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O Cyber Embaçado Texto: Marcos Mazzaro

Foi de repente que ele descobriu que passava mais de um terço de sua vida em frente aos computadores. E que permanecia conectado, mesmo não estando perto da máquina. Já havia alguns anos que acontecia. De inicio começou com os bate papos, depois o MSN, depois o Skype. Depois tudo junto, mesclados a sites do mundo inteiro. Todos interligados... Pessoas absolutamente anônimas organizavam orgias virtuais pela câmera que nada desnudava...Tudo era só Imagem. 
Mas foi justamente no dia que se deu conta desta realidade nada concreta, de que estava absolutamente imerso no virtual, que se tornara uma interface, que seu corpo mesmo sem fios estava plenamente plugado em multidimensões que descobriu: a telinha dos computadores, notebooks e pagers de mão estavam todas embaçadas, embaralhadas. Ele olhava pras pessoas e não as via. Percebia mosaicos, texturas, fragmentos e comentários. Na verdade, era como se houvesse acontecido no seu corpo um Apagão. Sua pele, tão explorada, lugar de sensações, delícias e prazeres se tornou, com o passar da década, a extensão de um corpo obsoleto. No seu apartamento, de onde podia virtualmente desbravar todos novos e velhos mundos, corpos e conteúdos transparentes, belos, feios e escatológicos, sentia-se absolutamente fora do lugar. Sim... Aquelas sensações eram já inadequadas. Seu cheiro, seu gosto, o paladar, tudo que remetesse ao sentir era incompatível com aquele ambiente digamos um tanto extraterrestre. 
Tudo embaçado. Tudo mosaico. Tudo dói e tudo alegra...Por demais. Sou uma ausência projetada para interfacear com um mundo que ainda está por existir. Sou um projeto. Um devir. E os momentos de consciência só podem vir quando meu corpo funciona mal. A consciência é isto. A dor de saber que não consigo ser homem, mas que também não sou -maquina, que transito em espaços intermediários indeterminados e que ainda resiste em mim a consciência corporal que deseja SER, Ser e ser. Não são somente as telas que estão embaçadas: é o espaço que está saturado, comprimido, no instante de um tempo também sufocado pelo aqui e agora do consumo. São as ruas, ao mesmo tempo lotadas e vazias no trânsito congestionado. É a lentidão dos engarrafamentos preenchida pelo som de meu mp3 que faz com que eu não veja o meu tempo escapar num vôo abusado, na velocidade da luz. Cena Final: Uma velhinha tirou as tripas de um menino bonito que parou para perguntaras horas. Ela enfiou um estilete sem dó no moleque que estrebuchou dizendo uns palavrões antes de cair mortinho da silva, sem direito à vela na mão. Ta tudo embaçado. Mas se olhar de perto consigo ver... Mesmo que com Outros Olhos. Mas me deparo com... Estranhos... Apagaram-se as luzes e não há mais interno ou externo ou qualquer noção de corpo versus alma. A dualidade tão acalentada se esvaziou em algum momento do século passado. Perdeu o significado. Minha mãe, mamãe pela câmera, me recomenda que tome leite quente antes de dormir. A musica de Zeca Baleiro insiste, martela...Ela não desiste! Resiste! Preciso me redefinir para ter um corpo. 
...Ando tão a flor da pele qualquer beijo de novela me faz chorar... Ando tão a flor da pele, meu desejo se confunde com a vontade de não ser. Ando tão a flor da pele que a minha pele tem o fogo do Juízo Final...
Escrito por MARCOS MAZZARO às 23h42
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Viver é Muito Muito Muito Perigoso Texto: Marcos Mazzaro  Bate o vento fresco da noite. Mas ao invés de aliviar a baforada de ar parece que atiça ainda mais a dor do corpo pesado pelo dia exaustivo. Nestas horas só resta escrever... Quando dói ele tenta aliviar o incômodo colocando no papel suas mazelas. Mas não adianta muito. O peso ta lá. As recordações do dia ficam brincando na sua cabeça já atônita pelo excesso de informações. O sofrimento que brota... Em torno... Hoje quando liguei a TV não pude fugir das catástrofes climáticas. Por um momento pensei que todos estavam se acostumando com Tsunamis e Terremotos constantes... Com desabamentos e telhados destruídos por chuva de granizo, com imagens de gente desabrigada atravessando águas lamacentas... Mas ele acreditava... Tinha no fundo esperança... Deveria existir uma boa notícia no ar. Hummmm... Ahhhhh Sim! A casa está um brinco...Branquinha... 
E os gatos combinam mais do que nunca com a mobília reformulada. Fazem arte nos armários, derrubam garrafas de cerveja no chão. Descobrem novos espaços. Brincam com um arranhador novo, se inebriam com Nipcat a sensação do momento... Um deles cheirou tanto... Tanto... Que saiu espirrando. Prince às vezes tem o ar nobre dos franceses viciados em rapé... Estica-se em cima do armário esperando a Vida passar ou atento ao bote de seu inimigo mortal. Tinha que falar de banalidades. Sim... Mas não esquecerei o grandioso... O Teatro! Talvez Don Juan Tenório possa salvá-lo. Hoje o dia se desenhou em quadros expressionistas. Colocaram muitas tintas nubladas. Tive vontade de mergulhar em um Oceano Azul. Mas tava tudo Cinza. Tiros pipocaram de helicópteros vigilantes...E eu cheguei no exato momento da muvuca: mães desesperadas tentando proteger seus filhos, correria geral... Em um salve-se quem puder que beirava a selvageria. Quando nos vemos ameaçados viramos bichos. Perdemos toda suposta humanidade. Saímos disparados como uma manada de búfalos enfurecidos tentando salvar nossa pele. 
