A Queda Parte5 A Carta de Marta (continuação) 
Como você se organizaria? Como cumpriria os prazos? Como você escreveria suas minisséries sem a minha ajuda? Em algum lugar de você mesmo a verdade deve aparecer. Eu construí parte do que você é. Um pouco como em Cyrano de Bergerac... Na ilusão de te conquistar. Eu transformava os seus conteúdos brutos em campeões de audiência. .Eu me expressava através de você. Quantas noites eu não entrava madrugada adentro porque você simplesmente se abstraia de suas responsabilidades. Você também nunca teve noção de seus limites. Prometia entregar os capítulos em prazos irreais. Você nunca soube...Um dia liguei para o diretor geral e fazendo o papel da mulherzinha, fazendo o gênero frívola, debilóide, expliquei que seus furos eram digamos coisa de artista, de cabeças geniais...Essa bobagem toda. Sabe Ivan... Me fingir de idiota, de louca, de alienada, foi a saída que encontrei durante os muitos anos de nosso relacionamento. Desta maneira doía menos. Logo depois que voltamos ao Brasil, após o nascimento da Yara...Eu comecei a sentir que havia algo errado comigo. Não havia explicação para tanta submissão, para que eu me anulasse tanto. Procurei ajuda em um terapeuta. Talvez este tenha sido o primeiro passo para que aos poucos eu fosse tomando consciência do que estava acontecendo comigo. Eu me tornei um capacho, uma coisinha desprezível e pior! Eu gozava com isso! Um pouco depois eu adoeci e fui passar uma temporada na casa de meus pais. Levei as crianças. Liguei para o diretor geral e inventei que você estava com uma estafa. Você também nunca se perguntou porque eu insisti tanto para que você me entregasse uma procuração para te representar junto da emissora. Eu assinei e cancelei alguns de seus contratos. O que mais me deixava intrigada era sua despreocupação total sobre esses assuntos. Realmente, se eu não estivesse ao seu lado sua carreira não duraria um verão! Mas agora... Com um pouco de lucidez posso notar que fazia também pelas crianças. Eu temia uma queda bruta nos nossos rendimentos. Você nunca soube lidar com grana. Poderia ganhar 20, 30 mil reais...Viveria sempre duro e endividado.
 Mas é isto meu caro! Você não pode imaginar o prazer que sinto quando escrevo estas linhas finais. Você não pode imaginar o quanto me senti viva quando me fiz de idiota e comentei como quem não quer nada o telefonema de Miguel. O seu anjo voará para longe meu amor...Sabe...Ele não suporta mais você e esta sua obsessão por corpos, esse seu jeito de garotão apesar de seus quase 50 anos. Eu fiz questão de dizer pra você... Como também fiz questão de ter uma ultima conversa com ele antes de partir. Contei inclusive o telefonema que você deu para o Reitor em Madri. Acho que ele não gostou de saber a verdade. Acho também que ele não gostou nem um pouco de saber que eu estava a par de todas as suas atitudes estabanadas. 
Miguel é um menino bonito. E bom de cama! Olha...Me surpreendeu! E tem nos seus vinte e poucos anos uma dignidade angelical. Ele é diferente! Só para que você fique ciente...O Reitor da Universidade em Madri já sabe que tudo o que você falou é a mais absurda mentira. Basta olhar o currículo do rapaz, basta olhar suas relações políticas, seu idealismo, seus amigos. Eu poderia até dizer pra você o seguinte...Miguel foi para você uma segunda chance de olhar o mundo diferente. Mas você também mais uma vez perdeu o bonde da sua história...Quando passará o próximo meu lindinho?O mais espantoso para mim ainda é pensar ou imaginar que você, Ivan, é incapaz de sequer enxergar esta realidade. Real-Idade. Real Tempo das Coisas. Há uma semana eu convidei seu anjo para tomar um uísque comigo. Ele não bebe, você sabe. Mas não resistiu e me comeu ali no nosso quarto. Talvez porque ele estivesse com muita raiva depois que soube sobre seu telefonema tentando impedi-lo de ir, talvez por conta dos detalhes que eu contei sobre nossa vida e que despertaram nele uma espécie de compaixão e admiração pelo que já vivi com você. Talvez por puro tesão juvenil! O fato é que ele queridíssimo me possuiu com furor. Mas seu corpo transpirava suavidade, carinho... Sim...Meu querido, queridíssimo...Ele tem uma pegada (não é assim que se diz?) e enquanto eu fingia que sentia alguma coisa...Ele se desdobrava em carinhos. Quando tudo terminou ele teve um acesso de choro. Suas lágrimas convulsivas por um instante me comoveram...Estes anos todos de convivência contigo me anestesiaram tanto, me alienaram tanto de mim mesma. 
