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DIÁRIO DE UM ESCRITOR
 

A Queda

Parte 3

Você entende Marta? Ontem o diretor geral da emissora me pressionou o tempo todo.

Meteu na cabeça que eu tenho que enfiar os sete pecados capitais na série sobre os anjos.

 

Tudo tem uma explicação lógica meu lindinho! Tudo!

Ele deve ter muitos motivos para pressionar você...A propósito!

O Miguel também ligou! Estava eufórico!

 

Eu não agüento mais! Primeiro A Ira dos Anjos...

Agora a emissora já está anunciando... A Inveja dos Anjos!

E para a terceira temporada ele quer que eu enfoque a gula...

É ridículo! Pior que do jeito que a história pegou ele vai querer levar ao ar os sete pecados capitais

usando os mesmos personagens. Duvida?

 

De repente a palavra mágica, o nome que encanta.

O anjo dos anjos me acordou. Miguel estava retornando.

Eu sabia. Aquela briga aconteceu só por causa da

sua impulsividade que me enche de tesão.

Meu Deus! Todo mundo sabe.

Porque ela finge que não ta nem ai?

 

O que você disse querido?

 

Nada. Ele estava eufórico com o que?

 

Ah...Aquela bolsa de estudos em Madri...Saiu. Não é maravilhoso?

Acho que ele viaja semana que vem.

 

Não. Impossível. Eu cheguei a ligar para o reitor contando sobre todos os podres dele...

Quer dizer...Eu exagerei bastante para que ele não conseguisse aquela maldita bolsa.

Não... Miguel...Você não pode... Você não vai!

 

Bolsa de Estudos é?

 

Ele não comentou com você? Vamos combinar né? O Miguel é tão distraído.

Eu suspeito que ele tenha DDA.

 

DD o que?

 

DDA Ivan! Distúrbio de Déficit de Atenção...

O novo nome que inventaram para os distraídos de plantão.

Essas pessoas que vivem no mundo da lua como você... o Miguel!

 

Ele não vai para Madri! Que idéia! Assim que terminar esta temporada eu peço férias, a gente viaja...

Mando esta chata da Marta embora. Todo mundo buzina no ouvido dela, eu mesmo...

Já disse com todas as letras. Mas merda! Às vezes eu não resisto ao cheiro da boceta.

De verdade eu não consigo resistir a nada. Nem a ela, nem ao Miguel, nem a quem se postar na minha frente nu.

O mal está ai! Eu não consigo dizer não a qualquer criatura bonitinha que se insinue pra mim.

E isso se agravou depois que fiquei famoso. Eu não consigo dizer não! Dia desses foi com o entregador de pizza.

Magrelo do jeito que eu gosto. Ele chegou já se insinuando. Pediu um copo de água.

Tirou a jaqueta reclamando do calor. Só me restou cair de boca e me lambuzar.

 

Eu preciso ficar sozinho Marta! Vai dar uma volta...Compra uma pizza!

 

Pizza de novo? Você não pediu ontem?

 

É verdade. Mas vai dar uma voltinha...

Preciso ficar absolutamente sozinho entende?

Tenho que escrever o último capítulo de A Inveja dos Anjos.

 

A Ira dos Anjos querido!

 

Hoje eu não estou bem.

Pensar que na segunda temporada vão ser mais 20 capítulos.

 

É normal querido! É lógico! Você já está pensando na próxima temporada.

Vai ser um sucesso absoluto. Tudo bem! Vou visitar uma amiga...

Trago algo bem gostoso pra você. Vai sentir fome quando acabar de escrever. Eu sei. Conheço você como a palma da minha mão.

 

Enfim sozinho. Posso agora folhear o jornal. Olhar minhas anotações.

Ligar o laptop e logo fica pronto o ultimo capítulo desta merda de minissérie.

Às vezes eu me pergunto como uma pessoa tão desequilibrada consegue escrever.

Notícia absurda. A metereologia avisa da chegada de um ciclone extra-tropical ao Rio de Janeiro.

Agora temos esta novidade. Ciclones, tufões. Não era aqui no Brasil que estas pragas não aconteciam?

Eu tenho que ligar para o Miguel. Não foi o que a gente combinou.

Iríamos para Madri depois que o contrato com a emissora terminasse.

Celular desligado. Deve estar pegando um daqueles seus colegas  gostosinhos na Universidade.

Ele é como eu. Por isto gosto tanto. Ele não consegue dizer não.

 

(Continua)

 



Escrito por MARCOS MAZZARO às 01h20
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A Queda

Parte 2

 

Quando Ivan Capella acordou estava deitado em uma cama confortável, em um quarto de hospital, muito, muito confortável. Ao seu redor uma loura toda de branco trocava o seu soro e no canto,

sentado em uma cadeira, um homem de terno, gravata, mas extremamente carismático

fumava um charuto havaiano.

Ambos absolutamente desconhecidos.

 

O que aconteceu?

 

O senhor caiu do décimo andar de seu apartamento.

No meio daquele grande temporal que assolou a cidade há uma semana atrás...Aliás,... Vamos combinar!

Nunca vi um temporal daqueles.

 

Nem eu!

 

O mais estranho e é este o motivo do senhor estar aqui...

É que apesar de despencar do décimo primeiro andar em um edifício da Vieira Souto

o senhor não sofreu nenhum arranhão.