Outra boa notícia! Depois de um dia exaustivo ele conseguiu finalmente com a ajuda de um amigo colocar sua poltrona envenenada pra fora de seu apartamento.e também sacos e sacos de lixo. A noite tinha acabado de cair e a lua meio cheia apontava entre os morros quando saiu para comprar cigarros. Olhou para aquele imenso disco dourado e pensou num apetitoso queijo. Sentiu-se ridículo. Mas estranhou quando notou que a poltrona que colocara na porta do condomínio para a Comlurb recolher já não estava lá. Nem ela, nem o lixo, nem os colchões. Afinal não comunicara a empresa sobre o lixo depositado na porta. Caminhando um pouco mais, talvez uns quinhentos metros ele localizou sua antiga mobília bem posicionada no meio da calçada. Nela um mendigo vestido com um blaser fumava um charuto. O homem mais parecia um europeu, cabelos aloirados, a calça rasgada e um sorriso sarcástico desdentado. Fingiu não ver... Afinal aquela figura mais parecia ter saído de um mundo absolutamente ficcional. Aproximando-se mais notou que o homem de seus 40 e poucos anos tinha também nas mãos um copo de vinho e parecia degustar a bebida com visível prazer. Era um quadro interessante de observar. Até porque mais de perto ele viu o homem da rua usando sua velha bota sem forros. O velho se levantou da poltrona e foi para o meio da rua. 
Gritava aos berros delirante em um recado direcionado: “Seu moço, Viver é Muito Perigoso...”
Escrito por MARCOS MAZZARO às 23h36
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Cuidado com Seus Sonhos...Porque Eles se Tornam Realidade.
Texto : Marcos Mazzaro Nesta semana pensei muito sobre como as coisas que mais desejamos (e que também mais tememos) acabam acontecendo. Noite dessas tive um sonho pesadelo. Imagens fortes da vida real se mesclavam a seres absurdamente bestiais. 
Uma verdadeira Odisséia pelas catacumbas da existência. E tive medo quando acordei. SENTI que o que falo e desejo... ACONTECE. Ficção e realidade muitas vezes se misturam. 
Talvez por este motivo as telenovelas nos instiguem tanto... Mesmo que às vezes não gostemos do estilo ou abordagem do autor. Eu tenho geralmente um pé atrás com o Manoel Carlos. Comentei até com um amigo meu que odiei o primeiro capítulo da novela Viver a Vida que estreou na semana passada. Mas sabe-se lá porque... Talvez o tédio...Ou uma pré-disposição para dar uma oportunidade justamente ao que detesto me fez acompanhar as duas semanas da novela. O fato é que aquele glamour todo, o casamento da Cinderela Helena, as imagens deslumbrantes de Búzios, o mundo da classe média alta brasileira, são cenas eternas de comerciais de margarina. Mesmo a maior desgraça ganha o tratamento “Leblon”. Mas vá lá! Me chamaram a atenção os depoimentos reais dados no final de cada “comercial de Doriana”. Ao mesmo tempo em que o procedimento me parece uma antidramaturgia a trama me seduziu. Em especial algumas cenas que prenunciam o que vem por ai... As pragas rogadas pela ex-esposa Tereza ao cinquentão Marcos me lembraram as antigas tragédias gregas, beirando Medeia e as mulheres fúrias que compõe o nosso imaginário. E não é só a esposa que manda o veredicto, mas também a filha inconformada do pai se unir a uma rival da passarela. Outra cena também me impressionou. O quase acidente de Luciana e seu comentário diante de um espelho que preferia morrer a ficar toda lesada por um acidente. E em seguida a fala do amigo que 
“não se deve falar nada diante do espelho porque ele um dia nos devolve em forma de acontecimento”. Todos estão carecas de saber que está prevista a virada na trama com a personagem vivida por Aline Moraes. Luciana vai sim sofrer um acidente e terá que repensar seus valores. O próprio autor nos avisa que falará de situações nos quais as personagens vão aprender a superar as dificuldades...Aprendendo Viver a Vida. Mas a questão é... Saberemos superar a armadilha de nossos sonhos (e pesadelos) e Viver o que a Existência nos oferece buscando realmente a nossa felicidade e também a do Outro?
Escrito por MARCOS MAZZARO às 12h31
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CRONICA QUASE ZEN...( BASTA UMA TIGELA DE ARROZ) Texto Marcos Mazzaro  Hoje eu dormi toda a tarde como um bebê recém nascido... Dormi muito. Estava flor estava pele. E sentia o corpo embalado pelo Oceano de uma Pré-infância... Antes da minha existência. Hoje, Setembro Amanheceu nublado e as gotas de orvalho demoraram-se a evaporar. De alguma maneira contemplativo meus ouvidos se embalaram bem Cedinho ao som de Debussy. Não há tempo lugar certo pra se jogar. Há que sentir e deixar cada fragrância invadir a pele. Ou se lançar e flertar com O Caos do mundo.Quando acordei ele estava ao meu lado. A pele fresca, E os cabelos encaracolados, selvagens, os olhos levemente oblíquos com As marés de Capitu. Basta uma tigela de Arroz! ?
Sim. Basta uma tigela de arroz....Imagine que você tem na sua frente uma tigela de arroz, fumegante, apetitosa. E você a devora com a gula de quem realmente gosta de arroz! Mas sinta... Ela está por demais gostosa... Todos os seus sentidos se exaltam de felicidade. Então de repente você percebe todo o processo que se desenrolou... Até aquele arroz chegar até sua mesa. Alguém ensacou aquele arroz. E antes, um pouco antes pilou, tirou sua casca, deixou-o no ponto para que ele ficasse com esta aparência que você antes de comer tanto admira. Antes ainda... Muitas pessoas provavelmente prepararam a terra...Plantaram, colheram, armazenaram... Enfim... Para que este arroz fosse degustado por você com tanto prazer, muitos trabalharam... Sofreram... Suaram...Disponibilizaram tempo e energia pra que você tivesse esse momento de felicidade... Sim... Mas... E daí? Não percebe? Esse instante feliz está intimamente vinculado a eventos anteriores... Não necessariamente felizes... Não necessariamente prazerosos... Você seria capaz de imaginar como seria se todos que estavam envolvidos estivessem transbordando de prazer no que faziam? Percebendo o quanto meu raciocínio estava lento ele tocou com suas mãos o meu corpo. Parecia conhecê-lo profundamente. Arrepiava-me sua saliva, o beijo, sua umidade. A felicidade brotava no corpo que cachoeirava cascatas. Não era só o prazer físico que inebriava. Era toda uma Ancestralidade que tudo religava, um ritual profano e sagrado ali se desenvolvia na intimidade daquele quarto com cheiro de incenso. Então...Por um instante pensei: Sim... E se todos que trouxeram você até mim também sentissem parte desta alegria? E se todos aqueles que trabalharam arduamente e sofreram e suaram e...para aquela tigela de arroz estar ali... Sentissem por um momento que o Paraíso é aqui e agora e está dentro de nós? 