Eu acho que congelei. Agora aos poucos, com muito esforço, (você não é capaz de imaginar o quanto é difícil) sinto que um vento quente há de soprar e derreter todo o iceberg. O que vai sobrar? Nem sei.Mas já escrevi demais. Por um tempo não quero mais lidar com palavras. Adeus meu caro engodo.  (Continua)
Escrito por MARCOS MAZZARO às 10h30
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A Queda Parte 4
A Carta de Marta Querido: Talvez você só veja esta carta amanhã, daqui alguns dias, daqui cem anos. Você está tão voltado para si mesmo. Você não vê nada além deste seu umbigo. Estou indo. E levo também comigo Pedro e Yara. Provisoriamente estarei na casa de Andréia, a única pessoa que sabe da real situação, de tudo o que vivi contigo nos últimos anos. Talvez a única pessoa com a qual eu tive coragem de dizer todas minhas verdades, além do meu terapeuta. De fato, estou atendendo ao seu pedido repetitivo que acontece a tantos anos. Porque no fundo no fundo eu sempre soube que a nossa união era_ como poderia dizer? um tanto perigosa...na verdade..._ um pacto sinistro para mim e para você. 
Bem antes, quando juntos cursamos a universidade, nos nossos 20 anos. Eu acho que já sabia. Mas eu o admirava tanto. Tanto... Pelas suas idéias e rompantes que em algum espaço de mim mesma eu resolvi que deveria te ajudar. Não sei se você se recorda. De início tivemos um time de pessoas absolutamente contra ao nosso casamento. Minha família inclusive. Todos diziam...”Mas como? Ele não é gay? Ou bi? Ou um sei lá o que?” “Dia desse eu o vi em uma situação constrangedora. Acho que ele sofre de priapismo! Não consegue pensar em outra coisa senão sexo, sexo, sexo.” “Esse rapaz tem problemas minha filha, é maluco”, dizia meu pai. Uma colega de faculdade até comentou...”Ele nem é tão inteligente assim você é bem mais que ele”. Mal eles sabiam...A mais doente, a mais doida, a mais...Talvez seja eu. Será que era isso mesmo? Eu sempre me achei uma estranha para mim mesma. E quando nosso casamento aconteceu daquele jeito precipitado porque de repente eu estava grávida do Pedrinho eu pus na minha cabeça que faria tudo, absolutamente tudo para que ele desse certo. Já se vão 15 anos...A idade do nosso primeiro filho...Você já notou como ele se parece com você? Ele me preocupa...Muito...Depois veio a sua súbita contratação como colaborador na emissora. Era um sonho antigo seu. Você sempre tinha idéias geniais... Sinopses maravilhosas. O problema todo era que faltava estrutura. E foi a partir daí que fui me tornando sua sombra. Porque você esboçava os capítulos pela manhã e sumia a tarde. A emissora ligava pedindo os scripts. Você desaparecia! E eu me habituei a toda a tarde reescrever tudo e deixar tudo em ordem para o dia seguinte. Você sempre esteve tão alienado sobre tudo que acontecia a sua volta...Que raramente notava ou discutia as mudanças que às vezes eu fazia para dar mais coerência às suas tramas mirabolantes. Ainda bem que quando novamente engravidei... Ainda bem... Que foi o seu período de licença da emissora. Yara teve a sorte de nascer fora do Brasil... Enquanto eu acredito vivi (pelo menos aparentemente) um tempo mais calmo contigo. Era só fazer vista grossa para suas escapadelas ou para os garotos que você trazia para o jantar. Suspeitei que também comigo algo estava errado. Que não era natural aceitar com tanta resignação tantas situações humilhantes. No fundo, no fundo, eu deveria sentir algum prazer em ser seu capacho. Mas também sentia um outro prazer estranho porque eu TINHA CERTEZA ABSOLUTA QUE VOCÊ NÃO SOBREVEVIRIA SEM MIM. (continua)
Escrito por MARCOS MAZZARO às 10h23
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