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DIÁRIO DE UM ESCRITOR
 

Viver é Muito Muito Muito Perigoso

Texto: Marcos Mazzaro

 

Bate o vento fresco da noite. Mas ao invés de aliviar a baforada de ar parece que atiça ainda mais

a dor do corpo pesado pelo dia exaustivo. Nestas horas só resta escrever...

Quando dói ele tenta aliviar o incômodo colocando no papel suas mazelas.  

Mas não adianta muito. O peso ta lá. As recordações do dia ficam brincando na sua

cabeça já atônita pelo excesso de informações.  O sofrimento que brota... Em torno...

Hoje quando liguei a TV não pude fugir das catástrofes climáticas.

Por um momento pensei que todos estavam se acostumando com Tsunamis e Terremotos constantes...

Com desabamentos e telhados destruídos por chuva de granizo,

com imagens de gente desabrigada atravessando águas lamacentas...

Mas ele acreditava... Tinha no fundo esperança...  Deveria existir uma boa notícia no ar. Hummmm...

Ahhhhh Sim! A casa está um brinco...Branquinha...

E os gatos combinam mais do que nunca com a mobília reformulada.

Fazem arte nos armários, derrubam garrafas de cerveja no chão. Descobrem novos espaços.

Brincam com um arranhador novo, se inebriam com Nipcat a sensação do momento...

Um deles cheirou tanto... Tanto... Que saiu espirrando.

Prince às vezes tem o ar nobre dos franceses viciados em rapé...

Estica-se em cima do armário esperando a Vida passar ou atento ao bote de seu inimigo mortal.

Tinha que falar de banalidades. Sim... Mas não esquecerei o grandioso... O Teatro!

Talvez Don Juan Tenório possa salvá-lo.

Hoje o dia se desenhou em quadros expressionistas. Colocaram muitas tintas nubladas.

Tive vontade de mergulhar em um Oceano Azul. Mas tava tudo Cinza.

Tiros pipocaram de helicópteros vigilantes...E eu cheguei no exato momento da muvuca:

mães desesperadas tentando proteger seus filhos, correria geral...

Em um salve-se quem puder que beirava a selvageria. Quando nos vemos ameaçados viramos bichos.

Perdemos toda suposta humanidade.

Saímos disparados como uma manada de búfalos enfurecidos tentando salvar nossa pele.

Outra boa notícia! Depois de um dia exaustivo ele conseguiu finalmente com a ajuda

de um amigo colocar sua poltrona envenenada pra fora de seu apartamento.e também sacos e sacos de lixo.

A noite tinha acabado de cair e a lua meio cheia apontava entre os morros quando saiu para comprar cigarros.

Olhou para aquele imenso disco dourado e pensou num apetitoso queijo. Sentiu-se ridículo.

Mas estranhou quando notou que a poltrona que colocara na porta do condomínio para a

Comlurb recolher já não estava lá. Nem ela, nem o lixo, nem os colchões.

Afinal não comunicara a empresa sobre o lixo depositado na porta.

Caminhando um pouco mais, talvez uns quinhentos metros ele localizou

sua antiga mobília bem posicionada no meio da calçada.

Nela um mendigo vestido com um blaser fumava um charuto.  

O homem mais parecia um europeu, cabelos aloirados, a calça rasgada e um sorriso sarcástico desdentado.

Fingiu não ver... Afinal aquela figura mais parecia ter saído de um mundo absolutamente ficcional.

Aproximando-se mais notou que o homem de seus 40 e poucos anos

tinha também nas mãos um copo de vinho e parecia degustar a bebida com visível prazer.

Era um quadro interessante de observar. Até porque mais de perto ele viu

o homem da rua usando sua velha bota sem forros.  O velho se levantou da poltrona e foi para o meio da rua.

Gritava aos berros delirante em um recado direcionado:

“Seu moço, Viver é Muito Perigoso...”



Escrito por MARCOS MAZZARO às 23h36
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