There is a somebody I m longing to see I hope that she turns out to be Someone who watch over me...
Escrito por MARCOS MAZZARO às 22h00
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Cais Texto Marcos Mazzaro
Anoitecia. E enquanto observava o sol se por uma brisa leve e morna bafejou seu rosto. Uma carícia do ar. Chovera a pouco e dava pra sentir o cheiro do asfalto molhado após o dia insuportavelmente quente. O mar bate rebate bate rebate. Dentro da gente tem um mar escondido que quando anoitece se torna ainda mais intenso. Parece que de algum modo nos tornamos aquele ir e vir sem cessar das ondas. E era isso que sentia quando olhava para, naquele fim de dia, o tímido por de sol quase coberto pela névoa, em frente à praia de Ipanema. Um ir e vir interno que não sossegava. Mas pra que sossegar? Se o mar que bate dentro continuará também seu incessante movimento independentemente de qualquer vontade. Pra que querer deter o movimento da Vida que é mesmo de idas, vindas e raras pausas. Naquele instante por mais que não desejasse ele sentia o impacto da pausa. Dali de Ipanema ele viu o transatlântico passar e apitar três vezes longamente para anunciar que em breve estaria entrando na Baía de Guanabara. Sempre que ouço o som de trens e navios anunciando sua chegada o coração estremece. Parece que um tempo terminou e que outro se anuncia. É como a Morte. Sentia meu coração acelerar e uma vontade imensa de correr para o porto e observar cada um que de lá sairia. De onde viriam? O que trariam de tão longa jornada? Que cheiros exalariam? Que experiências novas trariam estes novos passageiros que dali a instantes desembarcariam na Cidade Maravilhosa? Sentiu uma vontade imensa de pegar um táxi e dirigir-se ao porto para ver o desembarque daquele povo desconhecido. A noite já tinha caído e o calçadão naquele domingo estava deserto. Carioca detesta dias chuvosos e nublados. O taxista olhou espantado para aquela figura úmida que lhe exigia: “Para o porto do Rio... Voando!” Pedido fácil de atender. Na cidade vazia o carro deslizava como uma aeronave em meio às nuvens. Quando sinto o vento bater forte no rosto me lembro de um tempo de inocência. Nele eu cavalgava corcéis e deitava com os Ventos... Em menos de vinte minutos estava no Cais. E o navio acabara de chegar. 
Ainda não havia liberado a turba de passageiros que parecia inquieta e impaciente. Ali fazia frio. Ou era a alma saindo pela boca congelada de medo do novo que estava por vir? No horizonte enquanto a multidão aportava a lua cheia grávida se exibia no horizonte...
Para quem quer se soltar em vento cais, em vento mais que a solidão me dá, em vento lua nova a clarear, em vento amor, e sei a dor, de encontrar... Eu queria ser feliz em vento mar invento em mim o sonhador. Para quem quer me seguir. Eu quero mais. Tenho o caminho do que sempre quis. E um saveiro pronto pra partir. Em vento paz, e sei a vez de me lançar...
Escrito por MARCOS MAZZARO às 20h39
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As Manhãs De Setembro Texto: Marcos Mazzaro  Estão chegando as manhãs de setembro. O céu ta azulzinho. E o ar nem frio nem quente tempera os corpos. Amanhecer é bom. Particularmente quando durante a noite anterior anjos e deuses dormiram com ele realizando desejos. Eram por volta das seis quando espreguiçou acordado por seus felinos. Olhou no espelho, deu um berro de Bom Dia para o mundo, tomou um banho, se barbeou e foi ajeitar a bagunça do dia anterior: a louça, o chão, a sujeira dos bichanos, a ração, a água. Olhou-se no espelho e gostou do que viu. Apesar da zona sentiu na pele o arrepio da felicidade. 
Mas não pense que havia algo de especial acontecendo. Nada disso. Era só o frescor da brisa batendo, era só a sensação de estar vivo, era só a contemplação dos seus animais felizes olhando para o seu rosto ainda inchado de sono chamando para brincar de viver. Era só jogar um ratinho de brinquedo para o alto e pronto! Quatro felinos o disputavam como se fosse caça de carne e sangue aquele objeto. Mas tudo terminava em festa. Com miados, chiados e um ou outro rosnado mais agressivo de quem provavelmente levava o jogo à ferro e fogo. Os pequenos felinos estavam lhe dando uma lição de vida naquele exato instante. Levar tudo por demais a sério pode ser um problema e tanto. Tornar o jogo da vida uma partida de vida e morte só pode trazer sofrimento. (Os animais jogam. Os homens idem. Entre os mais selvagens o jogo é sério. É questão de sobrevivência. E este quê visceral é pura poesia da existência.) O gato zangado havia sido excluído do jogo. Rosnava tanto que os outros acabaram se afastando e foram achar um outro objeto para brincar. Alguns minutos depois, porém, Yoda cansou-se de vociferar para os outros. Curioso foi se aproximando do grupo que fazia a festa com um pintinho de estimação de Prince o principal rival de Yoda... Minutos depois era este o outro objeto alvo da disputa dos quatro e parece que o gato zangado estava mais calmo, pois brincava com os outros despreocupadamente. Teria aprendido a levar a vida com mais leveza? Talvez... A curiosidade pode matar o gato? Com certeza. Mas ela é também uma grande qualidade... É ela quem dá abertura para continuarmos a jogar. Assim são as manhãs de setembro... Leves e sensoriais. (É o amanhecer dos que se preparam para a primavera. Ela chegará como em todos os anos lá pelos finais do mês e como sempre pássaros e borboletas vão pousar nas janelas das casas e encantar os cenários.) Os gatinhos estarão também lá entretidos com a abundância de pequenos animais que se mostram provocando seus instintos. Eles vão olhar os pássaros pousando na janela e nos telhados. Vão resmungar um pouco porque são bichinhos de apartamento e não tem a mínima possibilidade de capturarem pombos, rolinhas, andorinhas e afins... Alguém já observou o resmungo de um gato quando contrai as mandíbulas impossibilitado de capturar sua presa? Ele fica ali, tenso, frustrado, e cheio de desejos. 
