do moleque brasileiro. Mas isso é assunto para uma outra crônica.
Escrito por MARCOS MAZZARO às 13h00
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