O Cyber Embaçado Texto: Marcos Mazzaro

Foi de repente que ele descobriu que passava mais de um terço de sua vida em frente aos computadores. E que permanecia conectado, mesmo não estando perto da máquina. Já havia alguns anos que acontecia. De inicio começou com os bate papos, depois o MSN, depois o Skype. Depois tudo junto, mesclados a sites do mundo inteiro. Todos interligados... Pessoas absolutamente anônimas organizavam orgias virtuais pela câmera que nada desnudava...Tudo era só Imagem. 
Mas foi justamente no dia que se deu conta desta realidade nada concreta, de que estava absolutamente imerso no virtual, que se tornara uma interface, que seu corpo mesmo sem fios estava plenamente plugado em multidimensões que descobriu: a telinha dos computadores, notebooks e pagers de mão estavam todas embaçadas, embaralhadas. Ele olhava pras pessoas e não as via. Percebia mosaicos, texturas, fragmentos e comentários. Na verdade, era como se houvesse acontecido no seu corpo um Apagão. Sua pele, tão explorada, lugar de sensações, delícias e prazeres se tornou, com o passar da década, a extensão de um corpo obsoleto. No seu apartamento, de onde podia virtualmente desbravar todos novos e velhos mundos, corpos e conteúdos transparentes, belos, feios e escatológicos, sentia-se absolutamente fora do lugar. Sim... Aquelas sensações eram já inadequadas. Seu cheiro, seu gosto, o paladar, tudo que remetesse ao sentir era incompatível com aquele ambiente digamos um tanto extraterrestre. 
Tudo embaçado. Tudo mosaico. Tudo dói e tudo alegra...Por demais. Sou uma ausência projetada para interfacear com um mundo que ainda está por existir. Sou um projeto. Um devir. E os momentos de consciência só podem vir quando meu corpo funciona mal. A consciência é isto. A dor de saber que não consigo ser homem, mas que também não sou -maquina, que transito em espaços intermediários indeterminados e que ainda resiste em mim a consciência corporal que deseja SER, Ser e ser. Não são somente as telas que estão embaçadas: é o espaço que está saturado, comprimido, no instante de um tempo também sufocado pelo aqui e agora do consumo. São as ruas, ao mesmo tempo lotadas e vazias no trânsito congestionado. É a lentidão dos engarrafamentos preenchida pelo som de meu mp3 que faz com que eu não veja o meu tempo escapar num vôo abusado, na velocidade da luz. Cena Final: Uma velhinha tirou as tripas de um menino bonito que parou para perguntaras horas. Ela enfiou um estilete sem dó no moleque que estrebuchou dizendo uns palavrões antes de cair mortinho da silva, sem direito à vela na mão. Ta tudo embaçado. Mas se olhar de perto consigo ver... Mesmo que com Outros Olhos. Mas me deparo com... Estranhos... Apagaram-se as luzes e não há mais interno ou externo ou qualquer noção de corpo versus alma. A dualidade tão acalentada se esvaziou em algum momento do século passado. Perdeu o significado. Minha mãe, mamãe pela câmera, me recomenda que tome leite quente antes de dormir. A musica de Zeca Baleiro insiste, martela...Ela não desiste! Resiste! Preciso me redefinir para ter um corpo. 
...Ando tão a flor da pele qualquer beijo de novela me faz chorar... Ando tão a flor da pele, meu desejo se confunde com a vontade de não ser. Ando tão a flor da pele que a minha pele tem o fogo do Juízo Final...
Escrito por MARCOS MAZZARO às 23h42
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