Sim... Caro leitor... As manhãs de setembro são plenas de desejo. É tempo de caça e caçador... É tempo de Amar. Mas também de brincar e brindar a Vida em todas as suas dezesseis dimensões... Pois Tudo respira... Sentimentos. “Eu quero sair... eu quero falar... eu quero ensinar os meninos a cantar nas manhãs de setembro!” Mas este é assunto para a próxima crônica...
Escrito por MARCOS MAZZARO às 08h41
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Agosto o mês do bom gosto Texto: Marcos Mazzaro  Agosto tem fama de bicho papão para a maioria das pessoas crentes ou não em uma natureza metafísica. São conhecidos os provérbios populares: agosto, o mês do desgosto, agosto, mês do cachorro louco. Outro dia logo no início do mês um amigo meu conhecido pelo seu otimismo chegou e mandou sua previsão sobre os próximos trinta dias “Agosto me causa pavor”. Era o início do mês. E estava atolado de questões para serem resolvidas. Mas nas minhas crenças reservava para o mês anterior, julho, a causa de todos infortúnios. Isto por conta de uma antipatia numerológica com o número 7. No fundo uma grande bobagem. Nossa multiplicidade permite mesmo que sejamos tolos às vezes.  (Hoje descobri que quero ser tolo quantas vezes for necessário. Quero rir de abobrinhas, ver o tempo passar. Hoje descobri uma leveza sustentável capaz de planar entre os mundos... Quero me surpreender... como uma gaivota.) Então... Pela manhã fiz as pazes com o sete. Quando li um compendio de numerologia entendi a seqüência lógica, pitagórica de existir... É necessário um tempo pra alma se alimentar, respirar e contemplar o instante. Este momento é representado pelo SETE. Pois que depois desta contemplação absoluta eis que o número seguinte nos dá outra tarefa: Quadrado sobre Quadrado, Terra Sobre Terra. Concreto Sobre Concreto. Inverta e conseguirá o infinito. Agosto para mim também não era a época mais simpática do mundo, mas por ter certa simpatia pelo oito criei para mim um propósito: haja o que houver não vou culpar agosto. E fomos que fomos. Acabamos indo: Viajei para visitar a minha família em Presidente Prudente. Estava com um trabalho engatado no Rio o que me impediu de prorrogar a estadia com meus entes queridos. Quando voltei mais novidades. Sentia o cheiro de mudança no ar. Foi só acionar o start que boom! A bomba explodiu. Ou implodiu? Porque todas as rupturas que se seguiram pareciam já programadas.
(Prefiro a partir de agora imagens poéticas. Prefiro olhar para os dias ensolarados de agosto. Para o friozinho na barriga que dá quando atravessamos um portal. Sinto no corpo o instante impressionista das catedrais de Rouen pintadas por Monet). Nesta manhã acordei com a alma brilhando... Neste final de mês de tantas tribulações senti um gosto adocicado na boca. E o frescor dos ventos prenunciando as manhãs de setembro...().  “Eu quero sair eu quero falar... eu quero ensinar os meninos a cantar... nas manhãs de setembro... nas manhãs de setembro... nas manhãs!”
Escrito por MARCOS MAZZARO às 19h28
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Sinto na Pele, Logo Existo. Texto: Marcos Mazzaro 
O dia mal amanheceu. As névoas estão entrando pela minha janela. Sou íntimo delas, conheço suas texturas, a umidade, o friozinho refrescante das gotículas de água delas.Elas contornam e moldam o corpo sonolento estendido na cama Todas sensações me inebriam. Em algum lugar bem imaterial de mim mesmo parece que vou diluir. E multiplico meus focos. Olho-me demais. Tenho muitos focos de luz úmidos. E todos me fascinam. Sou quase um caleidoscópio imerso em sensações. E o mais difícil é se apreender quando nos descobrimos múltiplos, diversificados. Mergulhados nesta diversão infinita de sensações físicas. Deixo-me levar. Mas talvez ai esteja uma saída...Tenho fome de materialidade, de physis, de toque. Viver é arrepiante: esquento, esfrio, congelo, pra depois na neve derretida renascer como um broto pronto para novamente respirar e sorver o sol. Olhar para os vaga-lumes era um dos meus passatempos prediletos quando era criança... Eles piscavam na noite criando infinitos pontos de luz. E eu gostava na maioria das vezes de contemplá-los. Olhar para aquelas lanterninhas vivas na terra me apontavam para as infinitas estrelas brilhantes lá no céu. Mas os bichinhos de luz própria estavam aqui na Terra. Não é curioso? Eles eram concretos. Eu poderia tocá-los se quisesse. Quantas vezes, fascinado, eu os aprisionava por um instante só pra ter o prazer de vê-los piscar na palma da minha mão. Vir do interior talvez tenha suas vantagens. A gente olha para os vaga-lumes e para as estrelas. A gente sente os animais de outro modo. Galopamos nas costas de corcéis só pra sentir o perfume do vento... A Liberdade. 
