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DIÁRIO DE UM ESCRITOR
 

Sinto na Pele, Logo Existo.

Texto: Marcos Mazzaro

O dia mal amanheceu. As névoas estão entrando pela minha janela. Sou íntimo delas, conheço suas texturas, a umidade,

o friozinho refrescante das gotículas de água delas.Elas contornam e moldam o corpo sonolento estendido na cama

Todas sensações me inebriam. Em algum lugar bem imaterial de mim mesmo parece que vou diluir. E multiplico meus focos.

Olho-me demais. Tenho muitos focos de luz úmidos. E todos me fascinam.  Sou quase um caleidoscópio imerso em sensações.

E o mais difícil é se apreender quando nos descobrimos múltiplos, diversificados. Mergulhados nesta diversão infinita de sensações físicas.

Deixo-me levar. Mas talvez ai esteja uma saída...Tenho fome de materialidade, de physis, de toque.

Viver é arrepiante: esquento, esfrio, congelo, pra depois na neve derretida renascer como um broto

pronto para novamente respirar e sorver o sol.

Olhar para os vaga-lumes era um dos meus passatempos prediletos quando era criança...

Eles piscavam na noite criando infinitos pontos de luz. E eu gostava na maioria das vezes de contemplá-los.

Olhar para aquelas lanterninhas vivas na terra me apontavam para as infinitas estrelas brilhantes lá no céu.

Mas os bichinhos de luz própria estavam aqui na Terra. Não é curioso?

Eles eram concretos. Eu poderia tocá-los se quisesse.

Quantas vezes, fascinado, eu os aprisionava por um instante só pra ter o prazer de vê-los piscar na palma da minha mão.

Vir do interior talvez tenha suas vantagens. A gente olha para os vaga-lumes e para as estrelas. A gente sente os animais de outro modo.

Galopamos nas costas de corcéis só pra sentir o perfume do vento... A Liberdade.

Tanto a luz da terra, quando a luz do Universo Estelar se apresenta pra nós de um modo intenso e visceral.

Aprendemos a pisar na terra molhada e tomar banho de chuva sem os pudores da cultura urbana

totalmente voltada para a construção de imagens perfeitas de photoshop.

Ter suas origens calcadas neste solo fértil onde brota o humus a todo instante me tornou de repente um sensorial incorrigível.

Mas tenho um pressentimento estranho para o futuro deste mundo imagético e virtual que nos domina.

Estamos tão rodeados de belezas e ídolos construídos. Falta neles sangue e cheiro.

Falta hálito e o perfume dos estábulos. Falta Vida!

Mas acredito, sim... Sou um homem de crenças incorrigíveis e com a mesma intensidade sinto na pele

que um dia toda esta virtualidade humana construída através de uma platônica visão do mundo

vai se desmanchar novamente na história humana. Há de demorar muito ainda...

Porque este movimento que nos arrebatou dos sentidos começou há quase três mil anos e ainda está em curso.

De lá pra cá viemos nos empenhando em cada vez mais em virtualizar a Vida.

Virtualizar atribuindo-lhes características nada palpáveis, nada humanas.

Um dia todo esse arsenal de idealizações construídas na velocidade da técnica vai desmoronar.

Um dia o programa construído, principalmente nestes dois últimos séculos, e mais ainda neste início de terceiro milênio

vai se esfacelar, virar farelo, terra, cinza. Neste dia... Talvez...

Não só possamos tocar os bichinhos de luz, hoje absolutamente raros.

Haveremos de transcender fazendo do corpo nossa obra-prima.



Escrito por MARCOS MAZZARO às 09h01
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