 

Despencar?

 

É... O senhor estava na janela. De repente!

Seu corpo caiu igual a um saco de batatas.

 

A senhora deve estar zombando de mim!

 

É mais fácil que o senhor esteja... Aliás,...Me chame de Marta.

 

Marta?

 

Sim senhor Ivan! Sou a supervisora geral nestes casos bizarros...

 

O que há de bizarro? Eu caí e pronto!

 

É o que o senhor diz. Gostei muito de seu ultimo livro. A Ira dos Anjos.

 

Obrigado!

 

E aquele senhor encostado fumando o charuto?

 

É o diretor geral. Só fala quando necessário.

 

Sei...

 

Não. O senhor não sabe.

Se soubesse não estaria aqui! Sua família já foi avisada, sua mulher, seus filhos, até o seu amante!

 

Como?

 

É...A notícia de sua morte já se espalhou pela cidade.

 

O senhor sempre teve uma vida... Digamos...Incomum!

Pronto! Seu soro já está regulado. Pressão normal.

Batimentos cardíacos espantosamente bons. Nenhum arranhão... Pode descansar!

 

Minha morte? Nunca me senti tão vivo!

 

Mas de fato! Este é o mistério! O senhor não morreu.

Mas a Comissão achou melhor dá-lo como morto, entende? Depois se for possível nós o ressuscitaremos

 

Não. Não entendo.

 

Um dia talvez o senhor entenda... A propósito... Vou deixá-lo com o diretor geral. Boa noite Ivan!

 

Ela apagou a luz. Da cama Ivan só conseguia ver a brasa do charuto daquele homem robusto

de quase dois metros que parecia não tirar os olhos dele. Mas aos poucos até aquela imagem parecia sumir...

Uma sonolência brutal tomava todo o seu corpo...

Para além daquela brasa queimando e da fumaça...

Além...Da ampla janela ele via um belo jovem encostado sorrindo e que parecia querer dizer algo.

Apesar de grogue Ivan notava nitidamente.

Ele mexia os lábios carnudos e falava palavras que ele não conseguia compreender.



Escrito por MARCOS MAZZARO às 23h56
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A Queda _ UM Conto Surreal Absurdo

Texto: Marcos Mazzaro

 

Não sei Nada Sei. E tenho desconfiança de quem sabe demais.

Sinto que algo vem me corroendo e ao mesmo tempo me regenerando.

Hoje acordei com ânsia de tremores.E de repente o silêncio mortal.

Na cidade do sol as nuvens abafaram o tempo.

E a sensação térmica aumentou de repente.

É bom também sentir o Inferno e sua temperatura escaldante.

Nestes dias temerários... Nos quais flanar pela cidade me faz perder os sentidos. N

estes dias intensos...Nos quais perder a cabeça e cobiçar o próximo se torna só mais um entreato,

um exercício para o bem viver...Nestes dias... A chuva caiu impiedosa. Mas só eu sabia...

Porque ela inundava as asas deles que planavam sobre o Rio de Janeiro.

E de repente, num impulso absolutamente fora de todas as leis físicas eles caíram.

Tocaram a terra com os pés e sentiram a dor do choque de seus corpos com o que é denso e concreto. 

Sentiram mais ainda. Porque as asas encharcadas de chuva ácida causavam uma coceira dos demônios.

 

Onde Estou? Quem Sou Eu? O Cruel Destino Daquele que Não Pode ser sem Não Ser.

Que só pode se encontrar se a si mesmo perder...

 

E esta legião de anjos com as asas pingando,

desnudados pela transparência de suas roupas molhadas,

se viram de repente diante do Morro Dois Irmãos.

E sentiram por um instante cada raio que despencava no mar.

De repente a cidade parou. Do Cachambi à Barra da Tijuca, passando por Botafogo e Copacabana.

Era um cair de água como nunca se havia visto.

Mas a água era tanta, tanta...Que ninguém se dignava a ir para a janela.

Ou nem poderiam imaginar sair dos carros engarrafados, alguns arrastados pela enxurrada.  

Eu conseguia vê-los da janela de meu apartamento, na Vieira Souto.

Eram centenas deles. Das mais diversas etnias, se é que podemos falar em etnias angelicais, dos mais diversos estilos, se é que podemos supor para eles um tom, um estilo.

A muvuca entre eles e o aborrecimento com a situação também era visível.

A chuva os incomodava mais na medida que fazia com que se curvassem

por causa do peso das asas que ia aumentando devido ao volume de água.

Eles na verdade pareciam inquietos. Buscavam um sentido para aquela queda brusca.

Nunca acontecera antes em toda história universal. Uma queda, digamos, tão coletiva, tão expressiva.

Era uma Legião deles. Das mais diversas hierarquias.

 

E ali assustados eles até pareciam humanos.

Por um momento tive vontade de descer, conversar com tais criaturas.

Saber afinal o que estavam fazendo ali e porque aterrissaram justamente num tempo e lugar

tão impróprios.

Mas tinha que esperar pelo menos a tempestade passar para poder fazer contato.

Mas dali da minha janela admirando a beleza surreal que se desvelava eu tinha uma dúvida...

Não sei se invejo os Anjos.

( Continua)



Escrito por MARCOS MAZZARO às 19h54
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