Tanto a luz da terra, quando a luz do Universo Estelar se apresenta pra nós de um modo intenso e visceral. Aprendemos a pisar na terra molhada e tomar banho de chuva sem os pudores da cultura urbana totalmente voltada para a construção de imagens perfeitas de photoshop. Ter suas origens calcadas neste solo fértil onde brota o humus a todo instante me tornou de repente um sensorial incorrigível. Mas tenho um pressentimento estranho para o futuro deste mundo imagético e virtual que nos domina. Estamos tão rodeados de belezas e ídolos construídos. Falta neles sangue e cheiro. Falta hálito e o perfume dos estábulos. Falta Vida! Mas acredito, sim... Sou um homem de crenças incorrigíveis e com a mesma intensidade sinto na pele que um dia toda esta virtualidade humana construída através de uma platônica visão do mundo vai se desmanchar novamente na história humana. Há de demorar muito ainda... Porque este movimento que nos arrebatou dos sentidos começou há quase três mil anos e ainda está em curso. De lá pra cá viemos nos empenhando em cada vez mais em virtualizar a Vida. Virtualizar atribuindo-lhes características nada palpáveis, nada humanas. Um dia todo esse arsenal de idealizações construídas na velocidade da técnica vai desmoronar. Um dia o programa construído, principalmente nestes dois últimos séculos, e mais ainda neste início de terceiro milênio vai se esfacelar, virar farelo, terra, cinza. Neste dia... Talvez... Não só possamos tocar os bichinhos de luz, hoje absolutamente raros. Haveremos de transcender fazendo do corpo nossa obra-prima. 
Escrito por MARCOS MAZZARO às 09h01
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A Queda Parte 7 Texto: Marcos Mazzaro 
No Hospital Clean: Ivan e o Diretor Geral. Abra as cortinas, por favor! O diretor geral vai até a janela... Abre as cortinas. Uma luz imensa penetra o lugar. Você dormiu bem esta noite? Sim. Como uma criança... Nos braços do Criador... Criador? Você sempre foi cético. Dá pra ver pelo que você escrevia... Anjos Profanos...Personagens sem nenhum caráter... Eu já morri? Para todos os efeitos, como disse a enfermeira chefe sim! Mas você sabe. Todos estão mortos. Tudo não passa de simples aparência, nós somos personagens da Vida... No fundo nós somos quase fantasmas...Prontos pra desaparecer... E reaparecer... E desaparecer de novo... Entramos e saímos de cena... Você mais que ninguém sabe do que estou dizendo. Há quanto tempo estou aqui? Uma semana. Está no fim. Não se preocupe. Está no fim? Sim. Questão de tempo...De horas, de minutos, talvez. Aquele rapaz... Depois da janela... Longe...Encostado na pilastra...Quem é? Eu que sei? Ele é seu... Não é meu! Sei Ele continua falando... Falando... Falando... Repetindo compulsivamente algo que não compreendo. E ele sempre está lá? Sim. Mas muda de rosto às vezes. Mas se eu soubesse decifrar o que ele diz com os lábios...Saberia...Ele repete sempre... Quer um charuto? Pode fumar aqui? Aqui pode tudo Ivan! Tudo! Ivan se recosta na cama de modo mais confortável. O diretor geral se aproxima e lhe dá o charuto. Ivan o acende. O diretor geral também acende seu charuto. Eu descobri o que ele diz...! Eu descobri! E o que ele diz? BLACK GERAL. FUMAÇA. MUITA FUMAÇA. XXX Miguel encostado em uma pilastra. Miguel, desgrenhado, fora de si. Sinto muito...Me Perdoa...Obrigado por tudo! Eu te Amo! Talvez eu deveria dizer o que você diz! Eu fiz tudo tão errado... Eu tenho que ir. O projeto social começa na segunda feira na Universidade. Eu vou pegar o vôo de sábado...Quero descansar... Entendo...Então...Boa Viagem! Para você também! O que você disse? Boa Viagem! 
(continua...)
Escrito por MARCOS MAZZARO às 00h33
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A QUEDA PARTE 7 (ENTRE UM BEIJO E OUTRO... ENTRE UMA PEÇA E OUTRA DE ROUPA QUE VAI PARA O CHÃO, DESNUDANDO-OS)  Naquela noite antes de amanhecer caiu uma tempestade. E quem se inundava afinal? Que água era aquela que despencava sei lá de onde e parecia ao mesmo tempo me inspirar, me renovar e me dar fôlego para continuar apesar de todos os medos e dúvidas? Sentia pela primeira vez uma espécie de fusão. E esta sensação me causou um enorme incomodo. A chuva que caia pesada, azucrinando minha alma, meu corpo, me forçava a olhar ainda mais para ele. Para aquele rapaz que envolto em lençóis parecia mais uma criatura vinda de outro mundo. Que não combinava com nada do cenário mundial, mundano, global, que tanto conheço. ( O Corpo Nu de Miguel. Ele se mexe entre lençóis) 
Ivan Escrevendo No fundo, no fundo, eu não sabia dar nome ao que sentia. Mais parecia que estava criando um roteiro, uma estória, um romance, algo que fosse do domínio da arte, de uma beleza que tentasse ultrapassar todas as vilanias humanas. Eu naquele momento estava inventando mais um amor para mim mesmo. Inventando para que fosse suportável aquela sensação de embriaguez que o corpo dele me provocava. E não saberia dizer se tudo o que sentia era conseqüência do final da bebedeira... Se tudo não passaria de pura volúpia sexual. O velho filme de uma noite intensa e fugaz de gozo que me arrebata desde a infância. Quando olhei para o corpo dele emaranhado nos lençóis, quando senti aquele cheiro de porra no ar impregnando as roupas espalhadas pelos quatro cantos daquele quarto moderninho, cheiroso e tão clean eu me recordava de poucas coisas. Mas de repente...Me veio a mente de um modo maldoso o exato lugar onde eu guardei o carro naquela noite. ...Em um estacionamento da Glória antes de decidir encher a cara e mergulhar naquelas sensações todas... Mas além da imagem do exato lugar de onde eu havia deixado o carro eu não conseguia me lembrar de mais nada. Miguel era um sonho. Que se evaporaria ao primeiro brilho do sol. E a luz começou a invadir aquele quarto. Como se um segundo sol estivesse invadindo as órbitas do planeta... Como naquela música...Eu me levantei fui até a janela e fechei as cortinas...  MÚSICA: BILHETINHO AZUL/ CAZUZA ( Transição) Ivan se levanta. Vai embora. Bate a porta. (CONTINUA...)
