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DIÁRIO DE UM ESCRITOR
 

Cais

Texto Marcos Mazzaro 

 

Anoitecia. E enquanto observava o sol se por uma brisa leve e morna bafejou seu rosto.

Uma carícia do ar. Chovera a pouco e dava pra sentir o cheiro do asfalto

molhado após o dia insuportavelmente quente. O mar bate rebate bate rebate.

Dentro da gente tem um mar escondido que quando anoitece se torna ainda mais intenso.

Parece que de algum modo nos tornamos aquele ir e vir sem cessar das ondas.

E era isso que sentia quando olhava para, naquele fim de dia, o tímido

por de sol quase coberto pela névoa, em frente à praia de Ipanema.

Um ir e vir interno que não sossegava.

Mas pra que sossegar? Se o mar que bate dentro continuará também

seu incessante movimento independentemente de qualquer vontade.

Pra que querer deter o movimento da Vida que é mesmo

de idas, vindas e raras pausas.

Naquele instante por mais que não desejasse ele sentia o impacto da pausa.

Dali de Ipanema ele viu o transatlântico passar e apitar três vezes

longamente para anunciar que em breve estaria entrando na Baía de Guanabara.

Sempre que ouço o som de trens e navios anunciando sua chegada o coração estremece.

Parece que um tempo terminou e que outro se anuncia. É como a Morte.

Sentia meu coração acelerar e uma vontade imensa de correr para o porto e observar

cada um que de lá sairia. De onde viriam? O que trariam de tão longa jornada? Que cheiros exalariam?

Que experiências novas trariam estes novos passageiros que dali a instantes desembarcariam na Cidade Maravilhosa?

Sentiu uma vontade imensa de pegar um táxi e dirigir-se ao porto para ver

o desembarque daquele povo desconhecido.

A noite já tinha caído e o calçadão naquele domingo estava deserto.

Carioca detesta dias chuvosos e nublados.

O taxista olhou espantado para aquela figura úmida que lhe exigia: “Para o porto do Rio... Voando!”

Pedido fácil de atender. Na cidade vazia o carro deslizava como uma aeronave em meio às nuvens.

Quando sinto o vento bater forte no rosto me lembro de um tempo de inocência. 

Nele eu cavalgava corcéis e deitava com os Ventos...

Em menos de vinte minutos estava no Cais. E o navio acabara de chegar.

Ainda não havia liberado a turba de passageiros que parecia inquieta e impaciente.

Ali fazia frio. Ou era a alma saindo pela boca congelada de medo do novo que estava por vir?

No horizonte enquanto a multidão aportava a lua cheia grávida se exibia no horizonte...

Para quem quer se soltar em vento cais, em vento mais que a solidão me dá,

em vento lua nova a clarear, em vento amor, e sei a dor, de encontrar...

Eu queria ser feliz em vento mar invento em mim o sonhador.

Para quem quer me seguir. Eu quero mais. Tenho o caminho do que sempre quis.

E um saveiro pronto pra partir. Em vento paz, e sei a vez de me lançar...

 



Escrito por MARCOS MAZZARO às 20h39
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