Escrito por MARCOS MAZZARO às 23h58
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A Queda Parte 6
Da primeira vez que vi Miguel foi a uma visita que fiz a Universidade. Ele estava encostado displicente na escada de acesso. Eu tava atrasado para o debate Mas não pude deixar de olhar... Cabeludo... Barba por fazer. E os olhos vivos, flamejantes por causa de uma discussão com um colega. Ele tem um jeito de brigar pelo que acredita que nunca vi na geração dele... Você tem fogo? Eu não fumo...Mas tenho um isqueiro aqui. Pode Ficar com ele! XXX 
Da segunda vez que eu vi Ivan... Foi na madrugada da Lapa Vazia e Selvagem... Ele estava completamente embriagado. Eu me preparava para entrar no meu carro. O que me tocou, o que me emocionou naquele quase cinquentão? Era talvez a bebedeira que escondia a fragilidade de uma criança... Acho que senti por ele desde o início uma espécie de compaixão. Eu te conheço! Um tempo atrás você me deu um isqueiro! É verdade! Você é o escritor de minisséries...Eu sou Miguel. Naquele dia não me apresentei. Você tem idéia do que é esquecer o lugar onde você deixou o carro depois de umas biritas???? Talvez...Você vai tentar achar o seu carro ou...? Um desespero, uma carência urgente, um transe. Me leva pra sua casa... Me leva pro seu ninho...Me leva pro seu esconderijo...Me leva pro céu...Me leva... Você é engraçado cara...Mas ok...Vou te dar um berço hoje... XXX Qual o gosto de um beijo roubado? Depende Eu vou te dizer... Um beijo roubado é como uma vertigem que antecipa uma queda... Por que? Porque quando a gente está pra mergulhar no desconhecido dá tontura... A gente esquece tudo. Até onde deixou o carro... Até o horário marcado com a mulher, com os filhos... Eu me lembro que a Marta me pediu algo para as crianças... Mas eu não sei dizer o que foi... Sempre foi assim? Sabe que eu não sei? Eu nada sei... Tenho um bicho dentro de mim que vai me guiando e que só sabe deixar rastros... Rastros? Sim. Rastros...Eu peguei uma estrada mas não consigo retornar. Não sei qual é o caminho de volta...Eu marquei minha trajetória com pedaços de pão... Só que os pássaros e os animais comeram as pistas que podiam me mostrar o retorno pra mim mesmo... Mas quem consegue? Todos nós marcamos a nossa estrada com coisas perecíveis... Até as pedrinhas... Se você pensar melhor não garantem um caminho de volta. Elas se parecem muito e podem confundir. Ou o vento, as chuvas, as tempestades podem tirar o que a gente colocou no lugar com tanto cuidado... Quando você olhar...Elas não vão estar lá. São anos tentando ser e agir dentro de um esquema que desconheço... A Marta... Meus filhos...Nem sei se deveria falar agora...A impressão que tenho é que não estou lá... Que tenho necessidade de outro espaço e tempo... Eu preciso respirar...
UM BEIJO DE PERDER O FOLEGO...
Escrito por MARCOS MAZZARO às 23h40
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A Queda Parte5 A Carta de Marta (continuação) 
Como você se organizaria? Como cumpriria os prazos? Como você escreveria suas minisséries sem a minha ajuda? Em algum lugar de você mesmo a verdade deve aparecer. Eu construí parte do que você é. Um pouco como em Cyrano de Bergerac... Na ilusão de te conquistar. Eu transformava os seus conteúdos brutos em campeões de audiência. .Eu me expressava através de você. Quantas noites eu não entrava madrugada adentro porque você simplesmente se abstraia de suas responsabilidades. Você também nunca teve noção de seus limites. Prometia entregar os capítulos em prazos irreais. Você nunca soube...Um dia liguei para o diretor geral e fazendo o papel da mulherzinha, fazendo o gênero frívola, debilóide, expliquei que seus furos eram digamos coisa de artista, de cabeças geniais...Essa bobagem toda. Sabe Ivan... Me fingir de idiota, de louca, de alienada, foi a saída que encontrei durante os muitos anos de nosso relacionamento. Desta maneira doía menos. Logo depois que voltamos ao Brasil, após o nascimento da Yara...Eu comecei a sentir que havia algo errado comigo. Não havia explicação para tanta submissão, para que eu me anulasse tanto. Procurei ajuda em um terapeuta. Talvez este tenha sido o primeiro passo para que aos poucos eu fosse tomando consciência do que estava acontecendo comigo. Eu me tornei um capacho, uma coisinha desprezível e pior! Eu gozava com isso! Um pouco depois eu adoeci e fui passar uma temporada na casa de meus pais. Levei as crianças. Liguei para o diretor geral e inventei que você estava com uma estafa. Você também nunca se perguntou porque eu insisti tanto para que você me entregasse uma procuração para te representar junto da emissora. Eu assinei e cancelei alguns de seus contratos. O que mais me deixava intrigada era sua despreocupação total sobre esses assuntos. Realmente, se eu não estivesse ao seu lado sua carreira não duraria um verão! Mas agora... Com um pouco de lucidez posso notar que fazia também pelas crianças. Eu temia uma queda bruta nos nossos rendimentos. Você nunca soube lidar com grana. Poderia ganhar 20, 30 mil reais...Viveria sempre duro e endividado.
 Mas é isto meu caro! Você não pode imaginar o prazer que sinto quando escrevo estas linhas finais. Você não pode imaginar o quanto me senti viva quando me fiz de idiota e comentei como quem não quer nada o telefonema de Miguel. O seu anjo voará para longe meu amor...Sabe...Ele não suporta mais você e esta sua obsessão por corpos, esse seu jeito de garotão apesar de seus quase 50 anos. Eu fiz questão de dizer pra você... Como também fiz questão de ter uma ultima conversa com ele antes de partir. Contei inclusive o telefonema que você deu para o Reitor em Madri. Acho que ele não gostou de saber a verdade. Acho também que ele não gostou nem um pouco de saber que eu estava a par de todas as suas atitudes estabanadas. 
Miguel é um menino bonito. E bom de cama! Olha...Me surpreendeu! E tem nos seus vinte e poucos anos uma dignidade angelical. Ele é diferente! Só para que você fique ciente...O Reitor da Universidade em Madri já sabe que tudo o que você falou é a mais absurda mentira. Basta olhar o currículo do rapaz, basta olhar suas relações políticas, seu idealismo, seus amigos. Eu poderia até dizer pra você o seguinte...Miguel foi para você uma segunda chance de olhar o mundo diferente. Mas você também mais uma vez perdeu o bonde da sua história...Quando passará o próximo meu lindinho?O mais espantoso para mim ainda é pensar ou imaginar que você, Ivan, é incapaz de sequer enxergar esta realidade. Real-Idade. Real Tempo das Coisas. Há uma semana eu convidei seu anjo para tomar um uísque comigo. Ele não bebe, você sabe. Mas não resistiu e me comeu ali no nosso quarto. Talvez porque ele estivesse com muita raiva depois que soube sobre seu telefonema tentando impedi-lo de ir, talvez por conta dos detalhes que eu contei sobre nossa vida e que despertaram nele uma espécie de compaixão e admiração pelo que já vivi com você. Talvez por puro tesão juvenil! O fato é que ele queridíssimo me possuiu com furor. Mas seu corpo transpirava suavidade, carinho... Sim...Meu querido, queridíssimo...Ele tem uma pegada (não é assim que se diz?) e enquanto eu fingia que sentia alguma coisa...Ele se desdobrava em carinhos. Quando tudo terminou ele teve um acesso de choro. Suas lágrimas convulsivas por um instante me comoveram...Estes anos todos de convivência contigo me anestesiaram tanto, me alienaram tanto de mim mesma. 
Eu acho que congelei. Agora aos poucos, com muito esforço, (você não é capaz de imaginar o quanto é difícil) sinto que um vento quente há de soprar e derreter todo o iceberg. O que vai sobrar? Nem sei.Mas já escrevi demais. Por um tempo não quero mais lidar com palavras. Adeus meu caro engodo.  (Continua)
Escrito por MARCOS MAZZARO às 10h30
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A Queda Parte 4
A Carta de Marta Querido: Talvez você só veja esta carta amanhã, daqui alguns dias, daqui cem anos. Você está tão voltado para si mesmo. Você não vê nada além deste seu umbigo. Estou indo. E levo também comigo Pedro e Yara. Provisoriamente estarei na casa de Andréia, a única pessoa que sabe da real situação, de tudo o que vivi contigo nos últimos anos. Talvez a única pessoa com a qual eu tive coragem de dizer todas minhas verdades, além do meu terapeuta. De fato, estou atendendo ao seu pedido repetitivo que acontece a tantos anos. Porque no fundo no fundo eu sempre soube que a nossa união era_ como poderia dizer? um tanto perigosa...na verdade..._ um pacto sinistro para mim e para você. 
Bem antes, quando juntos cursamos a universidade, nos nossos 20 anos. Eu acho que já sabia. Mas eu o admirava tanto. Tanto... Pelas suas idéias e rompantes que em algum espaço de mim mesma eu resolvi que deveria te ajudar. Não sei se você se recorda. De início tivemos um time de pessoas absolutamente contra ao nosso casamento. Minha família inclusive. Todos diziam...”Mas como? Ele não é gay? Ou bi? Ou um sei lá o que?” “Dia desse eu o vi em uma situação constrangedora. Acho que ele sofre de priapismo! Não consegue pensar em outra coisa senão sexo, sexo, sexo.” “Esse rapaz tem problemas minha filha, é maluco”, dizia meu pai. Uma colega de faculdade até comentou...”Ele nem é tão inteligente assim você é bem mais que ele”. Mal eles sabiam...A mais doente, a mais doida, a mais...Talvez seja eu. Será que era isso mesmo? Eu sempre me achei uma estranha para mim mesma. E quando nosso casamento aconteceu daquele jeito precipitado porque de repente eu estava grávida do Pedrinho eu pus na minha cabeça que faria tudo, absolutamente tudo para que ele desse certo. Já se vão 15 anos...A idade do nosso primeiro filho...Você já notou como ele se parece com você? Ele me preocupa...Muito...Depois veio a sua súbita contratação como colaborador na emissora. Era um sonho antigo seu. Você sempre tinha idéias geniais... Sinopses maravilhosas. O problema todo era que faltava estrutura. E foi a partir daí que fui me tornando sua sombra. Porque você esboçava os capítulos pela manhã e sumia a tarde. A emissora ligava pedindo os scripts. Você desaparecia! E eu me habituei a toda a tarde reescrever tudo e deixar tudo em ordem para o dia seguinte. Você sempre esteve tão alienado sobre tudo que acontecia a sua volta...Que raramente notava ou discutia as mudanças que às vezes eu fazia para dar mais coerência às suas tramas mirabolantes. Ainda bem que quando novamente engravidei... Ainda bem... Que foi o seu período de licença da emissora. Yara teve a sorte de nascer fora do Brasil... Enquanto eu acredito vivi (pelo menos aparentemente) um tempo mais calmo contigo. Era só fazer vista grossa para suas escapadelas ou para os garotos que você trazia para o jantar. Suspeitei que também comigo algo estava errado. Que não era natural aceitar com tanta resignação tantas situações humilhantes. No fundo, no fundo, eu deveria sentir algum prazer em ser seu capacho. Mas também sentia um outro prazer estranho porque eu TINHA CERTEZA ABSOLUTA QUE VOCÊ NÃO SOBREVEVIRIA SEM MIM. (continua)
Escrito por MARCOS MAZZARO às 10h23
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A Queda Parte 3

Você entende Marta? Ontem o diretor geral da emissora me pressionou o tempo todo. Meteu na cabeça que eu tenho que enfiar os sete pecados capitais na série sobre os anjos. Tudo tem uma explicação lógica meu lindinho! Tudo! Ele deve ter muitos motivos para pressionar você...A propósito! O Miguel também ligou! Estava eufórico! Eu não agüento mais! Primeiro A Ira dos Anjos... Agora a emissora já está anunciando... A Inveja dos Anjos! E para a terceira temporada ele quer que eu enfoque a gula... É ridículo! Pior que do jeito que a história pegou ele vai querer levar ao ar os sete pecados capitais usando os mesmos personagens. Duvida? De repente a palavra mágica, o nome que encanta. O anjo dos anjos me acordou. Miguel estava retornando. Eu sabia. Aquela briga aconteceu só por causa da sua impulsividade que me enche de tesão. Meu Deus! Todo mundo sabe. Porque ela finge que não ta nem ai? O que você disse querido? Nada. Ele estava eufórico com o que? Ah...Aquela bolsa de estudos em Madri...Saiu. Não é maravilhoso? Acho que ele viaja semana que vem. Não. Impossível. Eu cheguei a ligar para o reitor contando sobre todos os podres dele... Quer dizer...Eu exagerei bastante para que ele não conseguisse aquela maldita bolsa. Não... Miguel...Você não pode... Você não vai! Bolsa de Estudos é? Ele não comentou com você? Vamos combinar né? O Miguel é tão distraído. Eu suspeito que ele tenha DDA. DD o que? DDA Ivan! Distúrbio de Déficit de Atenção... O novo nome que inventaram para os distraídos de plantão. Essas pessoas que vivem no mundo da lua como você... o Miguel!
Ele não vai para Madri! Que idéia! Assim que terminar esta temporada eu peço férias, a gente viaja... Mando esta chata da Marta embora. Todo mundo buzina no ouvido dela, eu mesmo... Já disse com todas as letras. Mas merda! Às vezes eu não resisto ao cheiro da boceta. De verdade eu não consigo resistir a nada. Nem a ela, nem ao Miguel, nem a quem se postar na minha frente nu. O mal está ai! Eu não consigo dizer não a qualquer criatura bonitinha que se insinue pra mim. E isso se agravou depois que fiquei famoso. Eu não consigo dizer não! Dia desses foi com o entregador de pizza. Magrelo do jeito que eu gosto. Ele chegou já se insinuando. Pediu um copo de água. Tirou a jaqueta reclamando do calor. Só me restou cair de boca e me lambuzar. Eu preciso ficar sozinho Marta! Vai dar uma volta...Compra uma pizza! Pizza de novo? Você não pediu ontem? É verdade. Mas vai dar uma voltinha... Preciso ficar absolutamente sozinho entende? Tenho que escrever o último capítulo de A Inveja dos Anjos. A Ira dos Anjos querido! Hoje eu não estou bem. Pensar que na segunda temporada vão ser mais 20 capítulos. É normal querido! É lógico! Você já está pensando na próxima temporada. Vai ser um sucesso absoluto. Tudo bem! Vou visitar uma amiga... Trago algo bem gostoso pra você. Vai sentir fome quando acabar de escrever. Eu sei. Conheço você como a palma da minha mão. Enfim sozinho. Posso agora folhear o jornal. Olhar minhas anotações. Ligar o laptop e logo fica pronto o ultimo capítulo desta merda de minissérie. Às vezes eu me pergunto como uma pessoa tão desequilibrada consegue escrever. Notícia absurda. A metereologia avisa da chegada de um ciclone extra-tropical ao Rio de Janeiro. Agora temos esta novidade. Ciclones, tufões. Não era aqui no Brasil que estas pragas não aconteciam? Eu tenho que ligar para o Miguel. Não foi o que a gente combinou. Iríamos para Madri depois que o contrato com a emissora terminasse. Celular desligado. Deve estar pegando um daqueles seus colegas gostosinhos na Universidade. Ele é como eu. Por isto gosto tanto. Ele não consegue dizer não.
(Continua)
Escrito por MARCOS MAZZARO às 01h20
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A Queda Parte 2
Quando Ivan Capella acordou estava deitado em uma cama confortável, em um quarto de hospital, muito, muito confortável. Ao seu redor uma loura toda de branco trocava o seu soro e no canto, sentado em uma cadeira, um homem de terno, gravata, mas extremamente carismático fumava um charuto havaiano. Ambos absolutamente desconhecidos.
O que aconteceu? O senhor caiu do décimo andar de seu apartamento. No meio daquele grande temporal que assolou a cidade há uma semana atrás...Aliás,... Vamos combinar! Nunca vi um temporal daqueles. Nem eu! O mais estranho e é este o motivo do senhor estar aqui... É que apesar de despencar do décimo primeiro andar em um edifício da Vieira Souto o senhor não sofreu nenhum arranhão. Despencar? É... O senhor estava na janela. De repente! Seu corpo caiu igual a um saco de batatas. A senhora deve estar zombando de mim! É mais fácil que o senhor esteja... Aliás,...Me chame de Marta. Marta? Sim senhor Ivan! Sou a supervisora geral nestes casos bizarros... O que há de bizarro? Eu caí e pronto! É o que o senhor diz. Gostei muito de seu ultimo livro. A Ira dos Anjos. Obrigado! E aquele senhor encostado fumando o charuto? É o diretor geral. Só fala quando necessário. Sei... Não. O senhor não sabe. Se soubesse não estaria aqui! Sua família já foi avisada, sua mulher, seus filhos, até o seu amante! Como? É...A notícia de sua morte já se espalhou pela cidade. O senhor sempre teve uma vida... Digamos...Incomum! Pronto! Seu soro já está regulado. Pressão normal. Batimentos cardíacos espantosamente bons. Nenhum arranhão... Pode descansar! Minha morte? Nunca me senti tão vivo! Mas de fato! Este é o mistério! O senhor não morreu. Mas a Comissão achou melhor dá-lo como morto, entende? Depois se for possível nós o ressuscitaremos Não. Não entendo. Um dia talvez o senhor entenda... A propósito... Vou deixá-lo com o diretor geral. Boa noite Ivan!
Ela apagou a luz. Da cama Ivan só conseguia ver a brasa do charuto daquele homem robusto de quase dois metros que parecia não tirar os olhos dele. Mas aos poucos até aquela imagem parecia sumir... Uma sonolência brutal tomava todo o seu corpo... Para além daquela brasa queimando e da fumaça... Além...Da ampla janela ele via um belo jovem encostado sorrindo e que parecia querer dizer algo. Apesar de grogue Ivan notava nitidamente. Ele mexia os lábios carnudos e falava palavras que ele não conseguia compreender. 
Escrito por MARCOS MAZZARO às 23h56
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